Por Renato Moura

Conta-se que, durante a ditadura, um velho e matreiro Chefe de Secretaria duma Câmara Municipal, sempre que lhe era despachado um requerimento para parecer, perguntava ao Presidente se queria fundamentação para sim ou para não.

O Primeiro-ministro David Cameron lançou um referendo sobre a eventual saída do Reino Unido da União Europeia, mas pretendia que a resposta fosse negativa. Em democracia, mais de 72% foram às urnas, 51,9% (17,41 milhões) optaram pela saída e o não ficou com os restantes 48,1 % (16,14 milhões). E fora do Reino Unido houve muitas forças a lutar pelo não!

Nem do lado do RU, nem da UE se sabe o que vai acontecer a partir de agora e como, pois que tantos acreditavam que os britânicos votariam como as instituições europeias quisessem!

Em Portugal e na maioria do Estados membros nunca se referendou a entrada, nem a saída, nem os tratados, nem as respectivas alterações. O que aconteceria?

Há agora demasiados a condenar como tremendo erro a opção britânica pela saída e Durão Barroso, recente Presidente da Comissão Europeia, não se coibiu de ameaçar que quem ataca a Europa acaba mal! Só no tempo da ditadura imperava a teoria de que o povo não entendia e apreciava as coisas que o poder lhes oferecia, se considerava que a democracia era um erro e se condenava a luta pela liberdade!

Será possível que as instituições europeias não entendam que o resultado do referendo significa descontentamento com as crises económicas, com a perda da confiança, com a falta de segurança? Não ficou claro que há demasiados governados descontentes com os governantes europeus? Não servirá isto para se perceber que se a Europa não se regenerar corre o risco de tender para a desintegração?

Não será que as soberanias nacionais se sentem humilhadas, principalmente as da zona euro, quando se afirma que a França não será sancionada porque é a França, ou mesmo depois do Brexit, quando se anuncia, sem pejo, que os responsáveis dos três maiores (Alemanha, França e Itália) se vão reunir para preparar uma decisão, antes da reunião do Conselho Europeu, mas que ainda antes o Presidente francês se reunirá com Merkel para definir uma estratégia?! Grandes a mandar nos pequenos?! Um governo de comissários que não elegemos a submeter-nos e a aplicar sanções?!

No meio desta desorientação impõe-se ponderar o que disse o Papa: “Há alguma coisa que não está a funcionar nesta maciça, pesada União”, “Temos de encontrar um novo tipo de União” e “Criatividade e fecundidade são as duas palavras-chave para a UE”.