Relatório sobre papel das mulheres pede novos espaços de liderança e denuncia atitudes de “clericalismo e machismo”

Fotos: synod.va/Lagarica

O Vaticano publicou hoje o relatório final do grupo de estudo do Sínodo sobre o papel das mulheres, um documento que denuncia atitudes de “machismo” e apela a uma “mudança de mentalidade” nas estruturas eclesiais.

“Em primeiro lugar, existe na mentalidade eclesial contemporânea um certo padrão de pensamento e comportamento identificável como ‘clericalismo’ ou ‘machismo’. Estas atitudes dizem respeito a uma gestão do poder e da palavra que cria desconfiança e, sobretudo, distância entre as mulheres”, indicam os peritos.

O relatório, elaborado em colaboração com o Dicastério para a Doutrina da Fé , reconhece o “desconforto” vivido por muitas mulheres católicas, visível no crescente afastamento da vida eclesial e no declínio das vocações.

O texto reconhece avanços, antes de sublinhar que “ainda há muito trabalho a fazer”, em particular nas atuais formas de liderança eclesial, a fim de as tornar “mais acessíveis às mulheres”.

“Pensa-se na questão do acesso ao sacramento da Ordem, na possibilidade de estabelecer novos ministérios com características específicas para o serviço do Povo de Deus, na homilia durante as celebrações comunitárias e, finalmente, na delicada questão relativa à natureza específica de confiar a governação de uma comunidade ou de determinados cargos diocesanos a mulheres devidamente qualificadas”, pode ler-se.

“Quando falamos do papel das mulheres na vida da Igreja, devemos estar cientes de que se trata, antes de tudo, de um fator de ordem cultural”, afirmou o cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, no comunicado de imprensa que acompanha a publicação do documento.

“A nossa missão renovada é fazer da Igreja uma força que encarna o Evangelho nas culturas, promovendo o respeito pelos direitos de todos e a corresponsabilidade de acordo com a vocação de cada um. Isso requer coragem, acompanhamento e paciência para introduzir mudanças graduais a fim de preservar a comunhão eclesial, eliminar as discriminações e construir comunidades nas quais os dons e carismas de cada pessoa, homens e mulheres, sejam valorizados”, acrescenta o colaborador do Papa.

O relatório final sublinha que a autoridade hierárquica não deve ser entendida “como domínio”, convidando a uma interpretação que poderia “abrir caminho para o reconhecimento de novos espaços de responsabilidade para as mulheres na Igreja”.

O texto destaca ainda as escolhas recentes de Francisco e Leão XIV, que nomearam várias mulheres para cargos de liderança na Cúria Romana.

O relatório apresenta estas decisões como um modelo a ser replicado pelas Igrejas locais, recordando que a liderança nos dicastérios se baseia num poder vicário delegado pelo Papa, sem exigir o sacramento da Ordem.

Sobre a questão do diaconado feminino, o documento remete para as conclusões da segunda comissão de estudo criada pelo Papa Francisco.

Outro foco da reflexão é o apelo a ir além dos atuais “ministérios instituídos”, no que diz respeito à participação das mulheres na liderança da Igreja.

“Limita-nos e empobrece-nos, pois este caminho ministerial pode envolver apenas certas mulheres que possuem características, habilidades e estilos mais intimamente associados a uma forma de ser e agir”, advertem as especialistas.

“A criação de maiores espaços para a participação feminina em funções institucionais permite que os processos de tomada de decisão sejam enriquecidos com perspectivas diversas, desafiando estereótipos sociais que já foram superados e criando um ambiente no qual todos possam sentir que têm oportunidades iguais para realizar a sua vocação”, pode ler-se ainda.

O relatório sublinha a urgência de valorizar a “dimensão carismática”, reconhecendo que o Espírito Santo confere dons que permitem às mulheres atuar onde as estruturas habituais da Igreja “não conseguem alcançar”.

publicação é composta por uma síntese dos trabalhos e apresenta um extenso corpo de apêndices, que vão desde a análise de figuras femininas no Antigo e Novo Testamento e na História da Igreja, até reflexões críticas sobre o chamado “princípio mariano” e testemunhos atuais de mulheres em lugares de decisão.

Os grupos de estudo foram instituídos por mandato do Papa Francisco, no início de 2024, no período que mediou as duas sessões da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema da sinodalidade.

A decisão confiou a peritos de todos os continentes uma série de questões com implicações teológicas, pastorais e jurídicas complexas, para um maior aprofundamento.

Leão XIV determinou que estes relatórios finais sejam tornados públicos de forma progressiva, numa iniciativa que se iniciou a 3 de março.

(Com Ecclesia e Vatican News)

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