Por Renato Moura

Uma das primeiras grandes decisões da autonomia foi: cada ilha um porto e um aeroporto.

A Ilha das Flores foi a última a conhecer a decisão sobre o seu ansiado porto. O Governo de então, presidido por Mota Amaral – e assim com apoio exigido à maioria dos deputados do PSD – justificou o atraso com a busca ponderada da melhor localização.

Não lhe faltaram então alegações tecnicamente fundamentadas, argumentos abalizados, pareceres isentos, razões justificadas, opiniões sinceras; e também coacções disfarçadas, pressões descaradas. Houve tempo para ouvir especialistas, técnicos, homens do mar, investidores, políticos, opinantes, comentadores. Nas Flores, nos Açores, no continente. Muitos deles, convictos da razão que sabiam assistir-lhes, não se privaram de tomar posição clara e pública, não se esconderam no anonimato, escreveram nos jornais e não só. Muitos tiveram força para tomar posição em defesa do melhor, apesar de saberem que se exporiam à contestação dos que queriam outra coisa. Alguns tiveram coragem para defender a boa solução, sem ter medo da eterna trucidação dos que só queriam ganhar a «guerra».

O Governo sinalizou manobrar em várias direcções, assim deu pano para mangas, deixou correr tempo que bastasse para fomentar a controvérsia concelhia. O mesmo se vira no Pico, em portos e não só! Quando se deixa decisões técnicas transformarem-se em políticas, quando se alimentam os maus bairrismos concelhios, sabe-se que é dividindo que se reina e se decide como se quer. O Presidente do Governo escolheu a localização das Lajes das Flores em detrimento da excelente baía da Ribeira da Cruz! Alegou a justificação dos custos; o pretexto da abertura duma estrada!

Impõe a bondade que se perdoe aos que festejaram a decisão política final, pois que muitos não alcançaram que ela só poderia destinar-se a proteger interesses que não eram das Flores, nem dos Açores, nem de Portugal, nem da Europa.

O porto foi-se construindo e desmoronando sucessivamente. Inaugurou-se e foi-se danificando repetidamente. Sofreu inúmeras intervenções ao longo de todos estes anos, visando a consolidação e não só. Mas os problemas continuavam… os últimos ainda à espera: de tino e ou de dinheiro?!

Foi-se provando que não fora uma boa localização. E os muitos milhões entretanto gastos demonstraram que nem sequer se poupara dinheiro. Diz o povo: o barato sai caro.

O furacão “Lorenzo” provocou uma destruição indescritível no porto e edifícios anexos; é preciso ver para crer.

Escolha iníqua! Resultado desastroso. E agora?