Os que chegam também podem ser o nosso futuro

Por António Maria Gonçalves

 

Foto: António Maria Gonçalves/IA

Há números que servem apenas para preencher tabelas estatísticas. E há números que, se soubermos lê-los, nos obrigam a pensar sobre o futuro.

Nos Açores, a população estrangeira residente passou de cerca de 3.700 pessoas em 2021 para mais de 9.300 no final de 2025. Em apenas quatro anos, mais do que duplicou. Mais significativo ainda: num período em que diminuiu o número de residentes de nacionalidade portuguesa, foi a chegada e fixação de cidadãos estrangeiros que sustentou o crescimento demográfico da Região.

Numa ilha pequena como as Flores, esta realidade adquire uma dimensão ainda mais evidente.

Somos uma ilha que conhece há muito as consequências do envelhecimento, da baixa natalidade e da saída dos mais jovens. Sabemos o que significa ver diminuir uma comunidade, perder população ativa e perguntar quem estará cá amanhã para trabalhar, empreender, criar filhos, manter serviços, associações e atividades económicas e, simplesmente, continuar a dar vida às nossas freguesias.

Por isso, talvez tenha chegado o momento de deixarmos de olhar para a imigração apenas como resposta circunstancial à falta de trabalhadores.

A questão é muito maior.

É uma questão de futuro.

Nós também fomos os que chegaram

Poucos povos estarão em melhores condições do que o açoriano para compreender o significado profundo da palavra emigrante. Durante gerações, partimos.

Partimos para a América, para o Canadá, para o Brasil, para as Bermudas e para tantos outros lugares. Partimos porque aqui nem sempre havia terra, trabalho ou futuro suficientes para todos. Levámos connosco pouco mais do que a esperança, a vontade de trabalhar e a coragem de começar novamente.

Também nós chegámos a terras onde a língua era diferente, onde os costumes não eram os nossos e onde foi necessário aprender códigos sociais que desconhecíamos.

Procurámos trabalho. Procurámos casa. Procurámos segurança.

Mas procurámos também algo que não cabe nas estatísticas: ser aceites.

E, pouco a pouco, os açorianos integraram-se. Trabalharam, criaram empresas, constituíram famílias, construíram igrejas, clubes, associações e instituições. Participaram na vida económica, social e política dos países que os receberam.

Sem deixarem de ser açorianos, tornaram-se também americanos, canadianos, brasileiros.

Não foram apenas beneficiários da prosperidade dessas sociedades. Ajudaram a construí-la.

Esta memória deveria dizer-nos alguma coisa quando, agora, os papéis da História parecem inverter-se e são outros que chegam às nossas ilhas procurando aquilo que os nossos pais, avós e bisavós procuraram longe delas.

Das Flores vê-se o problema mais cedo

Nas pequenas ilhas, os grandes problemas tornam-se visíveis mais depressa.

Nas Flores, onde vivem pouco mais de três mil pessoas (3428 nos censos do INE de 2021), a presença de cerca de duas centenas de residentes estrangeiros já tem uma expressão significativa. São pessoas de muitas nacionalidades, culturas, línguas e percursos de vida diferentes.

Algumas vieram trabalhar. Outras escolheram esta ilha para viver. Algumas trouxeram filhos. Outras criaram aqui os seus projetos. Encontramo-las nos serviços, no turismo, na restauração, nos supermercados, na construção e noutras atividades da nossa economia e da nossa vida quotidiana.

E começam, inevitavelmente, a fazer parte da comunidade.

Talvez seja precisamente aqui que devamos fazer a pergunta que considero essencial:

Queremos apenas que trabalhem entre nós ou queremos que vivam connosco?

A diferença é enorme.

Uma política migratória pode limitar-se a preencher vagas de emprego.

Uma verdadeira política de integração tem de preocupar-se com pessoas.

Tem de perguntar se quem chega consegue aprender português; se compreende as nossas instituições; se conhece os seus direitos e deveres; se encontra habitação digna; se os seus filhos são plenamente integrados na escola; se consegue participar na vida associativa e cultural; se conhece a história e as tradições do lugar onde decidiu viver; e, sobretudo, se ao fim de alguns anos consegue dizer, sem hesitação: esta também é a minha terra.

Integrar não significa exigir que alguém deixe de ser quem é

A integração exige esforço de ambas as partes.

Quem chega deve compreender que entra numa comunidade que tem história, identidade, valores, costumes e formas próprias de viver. É legítimo esperarmos respeito pela nossa cultura, pela nossa língua, pelas nossas leis e pelas regras fundamentais da convivência democrática.

Também haverá, inevitavelmente, choques culturais e diferenças de mentalidade. Fingir que não existem seria tão errado como transformá-los em motivo de rejeição.

É precisamente aí que entram a pedagogia, o conhecimento mútuo e políticas públicas inteligentes.

Integrar não é apagar diferenças. Também não é pedir à sociedade de acolhimento que renuncie à sua identidade.

Integrar é construir pertença.

É ensinar a quem chega quem somos, mas possuir também a abertura suficiente para descobrir quem chegou.

As sociedades vivas sempre se transformaram assim.

Não basta receber. É preciso fixar.

Para as ilhas mais pequenas esta questão é ainda mais importante.

Precisamos de pessoas que venham. Mas, acima de tudo, precisamos de criar condições para que algumas delas queiram ficar.

Isso obriga a pensar além do próximo contrato de trabalho ou da próxima época turística.

Significa criar políticas de habitação acessível, aprendizagem da língua portuguesa, acompanhamento administrativo, reconhecimento de qualificações profissionais, formação, apoio às famílias e às crianças, incentivo ao empreendedorismo e mecanismos de participação comunitária.

Nas ilhas mais envelhecidas e demograficamente frágeis, talvez seja necessário ir ainda mais longe.

Porque não pensar numa verdadeira estratégia regional de integração e fixação populacional para as ilhas de menor dimensão, adaptada à realidade de cada uma?

Porque não envolver municípios, juntas de freguesia, escolas, empresas, associações, instituições sociais, culturais e religiosas?

Porque não criar programas de acolhimento comunitário, através dos quais quem chega conheça desde cedo a história da ilha, as suas instituições, festas, tradições e formas de participação?

E porque não ouvir também os próprios imigrantes?

Perguntar-lhes o que os trouxe até aqui, o que os faria permanecer, que dificuldades encontram, como veem a nossa comunidade e de que forma gostariam de contribuir para ela?

Talvez descobríssemos que integrar começa por uma coisa extraordinariamente simples: escutar.

Existe, contudo, uma tentação que devemos evitar.

Não podemos defender a imigração apenas porque “precisamos de trabalhadores” ou porque a nossa economia beneficia do desafogo de vida dos reformados estrangeiros para não falarmos do empreendedorismo afoito de muitos deles, trazendo-nos novidade e diversidade da nossa oferta de serviços..

Uma pessoa não é um instrumento demográfico.

Não podemos querer os braços e esquecer as pessoas que os trazem.

Se queremos que alguém trabalhe nas nossas empresas, cuide dos nossos idosos, construa as nossas casas, mantenha os nossos restaurantes e hotéis, crie negócios, pague impostos, tenha filhos nas nossas escolas e ajude a manter vivas comunidades que perdem população, então temos também a responsabilidade de lhe oferecer a possibilidade real de pertencer a essas comunidades.

Há aqui uma espécie de contrato moral.

Nós precisamos deles. Eles precisam de nós. E talvez, com inteligência, respeito e tempo, possamos descobrir que afinal precisamos uns dos outros.

Uma oportunidade que não deveríamos desperdiçar

A imigração não resolverá, por si só, todos os problemas demográficos dos Açores.

Não substitui políticas de apoio à natalidade, emprego qualificado para os nossos jovens, habitação, melhores salários, mobilidade ou condições que permitam aos açorianos permanecer nas suas ilhas.

Seria um erro utilizar quem chega como desculpa para desistirmos de quem cá nasceu.

Mas seria igualmente um erro enorme ignorar aquilo que está diante dos nossos olhos.

Quando uma ilha perde jovens durante décadas e, ao mesmo tempo, outras pessoas vindas de longe escolhem essa mesma ilha para reconstruir a sua vida, talvez devamos perguntar menos “porque vieram?” e começar a perguntar “o que podemos construir juntos?”

Nas Flores, esta pergunta tem uma urgência especial.

Somos poucos.

E quando somos poucos, cada pessoa conta.

Cada criança numa escola conta. Cada família que fica conta. Cada trabalhador conta. Cada pequeno negócio conta. Cada casa que volta a ter luz à noite conta.

Talvez por isso uma pequena ilha possa ensinar alguma coisa a uma Região inteira.

A História também se honra assim

Durante muito tempo pedimos ao mundo que recebesse os açorianos.

Pedimos oportunidades para os nossos emigrantes. Pedimos respeito. Pedimos que lhes permitissem trabalhar, prosperar e educar os filhos sem terem de renunciar às suas raízes.

E o mundo, com todas as dificuldades e imperfeições que conhecemos, abriu espaço para centenas de milhares dos nossos.

Hoje, a História coloca-nos perante pessoas que fazem o percurso inverso.

Não nos pede que esqueçamos quem somos.

Pede-nos talvez algo mais exigente: que nos lembremos de quem fomos.

E que saibamos oferecer a quem nos procura aquilo que os nossos antepassados procuraram quando desembarcaram, tantas vezes com medo e esperança, do outro lado do Atlântico: uma oportunidade; um trabalho digno; uma comunidade; respeito; e a possibilidade de chamar casa ao lugar onde decidiram construir o futuro.

Nas ilhas, onde o futuro demográfico há muito nos preocupa, não podemos permitir-nos apenas no imediato.

Integrar bem quem chega não é uma concessão.

É investimento social, económico e demográfico. É preservar comunidades que queremos vivas. É preparar o futuro! E talvez, daqui a algumas décadas, quando os filhos daqueles que hoje chegam às Flores disserem naturalmente que são florenses e açorianos, percebamos que a pergunta nunca deveria ter sido se eles eram dos nossos”.

A pergunta certa será se tivemos a sabedoria de lhes permitir tornarem-se parte de nós.

 

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