60 anos a cuidar com propósito:  Clínica do Bom Jesus celebra legado de Aníbal Furtado Lima

Iniciativa tem lugar no próximo dia 9 de junho, às 18h00 com uma missa seguida de uma tertúlia na capela da Clinica, em Ponta Delgada

Foto: Igreja Açores (Arquivo)

Fundada a 9 de junho de 1966 pelo cirurgião Aníbal Furtado Lima, a Clínica do Bom Jesus assinala este ano seis décadas de atividade. Nascida de uma visão inovadora para a saúde nos Açores, a instituição mantém como principal missão a vertente social que o fundador quis perpetuar através da doação da clínica à Diocese de Angra. Hoje, a administração procura reforçar esse compromisso, apostando na modernização e na sustentabilidade financeira para ampliar a resposta aos mais vulneráveis.

Há 60 anos, Aníbal Furtado Lima inaugurava, em Ponta Delgada, uma unidade de saúde que rapidamente se tornou uma referência nos Açores. Mas a ambição do médico-cirurgião micaelense nunca se limitou à prestação de cuidados clínicos. A sua grande preocupação era garantir que a saúde estivesse ao serviço das pessoas, sobretudo das mais frágeis, visão que continua a orientar a Clínica do Bom Jesus seis décadas depois.

Esse compromisso ganhou expressão definitiva em 1979, quando Aníbal Furtado Lima e a sua esposa decidiram doar a clínica à Diocese de Angra. Daquele gesto de generosidade nasceu a Fundação Pia Diocesana do Bom Jesus, posteriormente reconhecida como Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), passando a dimensão social a constituir a razão de ser da instituição.

Atualmente, a administração da clínica mantém essa mesma prioridade. Contudo, reconhece que o reforço da missão social depende da capacidade de gerar receitas através da atividade clínica, permitindo investir em equipamentos, infraestruturas e serviços que assegurem a sustentabilidade futura da instituição.

Uma obra que cresceu ao longo de seis décadas

Quando abriu portas a 9 de junho de 1966, a Clínica do Bom Jesus era considerada uma das unidades privadas mais modernas. Sessenta anos depois, continua a ser uma estrutura de referência na saúde açoriana, dispondo de um vasto conjunto de infraestruturas e serviços.

O complexo é constituído por um edifício principal, três parques de estacionamento e quatro instalações anexas: a Casa Betânia, antiga residência dos fundadores destinada por eles ao acolhimento de sacerdotes que necessitam de cuidados continuados; um posto gerador de emergência e um centro médico com funções de policlínica.

No edifício principal funcionam os serviços de internamento e apoio clínico. O piso térreo integra a receção, serviços administrativos, farmácia, capela, morgue e posto de transformação elétrica.

No total, a Clínica dispões de 75 quartos , 20 dos quais alocados à rede regional de Cuidados Continuados,  distribuídos pelos pisos 2 e 3, além do refeitório, bar, cozinha, vestiários e o serviço de radiologia. No terceiro piso, concentra uma importante área assistencial, composta pelo bloco operatório, equipado com duas salas cirúrgicas, sala de recobro, sala de enfermagem, sala de tratamentos e sala de espera para visitas. Já na cave funcionam a lavandaria e os serviços de apoio ao tratamento e gestão de roupas, essenciais ao funcionamento diário da instituição.

Ao longo dos anos, a Clínica do Bom Jesus tem vindo a renovar progressivamente os seus equipamentos, sobretudo no bloco operatório, considerado uma das principais fontes de receita da instituição.

Atualmente, a unidade dispõe de tecnologia moderna em áreas como a artroscopia, cirurgia laparoscópica e litotrícia, permitindo realizar intervenções diferenciadas e acompanhar a evolução da medicina contemporânea. Mas, precisa de investir mais, diz o diretor, Francisco Silva.

A clínica oferece ainda 14 especialidades médicas e um conjunto alargado de meios complementares de diagnóstico e terapêutica, incluindo radiologia, mamografia, ecografia, cardiologia, pneumologia, fisioterapia e reabilitação.

Segundo a direção, a modernização tecnológica é uma necessidade permanente, não apenas para manter a competitividade da instituição, mas também para garantir os recursos necessários ao cumprimento da sua missão social.

“A Clínica quando foi fundada, em 1966, era uma clínica moderna, com  os equipamentos mais modernos que existiam na altura. Naturalmente, passaram muitos anos e apesar dos esforços de modernização não conseguimos acompanhar o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas, o que significa que nós temos tido aqui um trabalho muito grande de reinvestimento, em termos de equipamentos. Alguns deles já estão obsoletos e estão a ser substituídos à medida das possibilidades e das necessidades. Por isso, perdemos alguma vantagem competitiva que estamos neste momento a tentar recuperar, com investimentos sérios”, afirma o responsável.

Apesar das mudanças verificadas no setor da saúde na Região nas últimas décadas, sobretudo com o surgimento de um hospital particular, “que teve um impacto financeiro nas contas”, a Clínica do Bom Jesus continua a registar uma elevada procura na área do internamento, mantendo frequentemente a capacidade ocupada.

Entre os objetivos definidos para o futuro está a expansão da capacidade de internamento, a ampliação do bloco operatório e o reforço da oferta assistencial, projetos considerados fundamentais para aumentar a sustentabilidade financeira da instituição.

“Nós primamos pela qualidade, somos mais pequenos, também conseguimos dar um tratamento mais personalizado e, portanto, por aí podemos ter vantagens comparativas que nos façam, enfim, não digo concorrer, mas diminuir os impactos que teve o surgimento de uma nova unidade de saúde com a dimensão do atual hospital privado”, adianta ainda.

“A lógica mantém-se fiel àquela que Aníbal Furtado Lima deixou expressa nos estatutos da Fundação Pia Diocesana do Bom Jesus: toda a atividade clínica deve contribuir para financiar a componente social, recorda o diretor.

“Tudo o resto que nós vamos fazendo, quer em termos de exames regionais, quer em termos de bloco operatório, quer em termos de fisioterapia, quer em termos de consultas médicas, portanto, toda a nossa atividade, no fundo, é para gerar alguns fundos que nos permitam depois ter a componente social. Isso, curiosamente, foi previsto desde o início da fundação, portanto, era de facto este, e está plasmado nos estatutos,  o objetivo do Dr. Furtado de Lima. Está mesmo lá escrito que as outras atividades que a Clínica possa eventualmente realizar, deverão ter sempre como objetivo a parte social, financiar a parte social”, adianta Francisco Silva.

“Portanto, este é o nosso grande objetivo e é por aqui que nós nos diferenciamos”, enfatiza.

“A ambição passa por ir mais longe, criando condições para apoiar um número crescente de pessoas e famílias com menores recursos económicos, sem comprometer a qualidade dos cuidados prestados” refere Francisco Silva, que está no terceiro de quatro anos de mandato à frente da direção da Fundação Pia Diocesana.

Um legado que permanece vivo

Aníbal Furtado Lima faleceu a 9 de novembro de 2007, aos 80 anos, precisamente na clínica que fundou. Médico, cirurgião, visionário e benemérito, deixou uma marca indelével na história da saúde açoriana.

Sessenta anos após a inauguração da Clínica do Bom Jesus, o seu legado continua presente não apenas nos edifícios e nos serviços que criou, mas sobretudo na missão que inspirou: colocar a medicina ao serviço da dignidade humana e da solidariedade.

As comemorações do sexagésimo aniversário servirão precisamente para recordar esse legado e homenagear o homem que transformou um projeto pessoal numa das mais importantes obras sociais e de saúde dos Açores.

No dia 9 de junho, pelas 18h00 haverá uma Eucaristia seguida de uma tertúlia em que que participarão o cardiologista Pedro Cordeiro, o sobrinho neto Filipe Maurício, Monsenhor José Constância, amigo do médico e Manuela Mota que coordena o grupo de voluntários da Clínica. A entrada é livre.

Clínica do Bom Jesus assinala 60.º aniversário com homenagem ao fundador Dr. Aníbal Furtado Lima

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