Por Renato Moura

Na última partilha instei os políticos a terem um papel activo na busca de urgentes soluções para os problemas da perda do famigerado porto das Flores. Podem tentar proteger-se: pois a culpa originária foi dos “outros”; quem governa não pode fazer tudo; as coisas não se resolvem num instante. Mas temos um governo de maioria absoluta. Há dias a Igreja propunha à nossa reflexão a passagem do Evangelho: “A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá” Lc 12,48.

Mas sendo as pessoas os beneficiários do bem-estar pessoal e do desenvolvimento social e económico, devem ser os primeiros agentes a assumir as respectivas obrigações, inventariando problemas, sugerindo e propondo soluções, exigindo e responsabilizando: fazendo com que os poderes públicos se mexam. Sem nunca desistir, nunca se conformando, mesmo quando lhes parece que já não vale a pena apresentar problemas aos deputados, por eles nada fazerem! Sem cidadãos exigentes, não há bons políticos. Não apenas nas Flores, mas em todo o território.

Bem ensinou o Papa Francisco que a política “não é serva de ambições individuais, de prepotência de facções e de centros de interesses. Como serviço nem sequer é dona, pretendendo regular todas as dimensões da vida das pessoas, recorrendo até a formas de autocracia e totalitarismo”. Como seria bom se este conceito fosse norma dos poderes e linha vermelha para limitar as ambições dos cidadãos, que frequentemente se transformam em pressões e “contratos” imorais.

Nunca deveria estar ausente o sentimento de bem comum. Repudiando atitudes como de alguém que, nas minhas barbas, reclamava de uma Câmara ter reparado mal uma estrada e feito correr água da valeta para o seu pátio; mas que, questionado sobre a alternativa, sugeria que a inclinação fosse para o lado inverso, apesar de bem saber que ficaria a correr para o pátio do vizinho da frente!

A Igreja tem o dever de, através das suas instituições e órgãos, e por acção dos cristãos, contribuir para a assunção dos deveres de cidadania e formação de uma consciência recta, tendo em vista designadamente o bem comum, que deveria ser sempre a razão de ser de toda a actividade política.

Todos tem uma dose de autoridade: quando são votados e quando votam.

“Estás investido em autoridade? Sê Santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” é uma bela citação por altura da comemoração de Todos os Santos, retirada da Exortação Apostólica «Gaudete et Exsultate, 14, do Santo Padre Francisco.