Entre o silêncio e a oração: Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês vive o Jubileu Franciscano nos Açores

“A oração e a santidade de vida é a nossa forma de presença e é o que temos para oferecer à Igreja e aos irmãos”- Ir. Maria do Rosário, secretária da comunidade de Clarissas que vive em São Miguel

Foto: A irmã Maria do Rosário é natural das Calhetas

A capela do Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, nas Calhetas, na ilha de São Miguel assume este ano um papel especial no contexto do Ano Santo Franciscano, celebrado pelos 800 anos da morte de São Francisco de Assis. O Mosteiro, onde vivem atualmente cinco irmãs Clarissas em clausura (há uma sexta que pelo seu estado de saúde está institucionalizada na Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição), integra os locais de culto associados ao jubileu decretado pelo Papa Leão XIV, permitindo aos peregrinos obter a indulgência plenária até 10 de janeiro de 2027.

Para a comunidade contemplativa, a distinção representa uma oportunidade de aproximar os fiéis da espiritualidade franciscana e da missão silenciosa que as religiosas desenvolvem há quase cinco décadas nos Açores.

Fundado oficialmente a 2 de janeiro de 1977 por irmãs Clarissas provenientes da Madeira, o Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês foi erigido a partir da antiga casa e ermida com o mesmo nome, beneficiando também da doação de terrenos por benfeitores locais.

Segundo a irmã Maria do Rosário, secretária da comunidade, natural das Calhetas, a clausura está longe de significar isolamento.

“A clausura não é uma barreira física; pelo contrário, é um espaço que favorece a escuta da presença de Deus e essa escuta leva-nos à comunhão, a acolher os nossos irmãos”, afirma.

A religiosa sublinha que a comunidade vive profundamente ligada às preocupações da sociedade.

“Todo o sofrimento da humanidade é acolhido no nosso coração e levado para a oração. O nosso carisma é atual porque estamos a prolongar a comunhão que Jesus tinha na oração”, refere.

Atualmente, as cinco religiosas dedicam os seus dias à oração, à adoração e à intercessão, mas também ao trabalho quotidiano na horta, no jardim e na criação de animais. Produzem ainda hóstias para as comunidades católicas de todo o arquipélago, atividade que contribui para o sustento da comunidade.

O Mosteiro recebe regularmente pedidos de oração provenientes de várias ilhas e de emigrantes açorianos espalhados pelo mundo. Para a irmã Maria do Rosário, essa confiança constitui uma das expressões mais significativas da missão das Clarissas.

“As pessoas precisam de ser ouvidas. Muitas vezes desabafam connosco e saem aliviadas porque encontraram alguém que as escutou com amor e compaixão”, explica.

Quando recebe um pedido de oração, a religiosa prefere não conhecer todos os detalhes da situação.

“Pergunto apenas o nome da pessoa e entrego esse nome aos pés de Jesus. Levar as pessoas aos pés de Jesus também é uma missão lindíssima”, acrescenta.

A história das Clarissas nos Açores recupera uma presença que remonta aos séculos anteriores à extinção das ordens religiosas, em 1832. A Ordem de Santa Clara teve um papel relevante no arquipélago, com vários mosteiros e conventos femininos franciscanos espalhados pelas ilhas. Após cerca de século e meio de ausência, a ordem regressou a São Miguel com a fundação do Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, atualmente o único mosteiro de vida contemplativa e de clausura existente nos Açores.

Fundada por São Francisco e Santa Clara de Assis em 1211-1212, a Ordem de Santa Clara está presente em Portugal desde 1258 e conta atualmente com 13 comunidades no país. A sua subsistência assenta tradicionalmente na confeção de hóstias, bordados, paramentos litúrgicos, tecelagem e exploração agrícola.

Para a irmã Maria do Rosário, a vida contemplativa continua a ser uma resposta necessária aos desafios contemporâneos.

“O recolhimento é um contra-sinal face ao ruído, ao consumismo, à dispersão e ao ativismo frenético do nosso século. O silêncio interior e exterior é uma ferramenta essencial para a nossa saúde física, mental e espiritual”, sustenta.

Por outro lado, diz, a  santidade não é um estado alcançado de uma vez por todas, mas um caminho diário de aproximação a Cristo. A religiosa explica que a verdadeira santidade nasce da vivência do Espírito de Jesus e da procura constante das virtudes que marcam a sua vida e mensagem.

“É no coração de Jesus que encontramos o silêncio, a comunhão, o amor ao próximo e todas as virtudes que procuramos viver. A santidade constrói-se no dia a dia, cultivando e exercitando essas virtudes”, afirma.

A religiosa encontra em Santa Clara de Assis um dos maiores exemplos dessa entrega radical ao Evangelho. Segundo explica, a fundadora da Ordem das Clarissas distinguiu-se não apenas pela pobreza e humildade que abraçou, mas também pela sua extraordinária capacidade de acolher os mais frágeis.

“Santa Clara foi uma mulher profundamente próxima de Jesus e das pessoas. Tinha um amor especial pelos pobres, pelos doentes e pelos jovens. Acolhia todos os que a procuravam, oferecendo uma palavra de conforto e ajuda concreta sempre que podia”, refere.

Na perspetiva da irmã Maria do Rosário, a força espiritual de Santa Clara residia precisamente nessa opção radical por uma vida centrada em Deus.

“Vivia mais segundo o Espírito do que segundo as necessidades materiais. Foi essa fidelidade ao Evangelho que marcou a sua vida e continua hoje a inspirar tantas pessoas”, conclui.

A religiosa considera que este exercício de discernimento continua a ser fundamental numa sociedade marcada pela pressa, pelo ruído e pela dificuldade em escutar o outro. Recorda, por isso, uma das recomendações evangélicas que mais a inspira: “Que a vossa linguagem seja sim, sim; não, não”.

“Muitas vezes falamos demais, quando o mais importante é acolher e ouvir. A nossa atitude deve ser a de escutar o próximo com atenção e deixar que o amor oriente as nossas palavras e ações”, sublinha destacando que é o amor que deve guiar a vida cristã.

“O amor ajuda-nos a olhar para os outros com misericórdia. Quando encontramos alguém mais difícil ou em sofrimento, devemos procurar compreender a sua dor, porque muitas vezes é essa pessoa quem está mais em crise e mais precisa de compaixão”, refere.

 

No âmbito do Ano Santo Franciscano, os fiéis que visitem a capela do Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês e cumpram as condições habituais estabelecidas pela Igreja – confissão sacramental, participação na Eucaristia e oração pelas intenções do Santo Padre – poderão beneficiar da indulgência plenária.

Enquanto os sinos marcam o ritmo dos dias nas Calhetas, as Clarissas continuam a viver uma vocação feita de silêncio, oração e proximidade espiritual.

“A oração e a santidade de vida são a nossa forma de presença e aquilo que temos para oferecer à Igreja e aos irmãos”, conclui a irmã Maria do Rosário.

O Mosteiro celebra as Eucaristias nos seguintes horários: aos domingos, às 10h00; aos sábados, às 8h00; e nos restantes dias da semana, às 17h30. Todos os dias, exceto ao sábado, o Santíssimo Sacramento encontra-se em exposição e adoração a partir das 14h00. Aos domingos, entre as 15h30 e as 17h00, as Irmãs estão disponíveis para receber, na sala de visitas, as pessoas que desejem conhecer ou conversar com a comunidade. O atendimento na Roda Conventual, e através do telefone, realiza-se diariamente das 9h00 às 17h00.

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