“Sinto que somos eletricistas da esperança”- Marco Pavão, diretor da Instituição

A Casa de Saúde de São Rafael, em Angra do Heroísmo, assinalou hoje o Dia de São João de Deus com um momento de celebração e reflexão, evocando a missão de cuidado e hospitalidade que caracteriza esta instituição dedicada à saúde mental na Ilha Terceira, nos Açores.
As comemorações incluíram a celebração de uma eucaristia presidida pelo Padre Gregório Rocha, que sublinhou a importância da compaixão e da proximidade para com os mais frágeis.
Na sua homilia, o vigário geral recordou que a mensagem do Evangelho, sobretudo neste tempo de Quaresma, desafia os cristãos a abrirem-se ao outro. Inspirando-se na parábola do bom samaritano, destacou que amar implica disponibilidade para parar e cuidar.
“O sacerdote e todos os outros, passou e tinha a sua vida tão organizada que não pode parar. O samaritano, pelo contrário, viu, compadeceu-se e cuidou”, afirmou.
Para o padre Gregório Rocha, este é precisamente o espírito vivido diariamente na instituição.
“Que esta festa nos ajude a transformar a compaixão em proximidade”, referiu, acrescentando que os profissionais da Casa de Saúde são “os samaritanos dos tempos modernos”, dedicando o seu tempo a cuidar das feridas humanas e a devolver dignidade a quem sofre.
Dirigindo-se às equipas técnicas e colaboradores, deixou ainda uma palavra de reconhecimento pelo trabalho realizado: um serviço que permite às pessoas não apenas encontrar tratamento físico, mas também apoio espiritual e condições para viver com maior estabilidade e autonomia.
A Casa de Saúde São Rafael, inaugurada oficialmente em 1927, é um centro assistencial especializado nas áreas da psiquiatria, saúde mental e reabilitação psicossocial. A instituição conta atualmente com 89 colaboradores e acolhe 184 pessoas internadas, distribuídas por oito unidades que incluem serviços de médio e longo internamento, unidade de agudos e serviço de alcoologia.
Para além da vertente clínica, a casa de saúde desenvolve diversos programas de reabilitação psicossocial, incluindo formação profissional e atividades ocupacionais. Dispõe ainda de um Centro de Formação com um Fórum Sócio-Ocupacional, que acolhe cerca de 40 pessoas externas com dificuldades de origem psíquica, promovendo a sua reinserção social e profissional.
“Eletricistas da esperança”
Também o diretor do Instituto São João de Deus, Marco Pavão, interveio na ocasião, recordando a inspiração deixada por São João de Deus, que no século XVI revolucionou o modo como os doentes eram tratados.
Segundo o responsável, numa época em que muitas pessoas com doença mental eram abandonadas ou rejeitadas, o santo teve um olhar diferente.
“Não viu loucura, viu sofrimento; não viu miséria, viu uma dignidade ferida; não viu um problema, mas um irmão que precisava de cuidado”, afirmou.
Marco Pavão destacou que o verdadeiro cuidado nasce da presença e de gestos simples que devolvem dignidade às pessoas.
“Uma pessoa ferida não precisa apenas de tratamento, mas de alguém que se compadeça”, disse, sublinhando que, apesar da evolução dos tempos, continuam a existir muitas pessoas frágeis que se sentem esquecidas ou excluídas.
Apelando a um olhar mais humano sobre a doença e a fragilidade, concluiu com uma imagem simbólica dirigida aos profissionais da instituição:
“Gosto de nos pensar como eletricistas da esperança. Cada gesto, cada presença fiel, é uma luz que se acende.”
A sessão terminou com palavras de agradecimento aos colaboradores e parceiros da instituição, num reconhecimento do trabalho diário desenvolvido ao serviço de quem mais precisa.