“Todos precisamos deste bem que este Senhor Santo Cristo faz ao nosso coração”, afirma padre Manuel António das Matas

Reitor do Santuário presidiu à missa e proferiu “Sermão da Praça”

Foto: Eucaristia hoje na Caldeira/Info-Fajãs

A Fajã do Santo Cristo voltou este domingo a ser o centro da devoção e da fé dos jorgenses, com a celebração do dia maior da festa do Senhor Santo Cristo da Caldeira. Entre a paisagem singular da Caldeira, o silêncio e a presença de numerosos peregrinos e devotos, o momento alto da jornada foi também marcado pelo tradicional Sermão da Praça, este ano proferido pelo padre Manuel António das Matas.

Com 36 anos de presença pastoral na ilha de São Jorge, o sacerdote falou de uma fé que se constrói na vida concreta de cada pessoa, nas suas alegrias, mas também nas suas dificuldades, doenças, perdas e preocupações.

Partindo do convite lançado pelos santuários da diocese para uma reflexão sobre o batismo, o padre Manuel António das Matas questionou os fiéis sobre o significado de serem batizados e deixou um apelo à descoberta renovada da condição de filhos de Deus.

“É uma beleza sabermo-nos filhos queridos de Deus”, afirmou, defendendo que esta reflexão deve ser retomada e repetida, para que o batismo não seja apenas um acontecimento do passado, mas uma realidade vivida no quotidiano.

O sacerdote relacionou depois a deslocação dos fiéis à Caldeira com o convite de Jesus: “Vinde a mim todos vós que andais cansados”. Para muitos, explicou, a ida à Fajã de Santo Cristo é acompanhada por uma intenção concreta – por um filho ou uma filha, por uma doença, por uma dificuldade ou simplesmente pelas circunstâncias da própria vida.

“Há muitas histórias contadas e outras vividas interiormente”, observou, sublinhando que cada pessoa chega àquele lugar carregando consigo uma história própria.

Na sua intervenção, o padre Manuel António das Matas destacou também o silêncio particular da Fajã do Santo Cristo como uma dimensão importante da experiência de quem ali peregrina.

“Esta Caldeira tem um silêncio… e o silêncio é um remédio para a nossa vida”, afirmou, considerando que é no silêncio que muitas vezes o ser humano consegue reencontrar-se consigo próprio e com Deus.

Num tempo marcado por dificuldades e sofrimento, o sacerdote lembrou que a fé cristã não promete uma vida sem cruz.

“O Senhor não quis passar sem a cruz”, afirmou, explicando que o sofrimento, apesar de não ser procurado, faz parte da condição humana e pode ajudar a compreender o valor e a profundidade da própria vida.

“Não é por masoquismo”, esclareceu, mas porque todos têm de atravessar momentos difíceis para que a vida possa ser vivida de forma “realizada, feliz e alegre”.

A partir da sua própria experiência, admitiu ter passado pelas “dores da doença e da vida”, numa intervenção marcada pela proximidade com os fiéis.

A presença do padre Manuel António das Matas em São Jorge, ao longo de 36 anos, ganhou particular significado no contexto da celebração.

“Foi um tempo belíssimo”, afirmou o sacerdote, numa referência às mais de três décadas ligadas à ilha e às suas comunidades.

Nesse percurso, destacou o papel do Senhor Santo Cristo da Caldeira como presença de consolo e conforto para sucessivas gerações de jorgenses.

“Este Santo Cristo é o consolo, o conforto, a alegria, o que ajuda a ultrapassar as nossas dificuldades”, afirmou.

E deixou uma mensagem dirigida a todos, dos mais idosos às crianças que ainda são levadas ao colo: “Todos precisamos deste bem que este Santo Cristo faz ao nosso coração”.

O sacerdote apelou ainda a que esta presença de Cristo não fique limitada ao momento da festa ou ao espaço da Caldeira, mas se prolongue por toda a vida das comunidades, nas atividades, nas instituições e nas relações entre as pessoas.

“Sejamos pessoas que vivem o seu batismo”, pediu, reforçando que a fé deve traduzir-se em atitudes concretas de acolhimento e de amor.

A concluir, o padre Manuel António das Matas deixou uma mensagem centrada no amor, recordando que “Cristo é amor” e que “o lugar do amor é o coração”.

 

A celebração na Fajã de Santo Cristo voltou, assim, a reunir a dimensão religiosa e a identidade comunitária de uma das mais importantes manifestações de fé de São Jorge. A festa do Senhor Santo Cristo da Caldeira constitui anualmente um momento de reencontro para os jorgenses, mobilizando residentes, emigrantes e visitantes numa peregrinação marcada pela devoção, pela tradição e pelas memórias familiares.

Ao longo dos anos, a Fajã tornou-se lugar de chegada para quem procura cumprir promessas, agradecer graças recebidas ou simplesmente encontrar conforto perante as dificuldades da vida. Também este domingo, entre a oração, a celebração e o convívio- duas Missas, um sermão e uma procissão-, foram muitos os que levaram até junto do Senhor Santo Cristo as suas preocupações e esperanças, incluindo os jorgenses que vivem longe da ilha e que permanecem ligados à sua terra e às suas tradições religiosas.

Scroll to Top