Pelo padre Nuno Pacheco de Sousa

O Rui Veloso canta que a primavera da vida é difícil de viver, e talvez seja mesmo, mas é também um tempo interessante e particularmente desafiante na nossa vida, onde o mistério é enorme, a par da nossa força e da nossa audácia de descobrir, conhecer e ser, ser, ser, escolher, enfrentar, ganhar e seguir. Ficamos entre o colo e o conforto do mundo conhecido e todo um outro mundo que está por desbravar, por reconhecer, entre uma conceção de urbanidade que nos suporta e um desafio constante das leis, dos cânones, do que é instituído, com uma paixão e um fogo ímpar, roubado a um deus prometaico. A par disso, ninguém nos ensina, mas vamos também aprendendo a entrelaçar o coração, a entregar o sorriso e a presença a quem nos faça sentir as benditas borboletas no fundo do estômago.

Lá mais para o final do tempo escolar aparecem os maiores dilemas, onde já não se sofre apenas por se escolher entre um chocolate ou um gelado, mas em estudar ou ser isto ou aquilo. Vem, em muitos casos, o ficar ou o partir de casa, mas sempre com a ideia de um dia voltar. Sabemos que isso também era uma ilusão de quem se divide para crescer. É a idade onde tudo se sente com uma intensidade ímpar, onde cada sim ou não parece ser um precipício refrescante como um mergulho em mar bonançoso, mar alto e límpido, onde o mistério é sempre ainda maior.

Por vezes, hipotecamos logo a nossa vida, e bem. Outras vezes, esperamos, hesitamos, adiamos, rodopiamos, estabelecemos outras prioridades, mas no fim, apenas fica, apenas acontece o que vale realmente a pena. Como outrora alguém escreveu, que estamos a sós com aquilo que realmente amamos, mas é igualmente bem verdade o que Dostoiévski afirmou ao escrever que o mistério da existência humana não reside apenas em permanecer vivo, mas em encontrar algo por que valha a pena viver

É bem verdade, sim senhor, é tão verdade que vemo-lo bem por estes dias, quando contemplamos e homenageamos aquilo que foi a vida, a obra, o ser e o fazer de um homem que permitiu-se ser padre, para além de ser António Cassiano.

É tão verdade, é bem verdadeiro, que este mistério reside no encontro com algo por que valha a pena viver e isso encontrou o Jorge Sousa, e tantos como ele, que vão-se entregando muitas vezes no silêncio dos dias percorridos.

Cassiano, que Deus te recolha com saudade. Jorge, que Deus te abençoe, abrace e te faça um pai(dre) generoso e disponível.

Deus não se engana, o tempo nem sempre se encontra, mas a Vila, numa partida e numa chegada, deve se sentir abençoada.

*Este artigo foi publicado no jornal A Crença.