A “Casa Mimosa” celebra 153 anos a 9 de novembro

Apresenta-se e é considerado o “coração da diocese”, o Seminário Episcopal de Angra completa 153 anos no próximo dia 9 de novembro, um dia depois da Diocese celebrar o Dia da Igreja Diocesana.

Fundado em 1862, por aqui passaram praticamente todos os sacerdotes açorianos que servem hoje na diocese. Só no atual episcopado foram ordenados a partir desta casa 54 novos sacerdotes, estando já agendada a próxima ordenação em janeiro, do diácono Gaspar Pimentel, natural de São Miguel.

Aliás, é desta ilha a esmagadora maioria dos 14 seminaristas que neste momento se encontra na Casa a receber formação, do primeiro ao sexto ano, assente em quatro pilares: intelectual, espiritual, humano e pastoral.

“Eu resumiria o Seminário em três palavras: uma casa, uma família, e uma escola”, sublinha Pedro Lima, do Faial, o único aluno do sexto ano.

“Enquanto escola corresponde áquilo que é a formação teológica para futuros padres. Podíamos pedir uma abertura maior ao mundo e aos dias de hoje, mas aqui temos uma boa formação a nível doutrinal, teológico e pastoral” ressalva o seminarista lembrando “que é sempre possível fazer melhor, mas o que está a ser feito está a ser bem feito”.

É também por aqui que vai Jacob Vasconcelos, natural das Flores. Frequenta o 5º ano mas já está há oito no Seminário, tendo completado o secundário numa escola de Angra. Aliás, o acolhimento de rapazes mais jovens, no início do ensino secundário, de forma a “que possam ser acompanhados espiritualmente mais cedo” é uma das novidades que o Seminário vai incrementar, a partir do próximo ano letivo.

“O Seminário é o elemento fulcral daquilo que tem sido a minha caminhada vocacional; aqui cresci espiritualmente e sobretudo aprendi a Ser”, sublinha o seminarista que ressalva a aprendizagem humana como “essencial” nesta casa.

“Aqui aprendemos a respeitar a diferença e a enriquecermo-nos com ela o que será muito importante para quando partirmos para outras comunidades e se não o aprendermos aqui,  dificilmente o aprenderemos noutro lugar”.

A formação humana “é muito importante”, diz o Vice Reitor, Pe Ricardo Henriques.

“Antes de sermos sacerdotes somos homens e a formação humana faz parte da nossa identidade para um são relacionamento. Todos fazemos parte da ordem; há uma identidade ontológica e a nossa obrigação é criar esta mentalidade junto daqueles que se preparam para o sacerdócio”, refere.

“Embora seja necessária uma bagagem científica, cultural e teológica muito grande, o nosso principal objetivo tem que ser formar pastores; esta é a nossa prioridade”, refere por outro lado o Pe Júlio Rocha, prefeito de estudos da instituição e um dos quatro elementos da equipa formadora.

“O Seminário é o coração da diocese; é importante reafirmarmos isto mesmo que estejamos numa fase menos boa ou mais crítica da história desta casa, que nem sequer é exclusiva dos Açores”, lembra o professor de Teologia Moral afirmando que “sem o Seminário a diocese fica sem o seu órgão vital”.

“Naturalmente que é preciso apostar nas vocações” mas isso “não é apenas uma tarefa do Seminário; começa na família porque a questão do número dos seminaristas diz respeito a todos”, adianta ainda o sacerdote.

“É óbvio que são necessárias mais algumas exigências académicas mas precisamos do apoio de todos na construção e dignificação desta Casa que já foi, durante três décadas, o ponto mais alto da cultura e da fé nos Açores”, remata o Pe Júlio Rocha.

Por aqui passou muito do pulsar da vida intelectual açoriana. Na ausência de uma universidade, o Seminário foi a instituição mais pujante ao longo da história do século XX. Aqui se forjou , por exemplo, o Instituto Açoriano de Cultura , de onde partiram as Semanas de Estudo, que na década de 60, pensaram os Açores de hoje.

Aliás, um papel reconhecido por todos. Por ocasião dos seus 150 anos, a instituição foi distinguida com a atribuição da Comenda da Ordem de Mérito pelo Presidente da República e com a Medalha de Ouro do Município de Ponta Delgada, para além do Diploma de Mérito da Câmara de Angra do Heroísmo.

“É, antes de mais uma escola de formação de sacerdotes, mas foi aqui que aprendi muito da minha vida, do meu ser, do meu estar como padre nesta igreja” diz o Pe Gregório Rocha, Diretor Espiritual do Seminário.

“Esta continua a ser a nossa preocupação: que a casa corresponda aos objetivos da igreja e prepare pastores para o povo de Deus, com a massa humana que temos e sempre atentos aos sinais do mundo, que nos colocam desafios diferentes todos os dias”, adianta ainda o sacerdote.

“Hoje, é claro, temos um desafio diferente que há uns anos atrás não se verificava porque tínhamos um seminário menor e aí fazíamos uma caminhada de discernimento. Os jovens já vêm com a personalidade formada o que nos obriga a outro tipo de respostas e se calhar a mais qualquer coisa”, refere o Pe Gregório Rocha.

A questão que se coloca hoje é “justamente essa e é transversal a todas as instituições: se estamos a corresponder aquilo que são as necessidades de formação que se precisa para os pastores hoje”, questiona por outro lado.

O Seminário “é a instituição mais importante da diocese e como tal tem um papel fundamental na formação dos líderes da nossa diocese” destaca o Reitor que reconhece que “aqui aprendem-se as bases”.

“A formação pastoral, aqui como noutros lados, nunca é completa. Sedimentamos bases, mas depois cada um tem que trabalhar e tem que aprofundar e completar sempre a sua formação”, refere por outro lado, o Pe Hélder Miranda Alexandre, um dos reitores mais jovens de sempre na história do Seminário.

Doutorado em Direito Canónico, pela Gregoriana, o sacerdote é também o responsável pela Pastoral Vocacional e frisa que apesar “de algumas dificuldades e limitações”, devido à proximidade “estamos em vantagem em relação a outras realidades e o trabalho feito aqui dentro é muito sério”.

“Creio que esta casa, dentro das suas possibilidades, tem procurado corresponder a essa necessidade de formação integral, numa atitude de fidelidade a Cristo e ao Evangelho, de fidelidade às orientações da Igreja universal e local e atentos sempre aos sinais do nosso tempo, tendo em conta as angústias e as preocupações das pessoas”, diz o Pe Jaime Silveira, professor de filosofia.

As Ciências Sociais e humanas genericamente, a Filosofia e a Teologia, em particular, a par da Sagrada Escritura, são disciplinas basilares da formação dos futuros sacerdotes que quando entram são obrigados a fazer um ano zero.

Jorge Pinheiro de Sousa, de São Miguel, é um dos alunos mais velhos do Seminário. Entrou com 31 anos já depois de ter leccionado no Pico e de ter frequentado a Universidade dos Açores.

“Aprender a lidar com gente mais nova, enfrentando o tal conflito de gerações tem sido uma enorme aprendizagem”, diz o seminarista que sublinha “a caminhada de discernimento vocacional” que iniciou no ano passado, quando entrou para a casa.

“É a minha casa e nisso sou um privilegiado porque estudo em casa. Há uma proximidade aos professores e isso é muito bom, embora gostasse que pudéssemos fazer mais trabalho de investigação. Isso enriquecer-nos-ia do ponto de vista intelectual”, adianta.

Nelson Pereira é o único seminarista da Terceira, frequenta o 5º ano e também aponta a necessidade do reforço da componente prática.

“As duas vertentes- teórica e prática- complementam-se mas se calhar era preciso reforçar a segunda”, refere o jovem organista da Sé de Angra.

“Esta é a melhor escola para aprendermos a viver e a ser comunidade”, destaca ainda, no que é acompanhado por António Santos, de São Miguel. Aluno do primeiro ano fala do “crescimento humano e espiritual” que o Seminário proporciona “que noutro sítio não conseguiria” mas isso “também depende muito do nosso coração e da disponibilidade que temos para os outros”.

Numa coisa todos estão de acordo. O Seminário “marca todos os que por aqui passam independentemente de chegarem ao fim da meta”, diz Aurélio Sousa, aluno do 2º ano, que juntamente com Igor Oliveira e João Farias, de São Miguel, salientam a importância “dos desafios colocados pelo Seminário”, diariamente. Sobretudo nas relações interpessoais.

“Temos de aprender a viver uns com os outros e isso nem sempre é fácil”, destaca por sua vez Humberto Farias, do 1º ano.

“Jesus não nos dá um caminho fácil. Na nossa caminhada há pedras e obstáculos, mas é isso que nos ajuda a crescer humana e espiritualmente”, salienta João Silva, também de São Miguel a frequentar o primeiro ano, mas “o clima é muito favorável”.

“Aprendemos a ser homens de Deus” refere Pedro Carvalho, do 2º ano. Já Sandro Costa, também do mesmo ano, acentua o investimento na formação “para sermos homens novos, libertos de preconceitos”.

Fundado a 9 de Novembro de 1862, o Seminário de Angra conta atualmente com 14 seminaristas e 12 docentes. Possui um agrupamento de escuteiros- o 114-, uma conferência vicentina- a mais jovem da Terceira- e participa em várias atividades culturais e eventos culturais da cidade de Angra.

(Com Nuno Pacheco de Sousa, seminarista)