Novo presidente da Conferência Vicentina de São Tomás de Aquino fala dos desafios dos vicentinos seminaristas

Foi eleito no sábado presidente da  Conferência de São Tomás de Aquino, com sede no Seminário de Angra e composta exclusivamente por jovens rapazes. Nuno Pacheco de Sousa, natural da Ribeirinha, no concelho da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, frequenta o segundo ano do sexénio. Defende o papel dos vicentinos; quer maior co-responsabilidade dos jovens em geral e dos seminaristas em particular em prol de uma pastoral social mais ativa e dinâmica que ultrapasse o mero assistencialismo e que vá ao encontro do outro.

 

Igreja Açores- Lidera a única Conferência jovem e masculina da ilha Terceira, e dos Açores. Que importância é que isso tem?

Nuno Pacheco de Sousa- Antes de importância, julgo que o paradigma se revela na responsabilidade e particularidade desta Conferência como premissa para um trabalho que nos será necessário desenvolver mais tarde na Pastoral, que se quer profundamente Social, interventiva, de maior proximidade e em maior escala, centrada no rosto, no princípio da identidade de todos e de cada um. É uma Conferência com 61 anos de existência e que foi sempre formada apenas por alunos do Seminário de Angra. Há que ler esta situação à luz da História. Há 61 anos foi talvez o melhor movimento a ser adotado na vertente social, quando faltava pouco menos de uma década para o Concílio ser convocado. Hoje, talvez, fosse outro movimento ou serviço, necessariamente de outra forma, embora com o mesmo intuito. Penso que a importância, por sermos a única Conferência constituída apenas por jovens rapazes, pode assentar primeiro no exemplo da ação caritativa para outros jovens, mesmo no contexto da pastoral juvenil e dos grupos de jovens em concreto. Por outro lado, penso que também poderemos ser sinal de vitalidade, de criatividade, impulso e ajuda para as outras Conferências da ilha e da Diocese que se encontram um tanto ou quanto envelhecidas.

 

 

Igreja Açores- Vai agora escolher a equipa que liderará esta conferência que tem pergaminhos no contexto dos vicentinos terceirenses. Que preocupações tem neste inicio de mandato?

Nuno Pacheco de Sousa- A primeira preocupação vai de encontro à vivência interior do Seminário. Um olhar sobre a corresponsabilidade social, como já referi. Sobre a necessidade de uma maior intervenção em consonância com a exortação do Papa Francisco que nos pede uma Igreja acidentada e ferida por estar em caminho com os seus, que não tem medo de se sujar ou doar-se. Vai também de encontro com o enriquecimento da formação humana e espiritual de cada um, em particular das franjas mais jovens do Seminário. Outro intuito para este início de atividade será a salutar provocação, vencendo a zona de conforto de cada um dos confrades. Relembro que este é o movimento com mais expressividade no contexto do Seminário. Fazem parte dele 14 dos 15 seminaristas. A Igreja sempre esteve na linha da frente na defesa da dignidade do Homem e na tentativa de resolução dos atentados a esta mesma dignidade. É preciso que nós – que estamos ainda neste tempo de formação mais intenso- tenhamos a coragem e a consciência de que a Igreja não se faz apenas atrás do Altar da oblação, e que a liturgia tem que nos levar também ao concreto da vida. Todos nós leigos, e mesmo os clérigos, podemos correr este perigo. É fácil. Queremos também delinear uma intervenção mais ambiciosa do que as assistências que fazemos semanalmente no atendimento à porta. Será de aproveitar o Ano Jubilar da Misericórdia para adentrarmo-nos em outros tipos de Pastoral Social. Dar maior ênfase, por exemplo, aos Estabelecimentos Prisionais, aos Centros de Recolhimento onde tantos se vêem forçados à solidão, ao abandono quase literal. Continuaremos a ir visitar os Sacerdotes aposentados e, porque não, incrementar se possível, um maior voluntariado na área da saúde mental ou em outras áreas. As áreas de formação humana e emocional – se assim se puder dizer- têm que nos doer e fazer crescer, tem que nos preparar para o confronto diário que teremos nas Paróquias, na vida das famílias que nos são confiadas. Não podemos, nem vivemos apenas de Teologia ou Filosofia. Por fim julgo que será de suma importância manter o colóquio vicentino enquanto espaço de formação, partilha e oração para e das Conferências de toda a ilha Terceira.

 

 

Igreja Açores- Os vicentinos mais do que auxiliadores materiais são dispensadores de misericórdia, na medida em que o conforto espiritual é tão ou mais importante que o material. Como é que um jovem aborda esta questão junto dos mais necessitados?

Nuno Pacheco de Sousa- O mais fácil na ação sócio-caritativa é colmatar a necessidade de bens materiais. O grande desafio, que considero que seja intemporal e comum a qualquer movimento eclesial ou organização governamental, ou não, é realmente o formar cristãos e cidadãos cônscios do seu papel, da sua responsabilidade na Sociedade. Será sempre um grande desafio tentar gerar equilíbrio e harmonia familiar, a inclusão de todos de forma justa no seio da Sociedade que muitas vezes é exclusiva. Também aqui a Igreja, quer seja pela voz daqueles que são Ordenados, quer pela voz de qualquer Leigo, tem que ser presente, continuada e lúcida. É sempre um desafio conceder cultura a todos por pensarmos que de algo elitista se trata, quando a cultura, a arte, surge exatamente como colmatação das carências daquilo que somos. Para um jovem, para mais tendo em vista o Sacerdócio, é um exercício de abnegação, de paciência, de resiliência e fundamentalmente de discernimento e de não julgamento. O desafio da doação humana, do nosso tempo, de oração conjunta é sempre enorme. Primeiro por ter de haver toda uma coragem para o fazer. Por outro lado, de sabermos agir se houver algum confronto ou resistência. Adotar uma escuta contemplativa e discernida. Isso não é fácil seja devido ao temperamento da idade em que “tão depressa o sol brilha, como a seguir está a chover” como canta Rui Veloso, quanto pela dificuldade por vezes sentida na tentativa de encarnação das vivências de quem nos chega, das mãos e do coração estarem desabituados a tantas situações. Não é igualmente fácil não haver soluções instantâneas como estamos habituados. Há que ter cuidado, muito, na abordagem da questão de Deus perante os problemas da vida. A vontade de Deus é sempre uma arma muito perigosa, se possível a não utilizar por principiantes. Estou justamente agora a ler um pequeno livro que adverte longamente para esta situação (Onde diabo está Deus?). De resto, é esta a herança que retiramos da pertença a este movimento durante a nossa formação.

 

 

Igreja Açores- O Carisma dos vicentinos é fazer o bem sem olhar a quem, tal como toda a pastoral social da igreja. Hoje, temos muita gente necessitada porque temos cada vez mais excluídos. Que desafio se coloca à pastoral social da igreja na diocese?

Nuno Pacheco de Sousa– Tenho uma imagem mental do fazer o bem sem olhar a quem que em muito se assemelha à imagem que utilizamos para personificar a justiça. Um dos grandes desafios que se coloca à nossa pastoral social diocesana – digo de qualquer movimento, de qualquer projeto, de qualquer paróquia, e não apenas do serviço diocesano – é de persistência no silêncio da nossa ação continuada, no ir para além do assistencialismo, dos cheques prendas ou dos subsídios. Temos de dar da nossa vida e da nossa fé na Pessoa do Senhor Jesus que Ressuscita. Julgo que uma poderosa e eficaz arma, mas igualmente difícil, seria a ação continuada da Irmandade e do Império do Espírito Santo. É verdade que é difícil à Igreja enquanto estrutura e hierarquia atuar nesta zona tão identitária do povo e da piedade popular dos Açores, mas em vez de partirmos de uma abordagem ad intra, porque não partir de uma abordagem às pessoas que estão no terreno e que conhecem o rosto do que sofre, do que necessita, daquele que está excluído, muitas vezes até por outros que também estão excluídos. A exclusão é um círculo vicioso. Julgo que isto não levaria a uma descaracterização do “tempo do Espírito Santo”, mas de uma nova perceção dos valores primitivos da coroação do pequeno e frágil imperador. Devolver a verdadeira génese das festas e das irmandades a elas próprias. É também para isso que julgo servir a Tradição e, se quisermos, os Costumes. As evidências estão por aí. Apenas basta consultar a muita documentação existente. Por fim o maior desafio de qualquer sector da Igreja será a de se mostrar como necessitada da misericórdia de Deus que ela própria prega e é beneficiária.

 

 

Igreja Açores-  Os vicentinos são geralmente gente mais velha. Aliás este movimento tal como outros está bastante envelhecido. Como se pode ultrapassar este constrangimento?

Nuno Pacheco de Sousa- Acredito particularmente na visão de que é o Espírito Santo, o Deus Trinitário, que comanda a vida Igreja e sabe das necessidades desta Sua mesma Igreja. Nada há nada a temer. Tudo se recicla, tudo se renova. É evangélica a ideia de que qualquer pai que ama não dá aos seus famintos filhos pedras em vez de pão. Ao olharmos para a História da Igreja facilmente notaremos que todas as formas de organização, todos os movimentos nascem no tempo certo, nascem da necessidade material e espiritual de Deus, das Comunidades. Qualquer ação na Igreja é serviço, todo o serviço tem o seu tempo e lugar. Não se esteja é de mãos abertas, no ar, sem as colocar ao serviço. De forma descontraída poderia afirmar que desta forma não há Espírito Santo que consiga. Muitos dos movimentos ficam cristalizados numa regra, num modo de ação, numa forma de fazer e olhar as coisas. Já aconteceu em tempos passados com esta Conferência. Tem de haver abertura de quem coordena estes grupos para a receção de novas influências, o “sempre se fez assim” não resulta. Diz o Papa que é mesmo um pecado contra o Espírito Santo. Nem os movimentos, nem os cargos são só nossos, nem para nós. Não há apenas uma forma de fazer as coisas. Tem de haver espaço para novas gramáticas de ação e de perceção.

 

 

Igreja Açores- De que forma esta conferência de São Tomás de Aquino pode ser um modelo inspirador para outras?

Nuno Pacheco de Sousa- Pode ser um modelo inspirador talvez por duas razões: pela esperança na continuidade, criatividade e organização do movimento; no acolhimento dos Vicentinos nas Paróquias por parte dos Sacerdotes, muito pela sensibilidade aqui desenvolvida pelo sentimento de pertença que aqui se vive.