Pe. Júlio Rocha comenta mensagem do Papa para o 53º Dia Mundial da Paz que se assinala no próximo dia 1 de janeiro

A conversão ecológica a que apela a mensagem do Papa Francisco para o 53º Dia Mundial da Paz não é uma questão de esquerda ou de direita mas de “conversão individual” afirma o assistente diocesano da Comissão Justiça e Paz da diocese de Angra, Pe. Júlio Rocha, numa entrevista ao programa de Rádio Igreja Açores que vai para o ar este domingo, dia 29, a partir do meio dia na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra.

O sacerdote, que entre outros assuntos faz uma leitura da mensagem do Papa Francisco para o próximo dia 1 de janeiro, lembra como a ecologia é um dos aspetos centrais deste pontificado não apenas no que diz respeito ao ambiente mas também no que concerne a uma ecologia integral, que passa pela conversão de cada um.

“A conversão ecológica não é um tema de esquerda ou de direita. É claro que são os partidos ideologicamente mais à esquerda que o têm na sua agenda; depois há o fenómeno Greta, mas a questão ambiental é uma questão de conversão individual, de cada um: antes dos países são os nossos comportamentos e é preciso termos presente, por exemplo, que há duas ilhas no Pacífico do tamanho da frança, por causa do plástico” afirma o sacerdote.

“O Papa insiste na conversão ecológica, mas numa perspetiva de uma ecologia integral que não tem a ver só com a poluição, que passa pela questão da pobreza e da riqueza. É preciso mudar comportamentos”, acrescenta.

O Pe. Júlio Rocha, que é professor de Doutrina Social da Igreja no Seminário de Angra, afirma que o mundo “não está no bom caminho” e quando se afirma que o mundo evoluiu muito “é porque estamos apenas a olhar para o mundo desenvolvido” adianta ainda.

No que respeita à questão ecológica, muito mencionada na mensagem do Papa para o próximo Dia Mundial da Paz, o Pe. Júlio Rocha afirma que “ não precisamos entrar em histeria mas também não temos necessidade de ficar de braços cruzados. Hoje, se calhar, já é tarde para agirmos e quem nega as alterações climáticas não vive neste mundo. E, acreditar que os homens não têm influência na destruição do meio ambiente é como acreditar no Pai Natal, com uma consequência grande: a destruição do futuro dos nossos filhos” esclarece lembrando que se tem gasto muito em armamento e em energia nuclear, por exemplo e pouco na luta contra as desigualdades entre países ricos e países pobres, “quase sempre vitimas da exploração”.

“A mensagem do Papa fala da importância do diálogo e da reconciliação mas a verdade é que há povos inteiros que não se conseguem libertar-se “ afirma o sacerdote sublinhando que a mensagem do Papa está muito marcada pela sua  experiência na recente visita ao Japão, onde contactou de perto com as vitimas da opção nuclear.

“É importante que tenhamos memória e no que respeita à paz, por vezes, ela vai-se apagando” refere.

“A paz sozinha não é suficiente; é preciso recordar os males da guerra. Tal como a Democracia que não é uma garantia em si mesma”. Daí, prossegue, que o Papa fale tanto em esperança.

“O papa alerta para a capacidade de perdão, solidariedade, esperança e da fraternidade universais, que são da responsabilidade das pessoas que elegemos para evitarem o mal. Não votamos em pessoas para fazerem a guerra e hoje vivemos tensões mundiais em vários pontos do Globo, dos EUA à China, passando pelas Coreias ou pela Rússia ou pelo Brasil, onde se defende a Paz com a ameaça e com o medo”.

“Se olharmos bem o mundo está pejado de ameaça ; ainda temos energia nuclear para dar cabo de mais de 10 planetas Terra; o dinheiro que se gastou em tecnologia nuclear e de ponta dava para alimentar duas vezes as pessoas que têm fome no mundo. Isto é um absurdo” conclui o sacerdote na entrevista que vai para o ar neste último domingo do ano.

Recorde-se que na quarta-feira, dia 1 de janeiro se assinala o 53º Dia Mundial da Paz.

Para a ocasião o Papa Francisco escreveu uma mensagem onde apela à conversão ecológica como o caminho mais adequado para garantir a paz.

“Vendo as consequências da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da exploração abusiva dos recursos naturais – considerados como instrumentos úteis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza –, precisamos duma conversão ecológica”, refere o texto, intitulado ‘A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica’.

Francisco denuncia a “exploração abusiva dos recursos naturais”, defendendo uma nova perspetiva sobre a vida, que promova a “sobriedade da partilha”.

Em causa, assinala o texto, estão as gerações futuras, que exigem “a participação responsável e diligente de cada um” na gestão dos recursos naturais.

“De modo particular brotam daqui motivações profundas e um novo modo de habitar na casa comum, de convivermos uns e outros com as próprias diversidades, de celebrar e respeitar a vida recebida e partilhada, de nos preocuparmos com condições e modelos de sociedade que favoreçam o desabrochar e a permanência da vida no futuro, de desenvolver o bem comum de toda a família humana”, afirma.

A mensagem papal sustenta que esta conversão deve ser entendida de “maneira integral”, como uma transformação das relações entre pessoas, com os outros seres vivos, com a natureza e com Deus, “origem de toda a vida”, valorizando “o encontro com o outro e a receção do dom da criação, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Artífice”.

Francisco recordo o Sínodo especial sobre a Amazónia, propondo uma ação reforçada “em prol duma relação pacífica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a memória, entre as experiências e as esperanças”.

“Este caminho de reconciliação inclui também escuta e contemplação do mundo que nos foi dado por Deus, para fazermos dele a nossa casa comum”, acrescenta.

A mensagem para o Dia Mundial da Paz 2020 cita a encíclica ‘Laudato Si’ (2015), sobre a ecologia integral, para admitir que nem sempre as religiões cumpriram o seu papel neste campo.

Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos guardar”.

O Dia Mundial da Paz foi instituído em 1968 pelo Papa Paulo VI (1897-1978) e é celebrado no primeiro dia do novo ano.