Por Carmo Rodeia

Vivemos tempos estranhos. Na região, no país e na Europa.

Por cá, parece que estamos todos meio anestesiados, entre o que nada acontece e o pouco que vai acontecendo.

No país brinca-se à política, com meias palavras e meias verdades até que caia o pano e se perceba que, afinal, não se pode mentir a toda a gente durante todo o tempo.

Lá de fora, este fim de semana surgiram mais notícias de naufrágios no mar Egeu. Crianças e bébés morreram quando tentavam chegar à Grécia, vindas da Síria. Voltámos a comover-nos. E vamos fazê-lo mais vezes porque a crise não vai acabar tão cedo, porque uma resposta comum tarda a aparecer e os conflitos no Médio Oriente e em África, a começar pela Síria, estão, por outro lado, longe de uma solução de paz.

Os refugiados continuarão a tentar a sua sorte, inventando novos caminhos. Esta vaga imparável ganha uma nova dimensão. Até na compaixão e na solidariedade com que os Europeus receberam os primeiros refugiados. Hoje esses sentimentos mais genuínos deram lugar ao medo.

A questão dos refugiados- Portugal vai acolher uma segunda leva na próxima semana vinda da Síria e da Eriteia, fora ainda da cota dos 4500 que a Europa estipulou- fez-me pensar na diferença entre medo e angústia, porque são dois sentimentos muito frequentes.

No essencial, significam a mesma coisa. Aliás, se formos ao dicionário a angustia é definida como ansiedade e o medo como o receio de uma situação real, de um perigo. E o medo provoca ansiedade, logo provoca angústia.

Sendo quase sinónimos não deixam de significar coisas muito diferentes, em cada etapa da nossa vida.

O verso 4 do Salmo 23: “De nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A Tua vara e o Teu cajado dão-me confiança” vem-me muitas vezes à cabeça. E ele remete-nos justamente para esta dualidade associada a estas duas palavras que sendo quase sinónimas não deixam de ser intrinsecamente diferentes.

O medo pressupõe sempre um objeto. E quando ele é ultrapassado- um perigo, uma dor -, desaparece, como que se esvai. A angústia não. É um sentimento mais pessoal, que nos conduz a uma agitação permanente, que aumenta na justa medida em que se nos é exigido este ou aquele desempenho; esta ou aquela tarefa. E neste aspeto, a vida não perdoa. Exige sempre mais e mais de nós. Com golpes e contragolpes. Uns a seguir aos outros. Com uns e outros de olhos postos em nós a fazerem-nos vacilar entre a alegria e a confiança, a tristeza e o desespero.

E, no interior de nós mesmos, quantas vezes em silêncio perguntamos: o que será de mim? Estarei à altura? Ou serei uma desilusão?

É nesta altura que vêm, em jeito de conforto , as sábias palavras do Salmo 23, porque a confiança também é um caminho.

Há uma música, com uma letra fantástica escrita pelo Sérgio Godinho para o filme “Kilas, o Mau da fita”, um dos mais populares do falecido José Fonseca e Costa, que diz mais ou menos assim “Disseram-me um dia, Rita põe-te em guarda/ a vida é dura, poe-te em guarda/ e eu disse adeus à desdita e lancei mãos à aventura”.

É isso que nos falta às vezes: pormo-nos em guarda, mas sempre disponíveis para a aventura. É “um pôr em guarda” de alerta e sobretudo de grande confiança e esperança, porque o “Senhor é o meu Pastor e nada me faltará”. Acho que temos ( eu pelo menos tenho!) de me lembrar disto mais vezes.

PS- A Diocese de Angra está de parabéns. Celebra o 481º aniversário com uma graça: dois bispos. São os líderes deste enorme povo de Deus. Cumprimentá-los é cumprimentar toda a Igreja Diocesana dos Açores. Ao Senhor D. António fica uma enorme gratidão, do tamanho de uma vida; ao Senhor D. João votos de um profícuo episcopado. Ser-se açoriano não é uma questão de nascimento mas de vontade, de compreensão e de atitude. Primeiro estranha-se e estranham-nos. Depois “entranhamo-nos”… é apenas uma questão de tempo e de disponibilidade.