Coleção de Francisco Ernesto Oliveira Martins: “É uma oportunidade rara para conhecer um espólio que testemunha a história local e a riqueza patrimonial dos Açores”

Trata-se de uma iniciativa da Câmara de Angra que ficará patente ao público no Centro Interpretativo da cidade património

Foto: Linkedin de Maria Manuel V. Ribeiro

A exposição “Coleção Francisco Ernesto de Oliveira Martins: um percurso sentimental”, que inaugura na próxima segunda-feira, 8 de junho, no Centro Interpretativo de Angra do Heroísmo, propõe uma leitura inédita de uma das mais importantes coleções privadas ligadas ao património cultural açoriano. Com curadoria de Maria Manuel Velasquez Ribeiro, a mostra reúne peças significativas das artes decorativas açorianas e apresenta, pela primeira vez ao grande público, um conjunto de bens que refletem não apenas um percurso pessoal de colecionismo, mas também uma visão da identidade e da autonomia cultural dos Açores.

Esta exposição promete afirmar-se como um dos acontecimentos culturais de maior relevância do ano em Angra do Heroísmo. Organizada pela Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e patente no Centro Interpretativo da cidade, a mostra presta homenagem a uma figura incontornável da investigação, preservação e divulgação do património açoriano, revelando um acervo construído ao longo de décadas de estudo, descoberta e salvaguarda da memória coletiva do arquipélago.

Mais do que uma simples apresentação de objetos, a exposição procura revelar o sentido profundo da coleção reunida por Francisco Ernesto de Oliveira Martins. Para a curadora, Maria Manuel Velasquez Ribeiro, trata-se de um conjunto que ultrapassa o valor material das peças e que permite compreender um percurso intelectual e afetivo singular.

Segundo a responsável pela curadoria, a coleção “reúne bens significativos das Artes Decorativas açorianas e propõe uma viagem por um percurso pessoal, que reflete décadas de dedicação à preservação do património”.

A exposição foi concebida precisamente para evidenciar essa dimensão biográfica, permitindo ao visitante acompanhar as escolhas, interesses e preocupações que orientaram o trabalho do colecionador-investigador.

A curadora sublinha ainda que esta é “uma oportunidade rara para conhecer um espólio que testemunha não apenas um peculiar processo colecionístico e a sua associação a uma ideia da autonomia açoriana, mas também aspetos da história local e da riqueza patrimonial que definem os Açores”.

Essa ligação entre património e identidade surge como uma das ideias centrais da mostra. Ao longo do percurso expositivo, os visitantes são convidados a descobrir peças que ilustram diferentes momentos da história cultural açoriana, bem como os cruzamentos artísticos e comerciais que marcaram o arquipélago ao longo dos séculos.

“Trata-se, em certa medida, de um retrato da sua personalidade e das suas inquietações culturais. É também o reflexo da sua própria vida, marcada por diferentes paixões sucessivas. Primeiro, apaixonou-se pela numismática; depois, pela cerâmica inglesa; mais tarde, pelos marfins; e, por fim, pelo mobiliário açoriano. Foi essa sucessão de interesses, vivida com intensidade, que acabou por moldar e construir a sua coleção” salienta a curadora.

Mas quem foi, afinal, este homem?

“Francisco Ernesto de Oliveira Martins foi, acima de tudo, um autodidata. Penso que esta é a característica mais marcante que podemos destacar. Contudo, foi também um homem de grande persistência, determinado em seguir uma ideia até às suas últimas consequências. Embora não tivesse frequentado a academia, conseguiu estabelecer uma relação próxima com o meio académico, não apenas nos Açores, mas também em Lisboa e Coimbra. Aproximou-se de intelectuais, incentivou estudos e projetos de investigação sobre bens e coleções e contribuiu para o surgimento de novas perspetivas de análise. Nesse sentido, foi um verdadeiro colecionador fundador: alguém que não se limitou a reunir objetos, mas que procurou compreendê-los, interpretá-los e construir, a partir deles, uma narrativa sobre o território açoriano e sobre a sua história”, explicita ainda.

Natural da freguesia da Fonte do Bastardo, no concelho da Praia da Vitória, Francisco Ernesto de Oliveira Martins (1930-2012) destacou-se como um dos mais importantes investigadores e divulgadores do património açoriano.

O seu nome ficou particularmente associado ao monumental Subsídios para o Inventário Artístico dos Açores, publicado em 1980. A obra resultou de um levantamento regional promovido pela então jovem Direção Regional dos Assuntos Culturais e constituiu um marco na identificação e valorização de bens patrimoniais dispersos pelas nove ilhas.

A partir desse momento, Oliveira Martins desenvolveu uma intensa atividade editorial, assinando estudos fundamentais para o conhecimento do património regional. Entre as suas obras mais conhecidas destacam-se Mobiliário Açoriano. Elementos para o seu estudo (1981), A Escultura nos Açores (1983), Os Açores nas Rotas das Américas e da Prata (1990), Arte Flamenga nos Açores (1991) e Os Açores nas Rotas dos Marfins e das Porcelanas Orientais (1995).

Um dos aspetos mais inovadores desta exposição reside precisamente na forma como apresenta a coleção não apenas como um conjunto de objetos (cerca de 300), mas como resultado de um processo contínuo de investigação.

Maria Manuel Velasquez Ribeiro destaca que o acervo reunido maioritariamente nos Açores revela “uma coerência constitutiva marcante e uma vocação identitária de memorial açoriano gradualmente cumprida”. Na sua leitura, trata-se de uma coleção que se alimenta da própria investigação que a gerou, funcionando como uma espécie de “meta-coleção”, onde cada descoberta conduzia à procura de novas peças, novos contextos e novas interpretações.

“Para mim, todas as peças são importantes e possuem valor próprio. Cada uma delas carrega a sua história e o seu significado. É evidente que a formação desta coleção foi um processo complexo, marcado por inúmeras peripécias, descobertas e episódios. Existem peças verdadeiramente notáveis, algumas de enorme relevância, precisamente porque muitas vezes o seu interesse não reside apenas na raridade, mas também na quantidade e na diversidade do conjunto. É o caso, por exemplo, da coleção de marfins de carácter religioso. Não se trata apenas de encontrar uma peça excecional, mas de reunir um conjunto vasto e significativo, algo difícil de alcançar. A presença de centenas de peças permite compreender melhor a dimensão do fenómeno e confere à coleção um caráter verdadeiramente impressionante. O valor está, assim, não apenas em cada objeto individualmente, mas na força e na singularidade do conjunto que foi possível reunir”, conclui.

Essa dimensão reflexiva permite compreender melhor o papel desempenhado por Francisco Ernesto de Oliveira Martins na construção de uma consciência patrimonial açoriana contemporânea. Ao colecionar, estudar e publicar, o investigador não se limitou a preservar objetos; contribuiu para criar novas formas de olhar e interpretar o património regional.

A iniciativa não se esgota na vertente expositiva. O programa associado à mostra prolongar-se-á pelo menos até ao final do ano e incluirá visitas comentadas, sessões de reflexão sobre património cultural e encontros com investigadores das áreas da museologia, história e antropologia.

O objetivo passa por transformar a exposição num espaço ativo de debate e partilha de conhecimento, aproximando a comunidade das questões relacionadas com a preservação e valorização do património cultural açoriano.

Questionada sobre o que pensaria Francisco Ernesto de Oliveira Martins desta exposição, Maria Manuel explica: “a memória que eu guardo do Sr. Francisco Ernesto é o prazer dele em passear entre as suas peças e falar-nos delas. Pensando que nós e todos os outros visitantes vamos poder deleitar-nos novamente, percorrendo aquelas salas e olhando para aquelas peças que ele tanto apreciou, eu acho que ele ia sentir-se muito contente, porque penso que ele era um colecionador que tinha prazer em mostrar, em falar daquilo que pensava e que ia descobrindo. E, portanto, acho que é agora um renovar desse prazer com uma nova geração que já não teve oportunidade de ver a coleção quando ela estava na sua casa, que era um museu aberto”.

A sessão inaugural, agendada para as 17h30, contará com a presença de diversas personalidades ligadas à cultura e à investigação, entre as quais José Guilherme Reis Leite, Francisco Maduro Dias, a curadora Maria Manuel Velasquez Ribeiro, representantes institucionais, membros da família de Francisco Ernesto de Oliveira Martins e responsáveis da autarquia angrense.

Patente no Centro Interpretativo de Angra do Heroísmo, a exposição oferece uma oportunidade singular para conhecer um dos mais relevantes espólios privados dedicados aos Açores e para revisitar, através dele, a história artística, cultural e identitária do arquipélago. A entrada é livre.

Angra do Heroísmo inaugura exposição inédita da coleção Francisco Ernesto de Oliveira Martins

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