O IA ouviu os responsáveis eclesiásticos mais velho e mais novo da diocese

Estão em ilhas distantes, separados por um enorme oceano, com 42 anos de idade de diferença, mas a consciência de igreja aproxima o ouvidor mais velho e o ouvidor mais novo da diocese de Angra, nos desafios que se colocam hoje à igreja dos Açores.

O Pe António Cassiano é ouvidor de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel; tem 72 anos e há 49 que é sacerdote; o Pe Ruben Sousa é ouvidor nas Flores; tem 30 anos e foi ordenado há seis.

Além de paroquiarem em ilhas diferentes, com realidades eclesiásticas diversas, ambos consideram que a diocese atravessa um “momento de mudança”, que deve ser aproveitado para “renovar o compromisso da missão”.

“A Semana da Diocese deste ano será celebrada num contexto muito especial e interessante, qual é o da eminente passagem de testemunho de D. António para D. João. Por isso, é uma oportunidade particularmente favorável para se fazer a revisão de um tempo que foi e, com pés e olhos postos na nua e crua realidade da Igreja diocesana de hoje, a projeção do tempo que aí vem”, sublinha o ouvidor de Vila Franca do Campo, antiga capital da ilha de São Miguel.

“Em meu entender estamos a observar nos nossos dias uma grande mudança da Igreja”, diz por seu lado o ouvidor das Flores que nota “como que um despertar da Igreja, que nos dá alegria e entusiamo para continuarmos a nossa missão”, apesar “de vivemos num tempo difícil, fortemente secularizado, hostil à Igreja, onde muitas pessoas estão a perder a sua identidade cristã e o seu sentido de pertença à Igreja, surgindo no nosso tempo grandes desafios para a Igreja”.

Questionados sobre as prioridades, ambos voltam a coincidir.

“No futuro próximo, teremos de continuar a aposta na pastoral em saída, para e com as periferias”, destaca o Pe António Cassiano frisando que essa Pastoral “só terá pernas para andar se, ao mesmo tempo, houver formação bem estruturada para todos, das crianças da catequese aos padres, passando pelo Seminário, pelos catequistas e pelas famílias”.

“Do meu ponto de vista é necessário promover uma pastoral de integração, que ajude as pessoas a participar na vida da comunidade, que leve à encarnação do Evangelho e que ensine os cristãos a unir a vida com a fé. Para tal é urgente criar um espírito de abertura, acolhimento, proximidade, entreajuda, comunhão e serviço, que muitas vezes falta nas nossas comunidades”, refere por outro lado o Pe Ruben Sousa.

“Hoje mais do que nunca temos que anunciar que na Igreja há lugar para todos, que todos são bem-vindos e importantes na construção de uma Igreja mais viva, dinâmica e completa”, precisa lembrando que a Igreja é uma comunidade cuja saúde “depende de todos, da variedade dos seus dons, carismas e serviços”.

“Convocar, propor, convidar, receber e escutar”, são por isso verbos que no entender de ambos os ouvidores são “indispensáveis” para os novos tempos, independentemente da ilha em causa.

Numa diocese dispersa do ponto de vista geográfico, com enormes assimetrias e, nalguns casos, envelhecida, também a Igreja “precisa de renovação” e, sobretudo, de “formação”.

“A formação humana e espiritual é essencial para o despertar do cristão”, diz o Pe Ruben Sousa que realça a necessidade de “apostar em vários retiros e formações de acordo com cada faixa etária e sectores da pastoral, para catequizandos e adultos, com vista a um maior crecimento espirtual e formação religiosa”.

O eclesiástico das Flores, que juntamente com mais dois jovens sacerdotes administra in solidum 10 paróquias, tem, de resto, um programa pastoral vasto de onde se destacam o retiro de preparação para a Primeira Comunhão do terceiro ano de catequese, “Vem descobrir um tesouro”, o retiro de preparação para a profissão de fé do sexto ano de catequese “Fortes na fé”, o retiro para jovens “Follow Me”, o retiro de acólitos “Servir com alegria”, o retiro da quaresma para adultos, os encontros de formação para leitores, para além do grupo de Jovens “que queremos dinamizar” e dos “doentes e todos aqueles que precisam da nossa atenção”.

De olhos postos no futuro não deixam, no entanto, de rever o passado, sobretudo os últimos 20 anos marcados por um episcopado de “grande proximidade”.

“Os quase 20 anos do episcopado de D. António valeram, sobretudo, por duas coisas: a implementação generalizada dos Conselhos Pastorais, ainda que o de topo, o “diocesano”, nunca tenha sido suficientemente valorizado, e um maior respeito pela religiosidade popular, cada vez mais reconhecida como parte integrante da pastoral da Igreja”, destaca o Pe António Cassiano que não deixa no entanto de sublinhar alguns outros aspetos menos positivos.

“A área mais deficitária foi, a meu ver, a formação sacerdotal, por se ter resumido a iniciativas avulso e, se calhar, também, por sermos um clero que não se deixa formar”, lamenta o sacerdote.

A Diocese de Angra tem 16 ouvidorias e 165 paróquias; foi criada em 1534 pela Bula Aequum Reputamos promulgada pelo Papa Paulo III e vive, neste ano a celebração do seu 481º aniversário, marcado pela chegada de um novo Bispo Coadjutor, D. João Lavrador.