Há apenas um século a Europa era o centro do mundo cristão, acolhendo dois terços dos fiéis.

Hoje, o velho continente, conta com cerca de 560 milhões de cristãos, apenas um quarto da sua população mundial, muito menos que em África, na América Latina ou na Ásia.

Às vezes, até parece que a Europa se distanciou culturalmente do cristianismo esquecendo-se que as raízes cristãs europeias são inquestionáveis e ajudam a compreender a sua matriz humana, cultural, social e espiritual. Mesmo quando há a necessidade de coisas tão importantes como a comida na mesa. É certo que é difícil explicar o Evangelho a quem tem a barriga vazia, mas reduzir o homem a um conjunto de necessidades materiais é diminui-lo na sua existência. E, no tratado que estabelece a possibilidade de uma Constituição Europeia, apenas se valoriza a ideia de um “património religioso” que é preciso preservar, sem que apareça nalguma parte do texto qualquer referência a Deus.

Marcel Gauchet, agnóstico, quando escreveu que “as religiões, e o cristianismo em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, coisas que a democracia facilmente ignora”, estaria a pensar no quê?

A esta pergunta, entre a provocação e o diagnóstico, há de haver boa gente que dirá perentoriamente que a Europa precisa de trabalho, de pão, de habitação e não de outras coisas. Mas não me parece que fosse essa a ideia que o filósofo francês, diretor da revista Le Débat, da Gallimard, tivesse em mente.

Os tempos são difíceis.  Estamos numa espécie de fratura da história. Não é o fim dela, mas é uma época que nos empurra para a mudança, para um tempo novo, fortemente marcado pela globalização. Isso cria, necessariamente, grandes possibilidades mas também grandes tensões. Entre os crentes e não crentes e, sobretudo, entre crentes de outras religiões que entraram na vida da cidadania europeia.

A igreja não pode desistir da Europa. Mesmo que as adversidades sejam grandes. Por vezes sentimos que a Europa chegou a um ponto de estagnação e que é preciso redefinirmos as nossas próprias fronteiras. Sentimos isso na crescente desconfiança dos cidadãos nas instituições europeias, cada vez mais distantes; nas grandes ideias que inspiraram a criação da Europa e que se eclipsaram e perderam atração, cedendo a “burocracias tecnocráticas” (como afirmou o Papa Francisco no Parlamento Europeu) ou quando percebemos que a grande doença da Europa chama-se solidão, ou talvez indiferença. Pelos mais pobres, pelos que sofrem, pelos desprotegidos, por aqueles cuja vida fica depositada num imenso cemitério de águas quentes e profundas que é o Mar Mediterrâneo, outrora fonte de riqueza , hoje espelho do desconforto e da impotência.

É desta Europa que a Igreja não pode desistir. Será também uma forma de exercitar a Misericórdia, em ano jubilar.