Presidente da CEP sublinha prioridade do anúncio da fé perante revolução tecnológica

Jornadas Pastorais do Episcopado debatem impacto da inteligência artificial

Foto: Ecclesia

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) defendeu hoje que a Igreja deve manter o foco no anúncio do Evangelho, no meio das transformações provocadas pela inteligência artificial (IA).

“O que gostaria de propor é que, no meio desta análise, destes diagnósticos, tanto acerca da revolução tecnológica como acerca da cultura hodierna, que não se perdesse o anúncio da fé”, apelou D. Virgílio Antunes, na abertura das Jornadas Pastorais do Episcopado, que decorrem em Fátima sob o tema ‘Anúncio da Fé na Nova Revolução Tecnológica (IA) e na Nova Cultura’.

O responsável católico evocou a recente encíclica ‘Magnifica Humanitas’, sublinhando a ousadia do Papa Leão XIV ao intervir magisterialmente “estando ainda no meio do turbilhão” de uma inovação acelerada.

“Quando o Papa Leão XIII publicou a ‘Rerum Novarum’ [1891] havia porventura algumas seguranças maiores, não só acerca do impacto, mas também acerca dos desafios que essa mesma revolução industrial fez”, assinalou o bispo de Coimbra.

Segundo o responsável católico, a análise técnica e sociológica do fenómeno digital tem de estar subordinada ao desígnio de guiar a humanidade contemporânea a uma descoberta espiritual.

“Esta realidade do encontro com Deus, que é o objetivo fundamental do anúncio da fé”, clarificou D. Virgílio Antunes, falando em “novos caminhos de descoberta e de encontro do Deus”.

O presidente da CEP registou o alargamento da participação nestas jornadas a outros representes diocesanos, reiterando que o episcopado nacional está “plenamente alinhado” com o dinamismo da sinodalidade exigido pelo Vaticano.

“Penso que no início destas jornadas, em que reunimos representantes das diferentes comunidades em Portugal, é importante salientar de novo este aspeto, porque estamos efetivamente todos alinhados e decididos em levar por diante o programa da Igreja iniciado pelo Papa Francisco e, de forma tão expansiva e continuada sob o pontificado do Papa Leão XIV”, acrescentou D. Virgílio Antunes.

O programa formativo reúne mais de uma centena de participantes, incluindo bispos portugueses, representantes das dioceses e responsáveis dos organismos nacionais da CEP, para refletir sobre os desafios e oportunidades que a IA, as redes sociais e a cultura digital colocam à vida e à missão da Igreja, entre eles está o bispo de Angra, o Vigário Episcopal para o Clero e o responsável pela Comissão Justiça e Paz da diocese de Angra.

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Presidente de Academia Pontifícia adverte contra “opacidade” dos sistemas de IA

“Não se sabe bem como é que a máquina chega a determinada conclusões. Por motivos de segurança, porque protegem e escondem o sistema, e por problemas de patentes, porque são sistemas muito claros”, declarou D. Renzo Pegoraro, na abertura das Jornadas Pastorais promovidas pela Conferência Episcopal Portuguesa.

“Entre uma máquina e um ser humano, apenas este último é verdadeiramente um agente moral”, acrescentou.

O especialista defendeu que a aceleração no desenvolvimento dessas tecnologias exige “reflexões antropológicas e éticas cada vez mais cuidadosas, colocando o ser humano no centro de tudo, reconhecendo princípios morais fundamentais e estabelecendo normas jurídicas adequadas”.

“A ética deve acompanhar todo o ciclo de conceção e produção da tecnologia, desde que escolhemos os projetos em que investir”, acrescentou.

O responsável da Santa Sé defendeu que a IA “não é inteligente, mas é sofisticada a executar tarefas”, precisando que “o algoritmo não decide, mas faz correlações”.

O presidente da APV lamentou a falta de um “debate político” sobre uma das grandes transformações da humanidade, evocando o ensinamento de Leão XIV para destacar que a IA “não é moralmente neutra”.

“É importante saber qual é a inspiração ética para governar a IA”, assinalou D. Renzo Pegoraro.

A intervenção evocou os compromissos assumidos no Apelo de Roma para a Ética da IA, que uniu o Vaticano e grandes empresas do setor, reiterando a exigência urgente de criar programas digitais caracterizados pela transparência, inclusão, imparcialidade e segurança.

O colaborador do Papa mostrou-se defensor de um modelo à imagem do VAR, no futebol, “onde primeiro está o humano, depois a máquina e, no fim, de novo o humano”.

Questionado sobre o impacto da IA no mundo do trabalho, D. Renzo Pegoraro rejeitou um “pessimismo de resignação”, pedindo “criatividade” para superar os desafios.

“A Igreja tem algo a dizer sobre a dignidade da pessoa e do trabalho”, acrescentou, propondo que a IA “seja orientada para o bem comum”.

A reflexão alertou para um “reducionismo digital” promovido pelo rápido avanço da digitalização.

O conferencista falou ainda do recurso a ajudas tecnológicas para homilias ou catequeses, admitindo que a IA “pode ser útil”, desde que esteja ligada à realidade dos destinatários.

“Pode ajudar, mas não substituir, e isso é um problema crescente”, prosseguiu.

As Jornadas Pastorais do Episcopado, que decorrem até terça-feira no Centro Pastoral Paulo VI, sob o tema ‘Anúncio da Fé na Nova Revolução Tecnológica (IA) e na Nova Cultura’.

Os trabalhos prosseguem na terça-feira, com uma manhã dedicada à comunicação da fé em ambiente digital.

Juan Narbona, professor na Faculdade de Comunicação Social na Pontifícia Universidade de Santa Cruz, apresenta uma reflexão sobre estratégias digitais para instituições eclesiais e realidades religiosas, seguindo-se uma sessão dedicada à presença dos sacerdotes nas redes sociais.

A tarde conclusiva vai ser dedicada à relação entre tecnologia, espiritualidade e teologia.

(Com Ecclesia)

 

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