Interlocutor diocesano junto do Santuário de Fátima faz balanço positivo da visita da Virgem Peregrina

Sítio Igreja Açores- Que balanço faz da visita da Imagem Peregrina?

Cónego Hélder Fonseca Mendes O balanço, de um modo geral, ao terminar a visita, é bastante positivo, pela elevada e surpreendente participação de gente de todas as idades, condições sociais e níveis de afetação e pertença à Igreja bastante diferenciados. É uma exceção à regra da indiferença generalizada que se vive na Igreja e na sociedade açoriana dos nossos dias. É uma visita onde todas as boas vontades se conjugam, de dentro e de fora da Igreja. Transbordam a fé e alegria, onde o sofrimento e a confiança estão presentes. O mais denso e profundo em cada pessoa, independentemente da cronologia dos acontecimentos, vem fora nestes dias em cada encontro. As lágrimas de cada rosto são disso expressão emotiva e comovida. Sem co – moção não há conversão.

 

Sítio Igreja Açores- Em muitos lugares houve, porventura, algum desrespeito pelas orientações iniciais que apontavam para um momento de encontro e de permanência nas Igrejas jubilares o que provocou, aqui e ali, algum contratempo e incompreensão das populações onde essas orientações foram respeitadas. O que é que falhou na comunicação?

Cónego Hélder Fonseca Mendes- As orientações diocesanas de pastoral deste ano indicam que «a visita da imagem peregrina poderá coincidir com a igreja jubilar ou com outra, na ilha ou ouvidoria». O «discurso» global e unitário da visita nas 16 ouvidorias passa pelas 14 obras de misericórdia próprias deste ano. De um modo geral, as oito ilhas que coincidem com uma Ouvidoria respeitaram a visita da imagem à igreja jubilar própria, bem como quatro ouvidorias em São Miguel, e isso foi muito positivo. As restantes não resistiram a pressões populares, de dentro e fora, para que a imagem «corresse todas as freguesias» e entrasse em todas as igrejas. É sinal que temos de trabalhar mais pela ilha como «unidade pastoral», mesmo nas decisões mais difíceis e firmes ou menos populares e simpáticas.

 

Sítio Igreja Açores- Esta visita foi muito participada. O que espera que possa ficar?

Cónego Hélder Fonseca Mendes- A visita, de si, é provisória e ocasional, na sua materialidade. Mas há visitas curtas que nos marcam para o resto da vida. Como aconteceu em Angra em 1948 e em 1988. A visita é passageira. A mensagem não: «as Minhas palavras não passarão». A fé desponta como confiança e relação possíveis. As pessoas vêm à igreja como a sua casa, a mesma casa de Maria. Como não podemos ir todos a Fátima, Fátima vem a todos. Dos conteúdos das celebrações de 53 dias nos Açores, multiplicadas por uma média de 16 horas diárias, para além das madrugadas em que algumas igrejas ficaram sempre abertas, podemos imaginar o que isso significa. O programa, de hora a hora, da visita é muito rico do ponto de vista dos conteúdos espirituais e de destinatários tão diferenciados. Isso ficará certamente como a memória das mediações religiosas que tivemos mais explícitas nestes dois meses em todos os recantos da nossa diocese.

 

Sítio Igreja Açores-  Alguns ouvidores disseram que foi um momento onde pessoas que estão afastadas da igreja se reaproximaram. O que deve ser feito para manter esse apego e esse compromisso?

Cónego Hélder Fonseca Mendes- A imagem peregrina de Nª. Sª. de Fátima tem um poder de atração e de convocação extraordinário, difícil de igualar. Esta condição excecional associada ao fato da religiosidade popular não ser regular, no sentido de manifestações semanais, quanto muito anuais, leva a que esta manifestação tenha um efeito de onda. As ondas, que vão e vêm, também deixam as suas marcas. «O lixo vem ao de cima» e a restituição da beleza original torna-se possível. Depois é necessário fazer o trabalho de manutenção «da graça». Para isso, temos a oração e os sacramentos da Igreja, como a Reconciliação e a Eucaristia, que são os sacramentos que podem manter o nível espiritual que esta visita nos trouxe.

 

Sítio Igreja Açores-  O que mais destacaria desta viagem e desta peregrinação?

Cónego Hélder Fonseca Mendes- Para além do que está dito, julgo ser uma manifestação que contraria a atitude de apatia, indiferença ou afastamento das «coisas» de Deus (piedade) que temos assistido entre nós como expressão do secularismo num mundo virtual. Por outro lado, o fato de todos participarmos do mesmo Espírito Santo que plenificou a Virgem Maria, ouvirmos o mesmo Evangelho, terminando sempre com a Eucaristia e a adoração do Santíssimo, visita acompanhada sempre pelo Bispo como sucessor dos apóstolos, garantia da comunhão com as outras Igrejas irmãs, percorrendo por terra, mar e ar, todos as nossas comunidades, é um sinal extraordinário de comunhão no mesmo Senhor, na mesma fé e no mesmo Batismo. Um sinal de unidade reforçado na Igreja nos Açores.

 

Sítio Igreja Açores- Os senhores bispos têm apresentado esta peregrinação como um momento de aproximação  da diocese ao Santuário de Fátima, numa verdadeira comunhão com o espirito de celebração do centenário das aparições. Vai a diocese de Angra fazer alguma peregrinação jubilar?

Cónego Hélder Fonseca Mendes- O espírito desta visita, em que a imagem não foi a todas as igrejas, não «andou a correr freguesias», foi já de si o espírito da peregrinação jubilar à porta santa da misericórdia. A visita em si é o resultado de duas vontades, como Maria e Isabel. Nós fizemos como Isabel, recebemos a visita de Maria, mas também fomos ao seu encontro. Isso já é decisão de «subirmos a Jerusalém». Neste sentido, temos uma peregrinação jubilar diocesana agendada para o encerramento do ano Santo à Terra Santa, presidida pelo nosso Bispo. Temos anualmente peregrinações diocesanas organizadas ao Santuário de Fátima com os «mensageiros de Fátima», os doentes e as crianças. Certamente não faltarão ocasiões para, ao longo do ano centenário, irmos a Fátima, agradecer e retribuir esta visita, para que não se perca o Senhor Jesus da vista, da escuta e do coração na alegria do Seu encontro.