Leão XIV evocou milhares de mortos no Mediterrâneo e rejeitou justificações religiosas para “discriminação”

O Papa apelou hoje em Lampedusa à responsabilidade histórica da Europa perante a crise migratória, exigindo um plano estratégico de longo prazo para o acolhimento e a integração das populações deslocadas.
“A Europa é capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes”, referiu Leão XIV, na homilia da Missa com que encerrou a sua visita desta manhã, à ilha italiana.
Já após ter rezado no cemitério, junto das campas de migrantes falecidos, o pontífice evocou os milhares de seres humanos que perderam a vida nas águas do Mediterrâneo, criticando a indiferença.
“Há quem opte por não ser próximo e há quem decida não decidir. Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram”, lamentou.
“Não há amor a Deus sem amor ao próximo e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar perante a dor alheia, como fez Jesus, significa entrar no movimento do amor, aquele em que Deus se revelou”, disse.
Leão XIV denunciou o desinteresse pelo bem comum, a corrupção nos países de origem e o sistema económico mundial que gera “pobreza e exclusão”, bem como o medo que gera “preconceitos”.
A homilia criticou duramente os “cálculos criminosos” de quem lucra com o drama alheio e aqueles que preferem seguir em frente, perante o sofrimento, alheio.
“Infelizmente, em todas as épocas há quem tenha medo de se contaminar no contacto com os outros, negando assim a origem comum em Deus, a dignidade infinita de cada ser humano e o chamamento ao amor sem limites”, afirmou.
A intervenção destacou que ninguém é uma “ilha” e que o Evangelho nunca pode justificar a exclusão do outro.
“A pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação”, sustentou.
O Papa elogiou a “revolução interior” e a compaixão protagonizadas pela população local, pelos voluntários, pelas forças de segurança e pelos profissionais de saúde da ilha.
“Entre vós foi o amor que se organizou, aquele amor cuja compaixão, vendo o irmão no mar, é como o primeiro estremecimento, o apelo profundo para ousar aquilo que nunca teríeis pensado”, afirmou.
A forte vocação turística de Lampedusa mereceu uma atenção especial na intervenção, com o aviso de que as rotas migratórias não podem ditar a construção de uma barreira social.
“Parece que é necessário erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o dos turistas”, apontou, pedindo a “ousadia de pensar de forma diferente”.
“Existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna. Nesta economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa síntese, que hoje a humanidade procura”, acrescentou.
A deslocação pontifícia seguiu os passos da primeira viagem do Papa Francisco, realizada a 8 de julho de 2013, e incluiu a bênção de uma placa no Cais Favaloro que intitula o local de desembarque com o nome do pontífice argentino.
“Este é um lugar em que, mais do que as palavras, falam os gestos. Mas os gestos, para serem humanos, precisam de um coração”, referiu Leão XIV, na primeira intervenção da viagem desta manhã.
“O Papa [Francisco] esteve perto de vós neste tempo tão exigente para todos. E hoje estou aqui para vos dizer que o Papa continua a acompanhar-vos, a sustentar-vos e a encorajar-vos”, declarou.
Leão XIV desejou que, com a força da mensagem cristã, “o mundo de hoje e de amanhã seja mais humano, para todos”.
O presidente da Câmara de Lampedusa, Filippo Mannino, deu as boas-vindas ao Papa, classificando a sua presença como um “dom”, uma “carícia fraterna” e uma responsabilidade para a comunidade local.
O autarca sublinhou que, apesar da sua reduzida dimensão, a ilha carrega “grandes questões, feridas profundas e esperanças alegres que pertencem ao mundo inteiro”.
Filippo Mannino entregou simbolicamente ao pontífice a “luz do farol”, recorrendo a esta imagem para definir a identidade de Lampedusa perante a crise migratória.
“O farol não faz barulho. Não julga. Não escolhe quem iluminar. Fica aceso na noite, indica um caminho, acompanha quem procura uma margem, recorda que ninguém se deveria sentir perdido na escuridão”, indicou o presidente do município.
O autarca pediu uma bênção papal para as crianças, idosos, trabalhadores do mar, equipas de salvamento e, de forma particular, para “quem chega, quem parte e quem nunca voltou”.
(Com Ecclesia/Lusa e Vatican news)

