No 481º aniversário da Diocese, fica um olhar de fora da estrutura clerical sobre os desafios da igreja açoriana

Não pertencem à hierarquia mas se olharmos para os 26 movimentos, associações e obras laicais que integram a Diocese de Angra, facilmente se percebe a importância dos leigos na dinâmica da igreja nos Açores.

São vida e fazem a vida desta diocese insular, criada há 481 anos, assente numa forte religiosidade popular, que agora enfrenta novos desafios. É pelo menos esta a visão dos responsáveis por alguns dos principais movimentos, desde as Equipas de Nossa Senhora ao Movimento dos Cursilhos de Cristandade ou ao Movimento da Mensagem de Fátima, sem esquecer os Romeiros de São Miguel. Olham de fora para dentro sem esquecer que também são responsáveis.

“Sempre estive muito inserida. Foi como que uma herança dos meus pais e sempre encarei a minha participação como uma forma de servir e há tanto para fazer”, disse ao Sítio Igreja Açores Benvinda Borges, do Secretariado Diocesano do Movimento dos Cursilhos de Cristandade.

“A igreja precisa do nosso apoio e do nosso compromisso. Há uma tendência natural para nos acomodarmos às nossas rotinas, mas há tanto por fazer que temos de arregaçar as mangas” diz a Cursilhista que reconhece que no tempo que mediou algum afastamento para se dedicar à familia quando “as miúdas eram pequenas” e o de regresso “quando elas começaram na catequese”, registou mudanças “significativas”.

“Antes a igreja estava muito clericalizada; hoje felizmente são os sacerdotes que nos pedem colaboração e nós temos que a dar” porque a “nossa missão neste mundo é procurarmos ser um rosto sorridente que transmita o amor de Deus. Ninguém nos pede mais do que isso”, diz perentoriamente.

“Muita coisa mudou na igreja” acrescenta Ildeberto Piques Garcia. Pertence ao Grupo Coordenador do Movimento dos Romeiros de São Miguel, mas esteve na origem de outros movimentos na diocese, desde as Equipas de Nossa Senhora aos Cursilhos de Cristandade.

“Ainda hoje reunimos todos os meses um conjunto de amigos que vêm dos primeiros tempos quer das Equipas quer dos Cursilhos. Muito da nossa vida passou por aí e alicerçou-se nesses movimentos”, diz.

“Assisti à renovação da igreja a partir do Concílio Vaticano II, o antes e depois e, lembro-me bem de como ficámos a nadar em mar alto, aqui na diocese”.

“Os documentos tardavam em chegar; no canto e na liturgia não foi fácil e a Semana Santa, era uma apoquentação preparar alguma coisa de jeito”, lembra Ildeberto Piques que mantém ainda uma enorme atividade no dia a dia da igreja, particularmente da paróquia de Nossa Senhora da Estrela, na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, ou na mesa da Irmandade do Senhor dos Passos.

“Hoje, felizmente, já é mais fácil. Fui a 23 cursos da pastoral liturgica. Fui o primeiro açoriano a cantar o Salmo Responsorial no segundo domingo da quaresma, numa altura em que só os seminaristas o cantavam. Isto foi uma grande mudança”, frisa lembrando que “ainda há poucos anos havia sacerdotes que não o autorizavam”.

“A abertura aos leigos foi sendo progressiva aqui na diocese”, recorda sublinhando a importância dos movimentos ligados à pastoral da família e à formação cristã.

“As Equipas de Nossa Senhora, para nós como casal,  foram uma renovação quase total. Aqui aprendi a fazer um comentário a uma leitura. Depois veio o Cursilho, que me tirou o medo de muitas coisas. Fiquei mais esclarecido e mais seguro para em qualquer parte testemunhar Jesus Cristo”, diz ainda Ildeberto Piques Garcia, que sublinha “a tolerância e o crescimento da fé” como “especiais conquistas” nesta caminhada.

“Nós cristãos temos uma responsabilidade grande: levar Deus onde quer que nos encontremos”, adianta por outro lado Benvinda Borges, sindicalista, sempre em busca “de ser o elo de ligação entre o mais forte e o mais fraco”.

“Se eu que sou cristã não o conseguir fazer quem é que vai conseguir?” pergunta retoricamente, reconhecendo que no mundo laboral nem sempre “a palavra de Deus é bem quista” mas “nós temos de ir insisitindo e mostrando, com o nosso testemunho, de que tudo é possivel com Deus, mesmo quando já não há esperança”.

Apesar dos problemas, na nossa diocese “há uma alegria de esperança” e isso deve-se ao facto “de termos tantos crentes, tanta gente empenhada no serviço”.

É esta dimensão social da fé que os Cursilhos ensinam. “No movimento não é dificil porque estamos entre iguais; cremos todos no mesmo, de maneira diferente, mas cremos todos no mesmo. No trabalho já não é assim e isso é que constitui para nós o grande desafio; é a isso que nos chama o Evangelho”, conclui.

Esta responsabilidade social é, também uma marca dos Romeiros de São Miguel, agora também a darem os primeiros passos na Terceira e na Graciosa.

“As romarias são uma forma prática e palpável de evangelizar, pois não vivem apenas de palavras, mas de atos, escuta e silêncios. É um movimento vivo, que pode ser observado: há um crescente envolvimento de Romeiros em movimentos cívicos e de base, tais como Juntas de Freguesia, Associações Culturais e Recreativas, Movimentos e Grupos de Solidariedade”, lembra João Carlos Leite, coordenador do Movimento dos Romeiros de São Miguel.

Constituído como movimento diocesano desde 2003, as Romarias Quaresmais remontam ao Século XVI (ano 1522), tendo como fundamento a oração, a penitência, a alegria e responsabilização fraterna nas relações sociais e cívicas, subjacentes ao itinerário cristão, tendo sempre como horizonte “o esforço para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária”.

Na pastoral liturgica, na catequética, na familiar ou na social, os movimentos diocesanos apresentam alguma pujança, sobretudo nas duas ilhas maiores- São Miguel e Terceira. Mas todos eles são marcados por um progressivo envelhecimento.

“É o maior desafio diocesano: conseguir injetar sangue novo em todos os movimentos”, diz Nelson Gonçalves nomeado recentemente para dirigir o Movimento da Mensagem de Fátima, nos Açores.

“Estamos ainda a apalpar terreno, por assim dizer, mas este movimento, por exemplo, precisa muito de ser rejuvenescido. Além da idade, as pessoas estão cansadas porque são sempre os mesmos a fazer tudo”, diz Nelson Gonçalves.

“Talvez agora que vamos entrar no Ano Santo da Misericórdia, utilizando a simbologia deste ano e também conjugando isso com a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, possamos dar esse passo”, acrescenta.

“Todos os movimentos da Igreja podem fazer a diferença. O da Mensagem de Fátima tem grande potencial porque a mensagem é muito atual, mas precisa de mais gente, sobretudo mais nova, que esteja disponível para assumir o compromisso”, diz ainda o responsável que “acredita que as mudanças na diocese podem ser uma alavanca para isso”.

“Sou um otimista por natureza e tenho esperança que o novo Bispo, juntamente com D. António de Sousa Braga, caminhem no sentido de dar mais vida ainda à diocese”.

“É um momento de graça; todas as mudanças são benvindas; o antes era bom mas também é preciso mudar”, diz Nelson Gonçalves no que é secundado por Benvinda Borges.

“Foram 20 anos de muita proximidade, com grandes alterações e esse caminho está trilhado e é irreversível”, diz a dirigente do MCC.

“A ação da igreja é fundamental na nossa vida social; acredito que o novo bispo vá dar continuidade ao trabalho iniciado por D. António de Sousa Braga e acho que nós nem vamos dar por isso, no sentido que é uma transição suave”.

“As declarações do novo prelado indiciam que é uma pessoa que vai tentar enraizar-se, ser um de nós; por isso nada leva a crer que o caminho percorrido até agora seja abandonado”, conclui Benvinda Borges.

Também Ildebaerto Piques Garcia fala dos novos tempos que se avizinham para ressalvar o gesto simbólico do novo prelado, na primeira deslocação à Diocese.

“A primeira Eucaristia a que presidiu foi no Seminário. Esteve muito bem porque é a primeira instituição da Diocese. Fiquei muito contente. É um homem novo que vai ter tempo para ser um bom bispo”, disse ainda sem deixar de elogiar as mudanças operadas pelo atual Bispo de Angra, “um homem muito próximo do seu rebanho” e “simples”.

“Oxalá os padres tenham a consciência do respeito necessário e a obediência devida em relação ao seu bispo e os leigos têm que se capacitar que têm de assumir compromissos e… obrigações, compreendendo que o nosso dever é sermos aliados uns dos outros para construirmos uma igreja melhor”.