São João Batista: o santo que anunciou Cristo e continua a unir fé e tradição popular

A importância de João Batista na história do Cristianismo, a sua ligação singular a Jesus Cristo e o significado religioso das festas Joaninas estiveram em destaque numa entrevista concedida pela investigadora Susana Goulart Costa

Foto: Susana Goulart Costa é a responsável pelo Projeto DIO 500, que está a escrever a História da Religião dos Açores

As festas de São João são sinónimo de alegria, convívio, marchas populares e tradições seculares. No entanto, por detrás da dimensão festiva encontra-se uma das figuras mais relevantes da história cristã. Foi essa realidade que Susana Goulart Costa procurou recordar ao abordar a vida e o legado de São João Batista, numa entrevista que vai para o ar este domingo no programa de rádio Igreja Açores na RTP Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra, ficando disponível em podcast em www.igrejaacores.pt .

Na entrevista, a investigadora e atual Representante da República para os Açores, Susana Goulart Costa, que lidera igualmente o projeto DIO 500, dedicado ao estudo da história religiosa dos Açores até 2034, destacou que São João Batista ocupa um lugar único na tradição católica por ter sido o homem escolhido para preparar a chegada de Jesus Cristo.

“São João Batista é o precursor, aquele que anuncia a vinda do Messias”, explicou, lembrando que o santo nasceu seis meses antes de Jesus e que a sua missão foi preparar espiritualmente o povo para a chegada de Cristo.

A investigadora salientou ainda a particularidade de a Igreja Católica celebrar, a 24 de junho, o nascimento de São João Batista, algo raro na tradição cristã. Além de Jesus Cristo, é o único santo cujo dia festivo corresponde à data do nascimento e não à data da morte ou martírio.

A escolha desta data está também ligada ao simbolismo do solstício de verão. Segundo Susana Goulart Costa, a proximidade entre o dia mais longo do ano e as festividades de São João reforça a associação entre luz, fertilidade, abundância e renovação, elementos profundamente enraizados nas comunidades rurais.

Entre as tradições populares mais conhecidas está salta a fogueira. Embora atualmente seja encarado sobretudo como uma atividade festiva, a historiadora recorda que o fogo possuía um significado espiritual muito forte.

“O fogo purifica, afasta os maus espíritos e simboliza a renovação”, referiu, evocando antigas práticas em que crianças doentes eram levadas junto das fogueiras como forma simbólica de proteção.

Ao longo da entrevista, Susana Goulart Costa destacou vários episódios marcantes da vida do santo, desde o anuncio do seu nascimento por sua mãe Isabel à prima Maria, mãe de Jesus, até ao batismo de Jesus nas águas do rio Jordão. Sublinhou igualmente a humildade de São João Batista, expressa na célebre frase bíblica: “É necessário que Ele cresça e eu diminua”, reconhecendo que a sua missão terminava quando Jesus iniciava a sua.

A morte de São João Batista, decapitado por ordem de Herodes após o pedido de Salomé, foi igualmente apontada como um dos momentos mais significativos da sua vida. Para a investigadora, este episódio simboliza a coragem na defesa da verdade e dos valores cristãos, mesmo perante a perseguição e a ameaça de morte.

A ligação entre a dimensão religiosa e as tradições populares permanece visível nas celebrações dos santos populares. Embora muitos costumes tenham perdido parte do seu significado espiritual original, continuam a refletir valores associados à fertilidade, ao casamento, à renovação da vida e à coesão das comunidades.

Susana Goulart Costa recordou ainda antigas tradições açorianas ligadas às chamadas “sortes de São João”, que incluíam rituais realizados por jovens solteiras na esperança de conhecer o futuro marido, bem como práticas relacionadas com a água, considerada símbolo de purificação e renovação.

Para a historiadora, o principal ensinamento deixado por São João Batista continua a ser atual: a defesa da verdade, da integridade e da coerência entre palavras e ações. Valores que, séculos depois, mantêm viva a ligação entre a figura do santo, a fé cristã e as celebrações populares que marcam o mês de junho nos Açores e em todo o país.

De 23 para 24 de junho Angra e Vila Franca do Campo enchem-se de festa para as tradicionais fogueiras e marchas de São João.

A entrevista completa vai para o ar este domingo, depois do meio-dia na RTP Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra. Ficará disponível em podcast em www.igrejaacores.pt, no spotify e no Itunes.

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