Por Monsenhor António Manuel Saldanha*

Viveram os Santos em circunstâncias dramáticas ou procuraram-nas para fazer a diferença propondo as respostas do Evangelho. Graças a este tipo de pessoas, e como gosto de recordar, se humanizou o direito romano, nasceram os primeiros hospitais do mundo em Bizâncio e os primeiros no Ocidente chamar-se-iam “Hôtel de Dieu”. Para ser breve, a ladainha de iniciativas de bem que promoveram é longa, de sorte que eles podem ser considerados os principais beneméritos da humanidade.

Os Santos foram capazes de viver com esperança e saúde espiritual fora do comum. Atravessaram em pleno todas as tempestades porque passou e passa a “Barca de Pedro” e tiveram que dar testemunho de Cristo em todo o tipo de contexto e ambientes culturais.

Não conheço terreno onde tenha sido lançada a semente do Evangelho sem que o sangue dos mártires fosse derramado. Onde nasceram fontes de água do batismo para os neófitos, houve quase invariavelmente, holocausto de missionários, de sacerdotes e de catequistas.

Não existem contextos fáceis para o cristianismo. Nunca existiu. Como nunca houve para a Humanidade uma “Idade de Ouro” como a canta Hesíodo.

Mesmo no reino do Mal absoluto, como foi Auschwitz-Birkenau, os Santos puderam testemunhar Cristo, como muitos outros que sem qualquer póstumo reconhecimento canónico e sem fé em Cristo, viveram ali os mais elevados valores do humanismo. Não por acaso, as metas de “Utopia” de São Tomás More, porque enraizadas no cristianismo, vão mais longe que a República idealizada por Platão e inspirarão diversas correntes políticas dos séculos XIX e XX.

Os Santos são uma constante lembrança de que a proposta de Cristo é concretizável independentemente dos contextos onde deve chegar a sua mensagem.

O seu culto e o reconhecimento da sua vida tiveram diferentes momentos na vida da Igreja.

Muitos dos que foram canonizados e aos quais gerações de cristãos confidenciaram aflições ou agradeceram graças e milagres tiveram as suas imagens visíveis nas igrejas e os seus símbolos eram facilmente reconhecíveis. Com a sua exposição a Igreja propunha galerias de homens e mulheres mestres nas melhores virtudes cristãs e humanas.

Hoje é um tempo em que os Santos não são propostos como modelo de vida como o foram no passado. Com o tempo, com mudanças de paradigmas e com a reta intenção de nos centralizarmos em Cristo, muitos foram condenados a um perpétuo (?) exílio dos nossos altares.

Paradoxalmente, querendo dar e bem, a justa centralidade a Jesus Cristo, ocultaram-se os que no tempo e na vida ordinária de cada dia, o tornaram visível e incarnado, com a sua fé e obras. Perderam-se de vista propostas concretas do Evangelho traduzido na carne e na vida dos homens e mulheres de cada época, a grande maioria dos quais ofereceu a vida por causas sociais cujos efeitos ainda hoje são visíveis.

Inegavelmente a lenda e a fantasia, o mito e a deriva para a pura superstição, tiveram a sua quota-parte de responsabilidade na neblina que os envolveu. O culto dos Santos tem sido por isso e sobretudo depois do Concilio Vaticano II, corrigido e purificado. Um novo rigor nas suas biografias históricas e na verificação de milagres tem sido promovido e contribuiu para que se conhecessem melhor os que foram para muitos quase só personagens lendárias e xamãs cristianizados.

Evitadas hipérboles e distorções, urge pois reequacionar a importância de reapresentar figuras esquecidas ou mesmo ignoradas que são contudo modelos e, não menos importante, intercessores junto de Deus.

Muitos Santos, sobretudo os nunca oficialmente canonizados, reúnem bem as condições para se constituírem, por assim dizer, numa espécie de grémio, que segundo a lógica das existentes, se poderia chamar de “Academia dos Esquecidos”. Um pouco como as que surgiram com o Renascimento e que eram, associações mais ou menos organizadas com fins culturais, científicos ou literários e sobretudo como lugares de tertúlias e de partilha de saberes. Algumas ainda hoje existem e com nomes bem curiosos – “Dos Encaminhados”, “ Dos Incógnitos”, “Dos Inflamados”, “Dos Insensatos”, “Dos Despertos”, “Dos Infecundos”, “Dos Transformados” – para citar apenas as mais famosas de Itália.

Estou certo e é indiscutível, que muitíssimos daqueles beneméritos da sociedade escolheram agir sem que o seu rosto, nome e história pessoal fossem conhecidos. Muitos viveram de modo notável o compromisso com o Evangelho e com a promoção de um integral humanismo em quase ou mesmo total, anonimato. Mas a Igreja que deles beneficia como os pulmões de oxigénio e a sociedade que com eles se regenera e cura muitas das suas feridas, talvez têm algum dever em salvar a sua memória.

Nos Açores está em curso a Causa da Serva de Deus Maria Vieira e as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres que se aproximam serão ocasião para recordar aos milhares de açorianos que acorrerão ao seu Santuário, quem foi Madre Teresa da Anunciada.

A celebração de uma beatificação nas nossas ilhas seria o melhor modo de celebrar os cinco séculos da criação da nossa diocese de Angra que acontecerá em 2034.

 

*Monsenhor António Manuel Saldanha é secretário na Congregação para as Causas dos Santos, no Vaticano e colaborador regular do Sítio Igreja Açores.