Teólogo proferiu conferência sobre a Resposta da Igreja à temática “Família: medo ou esperança”, um ciclo de conferências promovido pela ouvidoria da Praia

A resposta da Igreja a um mundo em mudança, nomeadamente no que toca à família e aos seus modelos, deve ser dada em chave de “misericórdia” disse esta noite o Teólogo Moralista, Pe. José Júlio Rocha, no segundo dia do ciclo de conferências “Família: medo ou esperança”, promovido pela ouvidoria da Praia da Vitória.

“O mundo está a mudar a uma velocidade que não conseguíamos imaginar, alterando mentalidades e formas de viver” afirmou o sacerdote que centrou a sua análise na resposta que a Igreja tem para o mundo atual em matéria de família e para as problemáticas novas que surgem nomeadamente ao nível da sexualidade, ao nível dos recasados ou das uniões entre pessoas do mesmo sexo, “acompanhando o mundo de hoje mas mantendo-se sempre fiel ao Evangelho, sem perder o seu sentido”.

Socorrendo-se da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, conhecida como “Hino da Caridade” e da exortação Apostólica do Papa Francisco Amoris Laetitia, o sacerdote que é professor de Teologia Moral no Seminário Episcopal de Angra, enalteceu os valores do “Amor”, da “Liberdade” e da “Misericórdia” como base de todas as respostas que a Igreja possa dar às famílias em geral e a cada família em particular.

“Quando falamos em crise da família do que estamos a falar?” interpelou lembrando que a família “está em crise há muitos anos” porque as causas dessa crise são históricas, antropológicas, sociais e comportamentais. A violência doméstica, a falta de respeito, a pobreza, a exclusão social, o desemprego, a incapacidade para gerir os bens comuns, o egoísmo ou a infantilidade “são causas estruturais da crise das famílias”, adiantou ainda o sacerdote.

“Há muitos divórcios, há muitas uniões de facto, há muitos abortos, há muita incapacidade de educar os filhos, há muita infantilidade… e muitas coisas mais existem nos nossos dias, mas as causas da crise das famílias estão no egoísmo e na infantilidade, dois inimigos do amor” a que acrescem a “incapacidade de desenraizamento, a violência doméstica a pobreza, a exclusão e o desemprego, a que se associa uma pobreza psicológica” precisou o Pe. José Júlio Rocha.

Por isso, “o que habitualmente dizemos que são fatores de crise da família, são consequências de uma crise que se vem arrastando ao longo do tempo” e a consequência limite é o divórcio.

O sacerdote lembrou a doutrina- o matrimónio é uno e indissolúvel- mas também sublinhou o aumento do número de casais recasados. A partir da exortação pós sinodal Amoris Laetitia, destacou a importância da Igreja ter uma atitude pastoral de acolhimento destes novos casais que “querem verdadeiramente continuar a ser cristãos e a ter acesso aos sacramentos” .

Acompanhando o referido documento, o sacerdote, a partir das palavras escritas pelo próprio Papa Francisco, defendeu “gestos concretos” de acolhimento e de integração desta nova realidade que marca a família.

“Quase metade dos cristãos da nossa ilha está casada em segundas núpcias; a percentagem dos que vivem em união de facto é muito grande e fechar a porta da Igreja a essa gente vai contra a missão de Jesus Cristo que morreu na cruz para salvar todas as vidas”, disse.

“Há normas para discernir, e cada caso é um caso. Não vamos fechar as portas do Céu”, concluiu frisando sempre que a comunhão é o ato mais importante na vida de um cristão e por isso a preparação é fundamental, exigindo do próprio uma consciência de que está efetivamente em condições e da parte da Igreja um acompanhamento dessas pessoas, fazendo com elas um caminho de discernimento.

Durante a conferência, o sacerdote abordou ainda a questão das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

“A homossexualidade é uma condição em que a pessoa vive e nessa condição qualquer pessoa deve ser respeitada”, no entanto, a “igreja não pode celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo”, adiantou o sacerdote, lembrando que há uma condição (entre três) exigida no sacramento do matrimónio que não poderá ser observada por casais homossexuais que é a procriação. Mas isso não quer dizer “que os devamos excluir”, disse ainda o sacerdote.

“Devemos acompanhar todas as pessoas sempre e em qualquer circunstância enquanto cristãos”, rematou deixando no final um desafio: que as famílias rezem mais em conjunto.

“A oração em família é uma das coisas que mais falta faz às famílias: que os pais e os avós eduquem para a fé ensinando  aos filhos a rezar e, sobretudo, a gostar de Jesus, mostrando como Ele é bom e misericordioso”.

Esta noite o salão do Centro Pastoral das Fontinhas volta a abrir-se para ouvir Frei Bento Domingues falar sobre “A beleza evangélica do amor e da família”, uma conferência que será moderada pelo Pe. Cipriano Pacheco.

As conferências do Ramo Grande começaram na segunda feira com Piedade Lalanda e Leticia Leal e terminam esta quarta feira, numa iniciativa de formação da Escola Cristã da Ouvidoria da Praia da Vitória.

(Com Francisco Machado)