Por Carmo Rodeia

“Vem, Pai dos pobres; vem, Dador de graças; vem, Luz dos corações”. Assim diz a liturgia na solenidade do Pentecostes, cantando a glória do Espírito Santo e a plenitude dos seus dons.

Sem dúvida: o Espírito Santo consola-nos no sofrimento, afasta-nos do perigo, anima-nos na angústia e fortalece-nos na provação.

Quem vive ou convive com açorianos sabe disso. No Arquipélago a Terceira Pessoa da Trindade é celebrada intensamente.

À hora que escrevo vivo à distância o dia de bodo na ilha Terceira, e a segunda feira do Espírito Santo, dia da Região. Diz quem sabe que são, senão os mais importantes pelo menos dois dos mais importantes dias do ano, com o povo todo a partilhar a rua, sem olhar a quem e ao quê, se não de olhos postos na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. O povo açoriano e seus descendentes, espalhados pelo mundo, têm uma profunda devoção ao culto do Divino Espírito Santo.

A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo como Aquele «que é o Senhor que dá a vida» e proclama-O no Símbolo da Fé.

João Paulo II na Encíclica “Dominum et Vivificantem”, apresentada a 18 de Maio de 1986, afirma que “esta fé, professada ininterruptamente pela Igreja, precisa de ser incessantemente reavivada e aprofundada na consciência do Povo de Deus”.

Na correria do tempo, como poderemos edificar um novo Céu e uma nova Terra? Aquela que nos é inspirada pelo Espírito Santo?

Hoje, na nossa sociedade somos muito pragmáticos: fazemos ou deixamos de fazer coisas de acordo com aquilo que dita a lei.

A lei manda-nos ser justos, ser corretos uns com os outros. Mas nenhuma lei do mundo nos pede que nos amemos uns aos outros, porque o amor não é coisa de lei. Cai o respeito, cai a tolerância, cai a compreensão, cai a justiça no trato com os nossos semelhantes, mas o amor ninguém nos pode pedir. Ninguém nos pode ordenar o amor.

Lutamos pela liberdade, para sermos livres; lutamos pela igualdade de oportunidades e de direitos. Mas esquecemos-nos do ideal da fraternidade, talvez porque desistimos dele ou achamos que era inatingível. Ainda este domingo o Papa o lembrou. Contudo, Jesus dá-nos um mandamento nessa linha e um mandamento muito exigente: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.”  O paradigma deste amor é-nos dado pelo próprio exemplo de Cristo. E nós temos de aprender a amar como Ele amou, com aquela liberdade, com aquela gratuidade, com aquela capacidade de ser dom, com aquela disponibilidade para ir até ao fim, para dar tudo sem limites…a nós e aos outros. Nós temos de aprender esse amor, porque ele é a marca identitária de cada cristão. A lei pode não nos obrigar a ele, mas o coração obriga-nos.

Este é o grande desafio da nossa história, da do mundo e da pequena história de cada um de nós,  recebermos e fazermos deste amor o ponto de partida da nossa vida e acreditar que é aí que se joga a nossa felicidade.

Regresso uma vez mais (e sempre!) a José Tolentino de Mendonça e recupero um magnifico poema Da verdade do amor: “pouco importa em quantas derrotas /te lançou/as dores os naufrágios escondidos/com eles aprendeste a navegação/dos oceanos gelados/não se deve explicar demasiado cedo/atrás das coisas/o seu brilho cresce/sem rumor”.

Por este amor… por esta forma de amar, dou a minha vida.