A Catedral de Angra acolhe, no próximo domingo, a celebração das bodas de prata sacerdotais dos padres Hélder Cosme, Hélder Miranda e Silvano Vasconcelos. São 25 anos de ministério vividos em paróquias, hospitais, Seminário e inclusivé noutra diocese. Os três sacerdotes revisitam uma caminhada que ajudou a moldar não apenas as comunidades que serviram, mas também os homens em que se tornaram

Vinte e cinco anos podem parecer uma vida inteira. Para o padre Hélder Cosme, contudo, passaram “como 25 dias”. A memória leva-o imediatamente aos primeiros anos de sacerdócio, vividos em São Jorge, onde chegou ainda jovem para servir as comunidades da Ribeira Seca e das Manadas.
Natural de Ponta Delgada, encontrou numa realidade rural, tão diferente da cidade onde cresceu, uma das experiências mais marcantes da sua vida. Recorda as portas sempre abertas, a simplicidade das pessoas e a proximidade humana que o ajudaram a moldar o seu ministério.
“Esse primeiro amor fica sempre muito vincado. É como o primeiro amor na vida de uma pessoa”, confessa.
Ao fim de seis anos regressou a São Miguel, servindo durante 13 anos a paróquia de São Roque e, mais recentemente, a Fajã de Cima, sem nunca abandonar uma dimensão que se tornou central na sua vocação: a pastoral da saúde. Primeiro em São Jorge, depois no Hospital do Divino Espírito Santo, acompanhou doentes e famílias em momentos de fragilidade extrema.
É precisamente nesse contacto com o sofrimento humano que encontra algumas das maiores lições da sua caminhada.
“Estamos disponíveis para aquilo que a pessoa precisa, seja a que hora for ou a que dia for, seja na paróquia, seja no hospital, seja na vida pessoal, seja na família, seja com tudo”, resume.
Ao olhar para trás, reconhece que a experiência lhe ensinou uma verdade simples: nem tudo depende das capacidades do padre, tendo aprendido a relativizar as urgências e a aceitar os próprios limites.
“Se pudesse falar com o padre que fui há 25 anos, diria para não se preocupar demasiado em salvar tudo e todos. Isso nunca é possível.”
Mais do que os livros ou as salas de aula, que o capacitaram para muitas coisas, acredita que foram as pessoas das comunidades que o formaram.
“As comunidades fazem o padre. O padre nunca faz as comunidades”, afirma.
Essa convicção nasce da experiência concreta de quem entrou no seminário quase por acaso.
“Fui para o seminário para jogar à bola”, conta entre sorrisos. O que começou como uma aventura de adolescência transformou-se, com o tempo, numa vocação sólida.
“O meu sim não é a uma determinada pessoa. É um sim a algo muito maior do que eu. É Jesus Cristo. E este sim é um sim que é entre mim e ele; se algum dia houver essa dúvida e essa incerteza, nós lidaremos bem com os problemas, um com o outro”.
Naturalmente que “há altos e baixos, mas isso decorre da experiência humana” relativiza.
“Um dos problemas é a adaptação e isso requer tempo” acrescenta.
“As colocações e as mudanças são muito em cima da hora. Há 25 anos atrás nós fomos preparados. Eu já sabia que ia para São Jorge mais de seis meses antes de ser ordenado de padre. Tive tempo para me inteirar, para me preparar, para de alguma maneira me ir confrontando com aquela realidade que ia encontrar pelo testemunho dos que já lá estavam, obviamente dentro do sigilo próprio que nos era pedido na altura, mas nós não tínhamos já consciência dessa dimensão, do que é que íamos encontrar, das necessidades” refere.
Também o padre Hélder Miranda vive este jubileu como um momento de profunda gratidão.
“É um momento de ação de graças”, afirma. “Para dar graças a Deus, aos amigos, às comunidades que servi e também recordar aqueles que já partiram.”
Atualmente pároco da Sé, grande parte da sua vida sacerdotal foi dedicada ao Seminário Episcopal de Angra, onde exerceu funções como reitor durante largos anos, mais de uma década, ajudando a formar novas gerações de sacerdotes.
Começou a vida presbiteral a servir comunidades no Faial, nomeadamente Pedro Miguel e Praia do Almoxarife, antes de ir para Roma estudar Direito Canónico.
Ao longo deste percurso, testemunhou mudanças profundas na sociedade e na própria Igreja. Recorda uma frase que ouviu ainda no seminário ao monsenhor José Lima: “Ser padre amanhã vai ser mais difícil do que hoje.” Um pensamento que considera particularmente atual e que deve acompanhar os presbíteros para estarem cientes das dificuldades e desafios.
Num tempo em que a Igreja já não ocupa o lugar central que teve noutras épocas, defende que o futuro passa por uma participação cada vez maior dos leigos.
“O padre está ali para orientar e ajudar, mas os leigos devem ser protagonistas da ação quotidiana das comunidades”, sustenta.
Perante a diminuição do número de sacerdotes, acredita, igualmente, que a amizade e a colaboração entre padres serão cada vez mais decisivas. O modelo de um sacerdote isolado numa única paróquia tende a dar lugar a formas mais colaborativas de missão pastoral.
“Precisamos mais uns dos outros. Precisamos ser amigos e sentirmo-nos família.”
Apesar dos desafios, mantém intacto o entusiasmo que o acompanhou desde a ordenação. O lema que escolheu há 25 anos continua a orientar-lhe os passos: “Estou no meio de vós como quem serve”. E é com esse espírito que encara o futuro, convencido de que continua a aprender todos os dias e que o povo de Deus o ajuda a ser um sacerdote melhor.
“Interessa a gente sorrir em cada manhã e lançar-se nesta aventura que é extraordinária”, conclui.
O padre Silvano Vasconcelos partilha a mesma convicção de que o sacerdócio é um caminho feito de luzes e sombras, alegrias e exigências. Pároco dos Arrifes, descreve estes 25 anos como uma caminhada vivida “com a fé, a disponibilidade e a generosidade da primeira hora”.
Não esconde que houve momentos de dúvida e de cansaço. Afinal, diz, fazem parte da condição humana e da exigência própria do ministério. Ainda assim, nunca deixaram de ser apenas etapas do percurso.
Entre as experiências mais enriquecedoras da sua vida destaca os seis anos passados fora da Diocese de Angra, na diocese de Portalegre-Castelo Branco. Considera que servir a Igreja noutras realidades é uma escola de crescimento humano, espiritual e pastoral.
“Quem puder fazer essa experiência, só fica a ganhar”, assegura.
Ao comparar a Igreja de hoje com a que encontrou no início do seu ministério, vê comunidades mais pequenas, mas também mais conscientes e comprometidas. Ao mesmo tempo, identifica novos desafios culturais e éticos, marcados pela relativização da verdade, pela influência das plataformas digitais e pelas questões colocadas pela inteligência artificial.
“Nestes 25 anos vejo que se cresceu muito na libertinagem, no campo ético e moral, no pensamento inconsistente, sobretudo naquilo que se diz e escreve, de um modo muito particular nas plataformas digitais, os recursos à inteligência artificial, à manipulação de dados e informações, onde a verdade é um bem relativo, não há a verdade universal, mas há a verdade de cada um, há as meias verdades, há a mentira disfarçada de verdade e de facto isto constitui um grande atropelo e um grande questionamento à dignidade humana. A verdade, como dizia, a dignidade humana são atropeladas muito frequentemente e constantemente e por vezes a mentira e o erro predominam”, afirma.
Ainda assim, na sua perspetiva, ser padre continua a ser uma missão bela, mas ser pároco tornou-se particularmente exigente. A multiplicação de responsabilidades e a crescente adaptação da religião aos gostos individuais colocam novos desafios aos sacerdotes, que procuram manter-se fiéis ao essencial da sua missão.
“É bonito e belo ser padre”, resume. Mas lembra que o maior desafio continua a ser o mesmo de sempre: ajudar cada pessoa a encontrar um caminho de sentido, de fé e de esperança.
“Nós temos vindo a verificar gradualmente uma grande materialização da religião, uma igreja cada vez mais moderna que se adapta aos gostos, às necessidades, às exigências pessoais de cada um. Nós vemos muitas questões que deixam a desejar, como por exemplo os espaços sagrados, que muitas vezes são usados e abusados para tudo, menos para o sagrado, servindo de auditórios, a liturgia que por vezes é adaptada ao proveito e às circunstâncias pessoais, o esquecimento do sacrifício da cruz e a falta de ascese litúrgica muitas vezes também se verifica e, tudo isto, nos põe à prova, como ser pastor nos dias de hoje, por forma a ser fiel a Cristo e também a ser fiel ao ser humano, à pessoa”, adianta.
Por isso, o “pároco , hoje assumindo muitas paróquias e muitas responsabilidades, por vezes descura aquilo que é essencial. Parece-me que é um dos perigos maiores que nós sacerdotes podemos enfrentar”.
No domingo, na Sé de Angra, os três sacerdotes estarão juntos, de novo, para celebrar as suas bodas de prata sacerdotais. Mais do que uma data redonda, o jubileu será a celebração de três histórias de vida marcadas pela dedicação às pessoas, pela fidelidade à vocação e por uma certeza comum: ao longo de 25 anos, foram as comunidades, os encontros e os rostos concretos que deram sentido ao sacerdócio que abraçaram.
Com eles estarão mais dois sacerdotes que celebram 60 anos de ministério: os padres Vasco Parreira, cónego Jubilado da Sé e ex Vigário Judicial e Norberto Pacheco, que serviu no Pico e em São Miguel, particularmente nos últimos 20 anos do seu ministério na Ribeira Grande. Atualmente vive na Graciosa, sua terra natal, na Santa Casa da Praia.
Em declarações ao Sítio Igreja Açores recorda que a vida de padre “nem sempre foi fácil. As pessoas complicam muito, colegas padres e os próprios leigos”. No entanto, avança: “gosto muito de ser padre e lembro-me de ter a colaboração de muita gente. Participar nas suas vidas foi muito bom”. Completa ainda 60 anos de ordenação sacerdotal o padre Ivo Rocha, atualmente residente nos Estados Unidos.
A celebração, que decorre na Sé, no dia em que será ordenação um novo presbítero, Fábio Silveira, natural do Pico, evocará ainda os 70 anos de sacerdócio do padre José Fernandes Medeiros, que se encontra doente, numa homenagem marcada pela gratidão da Igreja diocesana pelo seu longo percurso de entrega e serviço.


