
O Papa Leão XIV afirmou hoje que “promover a liberdade implica defender os espaços de consciência”, no encontro com os capitães-regentes da República de São Marino, na visita que realiza esta manhã ao pequeno Estado europeu, no norte de Itália.
“Não existe verdadeira liberdade civil sem liberdade pessoal, ou seja, sem o respeito e a promoção da dignidade da pessoa humana, da qual a liberdade é uma componente essencial. Esta liberdade é concedida e garantida, em última análise, por Deus, cuja voz ressoa na consciência de cada ser humano”, referiu, no discurso proferido na Sala do Conselho Grande e Geral, perante autoridades e sociedade civil.
A visita de Leão XIV à República de São Marino segue-se às deslocações de São João Paulo II, em 1982, e de Bento XVI, e surge em resposta ao convite oficial formulado pelos antigos capitães-regentes Matteo Rossi e Lorenzo Bugli.
No discurso, o Papa lembrou os “muitos homens e mulheres que, em todas as épocas e em todos os lugares, são mártires da liberdade porque testemunham precisamente o primado da consciência”.
“Ainda hoje, em muitas partes do mundo, não faltam pessoas que permanecem fiéis à sua consciência mesmo em contextos de grande adversidade, testemunhas da verdadeira liberdade, aquela que deriva do facto de serem filhos e filhas de Deus”, lembrou.
“Com admiração, expressamos a nossa solidariedade para com todos aqueles que, neste momento, pagam pessoalmente por não terem traído a sua consciência”, mencionou.
O Papa destacou que, além disso, “a liberdade concretiza-se na doação, na comunhão, no encontro e no diálogo”, recorrendo à imagem de “uma planta que cresce e produz ramos e folhas para oferecer a todos oxigénio, sombra, perfume, frutos e novas sementes”.
“E como poderia ser de outra forma, uma vez que brota da fonte que é o Amor Uno e Trino? Esta referência teológica pode talvez parecer excessiva, mas creio que hoje é necessária, face à idolatria que corrompe na raiz aqueles projetos políticos e económicos que se apresentam em nome da liberdade, mas que, na realidade, são escravos dos ídolos e do poder”, realçou.
Leão XIV evocou que “na visão cristã, a liberdade e a comunhão estão ligadas: ou perdem-se juntas ou mantêm-se juntas”.
A intervenção do Papa centrou-se no lema “Libertas” (liberdade), síntese do testamento espiritual do fundador da República de São Marino, ressaltando-a como uma palavra com profundidade.
“No contexto da história de um povo e de um Estado, ela expressa certamente a aspiração à autodeterminação, a não depender de outras autoridades políticas”, disse, acrescentando, mais à frente, que significa também um compromisso inabalável de participação ativa e positiva na construção da paz.
“Relativamente a este aspeto, manifesto o meu profundo apreço e encontro uma especial sintonia com a postura da Santa Sé. Por isso, partilhamos a estima pela diplomacia e pelo multilateralismo, enquanto vias privilegiadas para cultivar as relações internacionais e promover o entendimento entre as nações”, indicou.
O discurso de Leão XIV sublinhou também “o valor peculiar de um pequeno Estado”, “onde é possível experimentar a proximidade da política às necessidades dos cidadãos e, por conseguinte, uma democracia mais eficaz, tanto mais se for também animada pela inspiração cristã”.
“Por isso, a República de São Marino pode ser um ‘laboratório’ de boa política, onde, sem derrogar o carácter laico do Estado, é possível recorrer aos princípios da doutrina social católica: a busca do bem comum, a destinação universal dos bens, a harmonia entre subsidiariedade e solidariedade, a justiça social”, defendeu.
O pontífice ressaltou que “este empenho afigura-se hoje ainda mais valioso, num momento em que o Acordo de Associação com a União Europeia está prestes a entrar em vigor” e a República de São Marino “se verá a relacionar-se de forma estável, ainda que de modo peculiar, com uma realidade complexa”, que poderá beneficiar grandemente a sua contribuição.
O Papa aludiu ainda ao “cuidado com o outro” que tem sido uma “característica distintiva da história de São Marino desde os seus primórdios”, evocando o “acolhimento, que nunca falhou ao longo dos séculos para com aqueles que sofrem e se encontram em dificuldades”.
“Recentemente, manifestou-se através do apoio e da hospitalidade prestados ao povo ucraniano, especialmente no início do conflito, bem como no empenho em prol do direito internacional humanitário, num momento histórico em que este parece ser diariamente desrespeitado, se não mesmo pisado”, recordou.
Depois da troca de presentes com os capitães-regentes de São Marino, Alice Mina e Vladimiro Selva, o Papa apareceu na varanda central do Palácio Público para uma breve saudação e a bênção aos presentes na praça.
“Agradeço-vos sinceramente pelo acolhimento, neste dia maravilhoso! Estou verdadeiramente feliz por estar aqui convosco, por vos saudar e por desfrutar da beleza, da história, da tradição e da fé deste grande povo de São Marinho”, disse.
“Os meus melhores votos para vós: que vivam sempre com verdadeira liberdade, com a verdadeira liberdade em Cristo Jesus, com a verdade, e que estejam sempre unidos neste espírito acolhedor. Os meus melhores votos para todos!”, concluiu.
O Papa seguiu depois a pé para a Basílica de São Marino para o encontro com a comunidade eclesial, onde renovou a sua preocupação com as guerras que assolam o mundo, propondo como resposta seguir o caminho do Evangelho.
“Vivemos num mundo ferido por muitos conflitos, onde se assiste, com preocupação, ao aumento da violência, do isolamento e do medo do outro. Perante estas tendências inquietantes, a nossa resposta só pode ser a de seguir, com ainda maior convicção, o caminho do Evangelho”, afirmou Leão XIV.
Perante sacerdotes, consagrados e representantes da vida eclesial da Diocese de São Marino-Montefeltro, o Papa sublinhou “a importância e o valor profético de algumas experiências de apoio mútuo e de proximidade com as quais”, nas zonas mais recônditas daquele território, “as pequenas comunidades enfrentam os problemas ligados ao despovoamento e à falta de serviços, mantendo vivo o sentido de família e de comunhão”.
“Estas realidades, aparentemente pequenas e marginais, são como chamas das quais podemos nos inspirar para reacender e reavivar em todos o fogo de valores sólidos, antigos e sempre atuais”, defendeu.
Para o pontífice, “tais experiências testemunham o calor daquela magnífica humanitas [magnífica humanidade] a que é necessário aspirar, para vencer o individualismo de uma certa cultura metropolitana e consumista, bem como outras formas de provincialismo desconfiado e divisivo, e para dar novo fôlego às nossas esperanças de fraternidade e de paz”.
Na intervenção, o Papa deixou uma mensagem aos jovens, recordando o discurso que Bento XIV proferiu há 15 anos na visita àquele território, incentivando a nova geração a manter a janela do coração “aberta” para o infinito.
“Segui, com o olhar da alma, os caminhos traçados em vós pelos grandes desejos de beleza, de bondade e de vida que levais no coração. Se observardes atentamente esses percursos e escutardes a sua voz, eles levar-vos-ão para o alto, ao encontro com Deus, ali onde Ele vos procura e vos espera”, apelou.

Leão XIV convidou ainda a juventude a abraçar com “maior entusiamo” a missão que têm no mundo, exortando a fazê-lo, “antes de mais nada, procurando compreender” qual o seu chamamento, “único para cada um, e apreciando a sua grandeza”.
“Não tenham medo de fazer escolhas exigentes, como o casamento, a consagração, o ministério ordenado, a vida profissional, o empenho social e político; preparem-se da melhor forma possível para as responsabilidades que vos esperam”, referiu, incentivando-os a deixarem-se envolver “em iniciativas e projetos de caridade e de justiça”.
“Assim, também vós contribuireis para dar «um testemunho de paz que fala ao mundo», como diz o lema desta minha visita”, acrescentou.
O discurso do Papa incluiu ainda um agradecimento aos sacerdotes, catequistas e a todos os educadores que, “através de diferentes percursos e propostas, se empenham no crescimento humano e cristão dos jovens”.
“O vosso trabalho, caríssimos, é discreto mas muito importante; é um serviço humilde e precioso, pois vem em auxílio dos pais, os primeiros responsáveis pela educação na fé dos filhos. A família, de facto, é o primeiro local de formação na fé, o seio natural onde, desde a infância, o Evangelho se aprende e se vive diariamente”, destacou.
Nesse sentido, assinalou o Papa, “uma pastoral sensata terá o cuidado de alimentar uma forte sinergia formativa entre as famílias e as comunidades eclesiais, um pacto educativo, para que os pais se sintam envolvidos, redescubram a fé de uma forma nova e tenham a alegria de transmitir aos filhos os valores cristãos de que são depositários”.
No final da intervenção, o Papa ressaltou a palavra “comunhão” como aquela que mais lhe está no coração.
“Demos, nas nossas comunidades, testemunho de unidade: entre as paróquias e, no seio destas, entre pastores e fiéis, entre os diversos carismas e ministérios. Também isto faz parte do património do Evangelho vivido que os Santos Marino e Leão nos deixaram, e da missão que temos de continuar, com constância e dedicação, a fazer crescer aquilo que eles começaram”, indicou.

Após o encontro, o Papa saudou, a partir do adro da igreja, os presentes na praça, e recuperou ideias do discurso que realizou no interior da Basílica.
“Abram a porta do vosso coração, escutem sempre Jesus Cristo e não tenham medo, nunca, de ouvir o que Jesus quer dizer a cada um de vós”, pediu.
O Papa desafiou os jovens a reconhecer neles “mesmos o valor da vida” e a acreditar “naquilo que Deus criou”, porque são todos filhos e filhas de Deus que os ama.
“E viver com este sentimento de amor no vosso coração dar-vos-á tudo aquilo de que precisam, ao longo de toda a vida. Sejam generosos, estejam sempre abertos ao serviço dos outros, procurem construir amizades autênticas: é na amizade que podemos construir comunidades”, completou.
Esta tarde, Leão XIV desloca-se até à cidade italiana de Rimini, onde participa no ‘Meeting’ promovido pelo movimento Comunhão e Libertação.
Desde que foi eleito, a 8 de maio de 2025, o Papa já visitou a Espanha (06-12 de junho de 2026); Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial (13-23 de abril de 2026); o Mónaco (28 de março de 2026); e a Turquia e o Líbano, com peregrinação a İznik por ocasião do 1700º aniversário do I Concílio de Niceia (27 de novembro-02 de dezembro de 2025), bem como várias cidades italianas.