Presidente da Associação Bíblica Portuguesa proferiu conferência em Angra do Heroísmo

Só um amor configurado ao amor de Cristo pode servir o projeto de Deus afirmou esta noite, em Angra do Heroísmo, o Pe. Mário Sousa, presidente da Associação Bíblica Portuguesa numa conferência intitulada “Em Cristo e como Cristo: consagrados no Amor para servir, um enquadramento bíblico dos sacramentos da Ordem e do Matrimónio”.

O sacerdote algarvio que se deslocou aos Açores para orientar o retiro de Quaresma dos Seminaristas (que decorreu entre quinta feira e ontem) dissertou sobre o paralelismo entre dois sacramentos do serviço- Matrimónio e Ordem- para falar do amor que alicerça o projeto de Deus para a humanidade.

“Os sacramentos do serviço, quer o do matrimónio quer o da ordem, quer os diferentes ministérios que poderemos desenvolver para o crescimento do corpo, da esposa, da Igreja do Senhor ou acontecem neste dinamismo do amor ou então fogem do projeto de Deus e tornam-se num meio de realização pessoal, por vezes entrando em esquemas que nos destroem e destroem os outros” disse o sacerdote que falou no Seminário Episcopal de Angra perante mais de uma centena de participantes entre leigos, religiosos e sacerdotes.

“Como o marido e a mulher gastam a sua vida por amor um do outro, também o pastor- sacerdote- deve gastar a sua vida em favor das ovelhas, à imagem e semelhança de Jesus” precisou enfatizando que é a experiência do amor que Deus nos tem que faz com que tenhamos o desejo de, no nosso quotidiano, estendermos esse amor aos outros.

O sacerdote, que é professor no Instituto Superior de Teologia de Évora e pároco em Portimão, no Algarve, percorreu a Bíblia para fundamentar este amor nas suas mais variadas manifestações que tem sempre por detrás uma noção de serviço, numa configuração a Deus.

“O homem é obra do amor, destina-se ao amor e apenas quando ama encontra o sentido mais profundo do seu ser e da sua existência” afirmou o Pe. Mário Sousa.

O sacerdote, que se socorreu do livro do Génesis para falar da vocação universal e da vocação cristã do ser humano ser semelhante à Imagem de Deus, sublinhou a dimensão relacional como aquela onde esta semelhança se manifesta, tendo por base os primados da liberdade e da capacidade de amar.

“Deus é amor; o amor é a natureza e a essência de Deus. Por isso, o ser humano é imagem de Deus na medida em que, ao contrário de outros seres criados, só ele tem capacidade de amar e só quando ama e é amado se sente inteiramente realizado como pessoa” afirmou o sacerdote acentuando que este amor tem expressão no aspeto relacional.

“Por natureza o amor é dádiva que só existe na relação com um todo”, pois “um amor que não sai de si é egoísmo”, disse ainda.

“O homem é obra do amor, destina-se ao amor e apenas quando ama encontra o sentido mais profundo do seu ser e da sua existência”, explicitou.

Segundo o Pe. Mário Sousa a primeira expressão deste amor é a criação do Homem e da mulher, de cuja complementaridade relacional, assente na fidelidade, nasce uma nova vida, os filhos.

“Tal como o amor de Deus transbordou na criação do homem, também o amor entre um homem e uma mulher transborda e torna-se participante no ato criador de Deus”, afirmou.

“A família cristã encontra a sua razão de ser no amor de Deus” afirmou ainda lembrando que “o segredo e o nó do casamento cristão é a fidelidade no amor a entrega recíproca” que pressupõe não a satisfação do desejo pessoal de felicidade mas a felicidade que decorre da capacidade de fazer o outro feliz.

“Esta é a grande dificuldade que encontramos” advertiu.

Perante uma assembleia constituída por muitos casais, o Pe. Mário Sousa lembrou “quantas vezes num casamento marido e mulher andam a vida toda a tentar transformar-se à imagem e semelhança um do outro” para concluir que “ isto não é amor é antes uma tentativa de criar clones”.

O sacerdote prosseguiu fazendo o paralelismo entre a união do marido e da mulher e o amor de Cristo pela Igreja.

“Se no Genesis a relação familiar aparece como a grande vocação do ser humano para encontrar aquele ou aquela com quem forma uma só carne, que se manifesta até na dimensão sexual em que os corpos se fundem num só e se tornam geradores de vida, em Jesus esta vocação primeira é relativizada e posta em relação com uma outra, integrada numa união formadora de um só corpo, unido a Jesus e formando uma só família que agrega todos os que lhe pertencem”, salientou para concluir que “com Jesus mudam as relações familiares”. E dá como exemplo a família de Nazaré.

“A família que ambos estavam a construir é redimensionada pela presença de Jesus. A obediência de Maria e de José à palavra de Deus e a forma como enquadram o seu amor no amor que Deus lhes tem, manifesta a reformulação das relações familiares” esclarece o sacerdote afirmando que “a família de Nazaré pré anuncia uma nova e mais alargada família: a família construída por Jesus”, uma comunidade de discípulos que o segue, não por uma questão de sangue ou de família mas por uma verdadeira adesão à Sua Pessoa, que seguem, a quem “se confiam e entregam exclusivamente”.

“É no enquadramento cristológico da vida do discípulo que podemos entender o matrimónio e o sacramento da ordem” afirmou o sacerdote.

“A vida nova em Cristo reconfigura todas as coisas: se antes era a relação matrimonial humana que servia os profetas para falar simbolicamente do amor de Deus, agora é a relação do grande mistério do amor de Cristo pela Igreja que enquadra a vida das comunidades” pois a partir desta adesão a Jesus “tudo se vive e se enquadra Nele, o que tem como consequência viver como Ele. Isto não é uma doutrina; é uma reconfiguração da vida em todas as suas dimensões”, esclareceu.

O Pe. Mário Sousa é sacerdote da diocese do Algarve, servindo neste momento na paróquia de Portimão.

(Com André Furtado)