D. José Tolentino Mendonça, sexto cardeal português do século XXI

Bibliotecário e arquivista da Santa Sé foi escolhido pelo Papa como membro do Colégio Cardinalício e será feito cardeal este sábado no Vaticano

O arcebispo português D. José Tolentino Mendonça, bibliotecário e arquivista da Santa Sé, vai tornar-se este sábado o sexto cardeal português do século XXI e terceiro a ser designado no atual pontificado.

O futuro cardeal madeirense junta-se assim a D. José Saraiva Martins, D. Manuel Monteiro de Castro, D. Manuel Clemente e D. António Marto no Colégio Cardinalício.

A 26 de junho de 2018, o Papa nomeou D. José Tolentino Mendonça como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica, elevando-o à dignidade de arcebispo.

O até então vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa orientou nesse ano o retiro de Quaresma do Papa Francisco e seus mais diretos colaboradores.

D.José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Arquipélago da Madeira) em 1965, tendo sido ordenado padre em 1990 e bispo a 28 de julho de 2018; é doutorado em Teologia Bíblica.

Consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé), foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal.

Biblista, investigador, poeta e ensaísta, Tolentino Mendonça foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem de Sant’lago da Espada por Aníbal Cavaco Silva, presidente da República, em 2015.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, a  respeito do seu trabalho no Arquivo e Bilioteca da Santa Sé, o futuro cardeal destacou que a sua missão é “colaborar” com o Papa.

“Isso é muito bonito de ver, porque, no espírito de todos nós, as duas comunidades que trabalham diariamente nestas instituições, há esse serviço: nós somos colaboradores do Papa. Isso dá um sentido à nossa missão, que não teria se fosse só um projeto individual. Mas, mais importante até do que esta pessoa ou aquela, é estarmos todos juntos a colaborar para que o Papa possa governar a Igreja e ser a figura de Pedro, hoje”, indicou.

O brasão episcopal de D. José Tolentino Mendonça evoca a ligação histórica de Portugal ao Vaticano, numa homenagem “ao encontro de culturas e alargamento de mundos”.

A imagem apresenta um elefante, recordando que o primeiro desses animais a chegar à Europa, em particular a Roma, foi trazido pelos navegadores portugueses.

O escudo, de forma gótica, é sublinhado pelo lema episcopal do novo bibliotecário e arquivista da Santa Sé: “Olha os lírios do campo”.

Com o lírio, pretende-se assinalar o nome do arcebispo madeirense, José, e “colocar o seu ministério episcopal sob o olhar paterno de São José”, representado na iconografia cristã por essa flor.

No topo do escudo está uma Bíblia aberta com as letras gregas alfa e ómega, uma referência à pessoa de Jesus Cristo.

O primeiro madeirense no Colégio Cardinalício foi D. Teodósio Gouveia, natural de São Jorge, Santana; o arcebispo da então Lourenço Marques (Moçambique), foi criado cardeal por Pio XII, no consistório de 18 de fevereiro de 1946.

REAÇÕES

Laurinda Alves, jornalista e professora

A jornalista Laurinda Alves afirma D. José Tolentino Mendonça é um “grande pontífice”, faz pontes “entre crentes e não crentes”, com uma “linguagem aberta e simples”.

“Ele faz acima de tudo uma grande ponte: antes de poder vir a ser Papa, ele é antes de tudo um grande pontífice. Constrói pontes e as pontes que ele constrói são caminhos abertos, caminhos multilaterais”, afirmou.

Para Laurinda Alves, os diálogos com D. José Tolentino Mendonça acontecem entre “crentes e não crentes, pessoas de dentro da Igreja e de fora da Igreja”.

“Só um grande sábio consegue ser simples: é o que acontece com D. Tolentino”, referiu a jornalista, acrescentando a sua “essência” é “a escuta, a observação, a contemplação” e capacidade de ir “destapando as camadas geológicas do ser humano”.

Laurinda Alves defende que José Tolentino Mendonça e o Papa Francisco “já eram amigos antes de o serem”, indicando que os dois têm em comum o “despojamento”, o “gosto pelas coisas simples, pela linguagem simples, os braços abertos, um abraço gigante que eles dão a quem se sente fora”.

“Tolentino no Vaticano é um tesouro no lugar certo”, sublinha a jornalista, considerando que a partir da Santa Sé “tem poder para falar com o mundo e um altar onde pode ajudar esta Igreja a fazer caminho e a desatar nós”.

 

Daniel Oliveira, jornalista e comentador

O jornalista Daniel Oliveira afirma que “nunca” sentiu no padre Tolentino Mendonça “a arrogância da fé perante os que não a sentem”, o que torna “a empatia mais simples” e o diálogo possível.

“O padre Tolentino representa muito bem a capacidade de dialogar com o outro que eu identifico com o melhor que o cristianismo tem. É a coisa mais rica que o cristianismo tem e nem todas as religiões têm”, disse o colunista .

Segundo Daniel Oliveira, quem “não tem fé” sente a arrogância “e dificilmente dialoga” porque “se sente diminuído na ausência de fé” e no padre Tolentino “nunca” sentiu “a arrogância da fé, perante os que não a sentem”.

O jornalista afirma que o “primeiro passo” para o diálogo entre crentes e não crentes é quando o objetivo “não é a conversão” mas “o diálogo e a ideia de que aprendem uns com os outros”, por isso, considera que tentar compreender quem não tem fé “pode ser enriquecedor, também para o que tem fé” e “é raro essa postura”.

“Estas nomeações que o Papa fez, não só a do padre Tolentino, mas de missionários, de pessoas ligadas às migrações, ao diálogo inter-religioso, dão um sinal, para além das questões da política do Vaticano, no bom sentido, das sementes para uma renovação da Igreja; A Igreja trata de si e da relação do divino com o mundo e com o mundo em que vivemos. Com os pobres e com os outros”, desenvolveu.

Neste contexto, para Daniel Oliveira, a “ideia da Igreja que fala dos outros e não de si” é uma “mensagem poderosa e profundamente cristã”, mesmo para um ateu.

“Como poeta, o padre Tolentino, sabia que estamos todos a falar da mesma coisa: católicos, não católicos, budistas, hindus, muçulmanos, ateus. Estamos todos a falar das mesmas angústias sobre a existência. A religião trata do que sempre tratamos, mesmo não tendo religião. Desse ponto de visto, nem faz sentido se esse diálogo não existir. Se não existir a religião é um conjunto de regras e dogmas que se obedece sem questionar. Assim, dificilmente posso chamar isso de fé”, desenvolveu.

O jornalista lembra que a primeira vez que conversou com D. José Tolentino Mendonça “terá sido na Capela do Rato”, em Lisboa, nos encontros que o então sacerdote português “realizava” e depois estiveram juntos “várias vezes”.

A ilha da Madeira é “outra coisa que liga” os dois escritores, o arcebispo português é natural do arquipélago enquanto Daniel Oliveira tem lá as raízes pelo seu pai, o poeta Herberto Hélder: “Essa ligação tornou logo o diálogo mais simples, voltei a estar com ele mais do que uma vez nesses encontros”.

 

Luís Miguel Cintra, ator e encenador

O ator e encenador Luís Miguel Cintra disse que D. José Tolentino Mendonça é o sacerdote que “sabe distinguir” entre a “Igreja dos filhos de Deus” e a “hierarquia do Vaticano e a estrutura do palácio”.

“De todos os sacerdotes que eu conheço, ele é o que melhor sabe distinguir o que é a Igreja dos filhos de Deus, a Igreja de todos, o que é o conjunto dos cristãos, da hierarquia do Vaticano e a estrutura do palácio”, explica Luís Miguel Cintra.

O encenador conheceu o sacerdote Tolentino quando, numa ocasião, foi convidado para ler os seus poemas numa celebração na Basílica da Estrela, em Lisboa; pouco depois foi convidado para escrever o prefácio do livro «Um Deus que Dança», da autoria do agora cardeal José Tolentino Mendonça.

Desde então nasceu uma amizade que a arte, os textos sagrados e o cultivo “da vida interior e do espírito” têm cimentado.

“O Tolentino, quanto mais cardeal mais simples ele se torna: um simples amigo que considera as outras pessoas fora de qualquer hierarquia, a não ser as que existem entre pessoas, altas/baixas. Não tem critérios de valorização, mas de conhecimento de pessoas. E ele tem um verdadeiro prazer em conhecer as pessoas”, explica o encenador.

Sobre os passos do arcebispo no Vaticano, Luís Miguel Cintra acredita ser um sinal de que “a Igreja se está a renovar”.

“Pensei tantas vezes o que fará esta pessoa que é tão próxima de tanta gente e gosta tanto da vida de uma maneira mais simples, metido dentro da biblioteca vaticana? Com uma estrutura toda hierarquizada, com as guardas suíças… Faz-me uma pouco de impressão. Mas por outro lado, acho que é um passo para que se acredite que a Igreja se está a renovar”, sublinha.

 

(Com Ecclesia)