Por Carmo Rodeia

A Terceira recebeu este ano as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Angra do Heroísmo voltou a vestir-se de festa e a afirmar a sua vocação transatlântica como uma grande cidade. O seu papel na história de Portugal foi vincado seja pelo presidente das comemorações, o professor Miguel Monjardino, angrense de nascimento, seja pelo Presidente da República, que fez estas comemorações regressarem ao Bailão 23 anos depois. Curiosamente, Jorge Sampaio em 2003 escolheu Angra para as comemorações do 10 de junho depois da polémica cimeira da Base das Lajes que marcou o início da segunda guerra do Golfo. António José Seguro escolhe a Terceira no momento em que estalou a polémica sobre a utilização da Base das Lajes pelos norte americanos, no conflito do Irão. Embora ninguém se tenha pronunciado sobre isso, ambos falaram da importância estratégica dos Açores no contexto das relações transatlânticas e ambos sublinharam o clima de incerteza mundial, criado e alimentado em grande parte por decisões erráticas da atual administração norte americana.
Angra é cidade atlântica, teve e tem um cosmopolitismo ímpar no contexto das cidades açorianas e a sua história está indelevelmente ligada à história da Igreja nos Açores, sendo a sede episcopal desde a fundação da Diocese em 1534.
Por outro lado, os dois discursos deste Dia de Portugal, o primeiro de António José Seguro como Chefe de Estado, enfatizaram a importância da Autonomia político administrativa dos Açores e da Madeira, constitucionalmente instituída há 50 anos, na Constituição de 76 e sublinharam os ganhos das populações com este sistema de governo próprio das duas regiões, reconhecendo que a Autonomia “não enfraqueceu Portugal, mas fortaleceu-o”, “desenvolveu políticas adaptadas às realidades locais, gerou identidades regionais robustas que não contradizem a identidade portuguesa, antes a enriquecem”, mas que este tempo é de “extrema urgência”.
Por isso, deve pôr de lado “divisões egoístas e míopes entre as ilhas” e olhar para “as assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas, para o custo real da insularidade que continua a pesar sobre famílias e empresas, para a necessidade de um modelo de financiamento que reflita com mais precisão e mais justiça a especificidade destas regiões”.
A Igreja, como primeira instituição verdadeiramente autonómica, quase desde os tempos dos primeiros povoadores, que trouxeram a fé cristã a estas paragens, sempre foi um pilar estruturante na formação da identidade e na coesão do arquipélago. Desde o início do povoamento, garantiu a assistência social, a educação e a organização territorial. O Culto ao Divino Espírito Santo, de que a Igreja não se pode afastar, tornou-se o maior elemento unificador da cultura açoriana e um símbolo de igualdade e entreajuda entre as ilhas.
Acho que ninguém poderia estar mais de acordo com estes dois discursos moderados, que apelaram à coragem e ao combate à polarização. Aliás, achei muito curiosa a expressão “faltam palavras do meio”, usada pelo Presidente da República, pedindo mais diálogo e mais tolerância, afinal os dois grandes pilares da democracia. E, prosseguiu: palavras que aproximem, que “construam pontes” e que “combatam divisões”que fragilizam a vida pública e “alimentam trincheiras”. E desigualdades, acrescentaria.
Esta é, sem dúvida, a apologia que tem de ser feita. Mas, é importante também identificar que palavras são essas de forma a que elas possam entrar no léxico da política partidária, absolutamente indispensável para a promoção do bem comum. Para todos, todos, todos.
Poderia começar pela palavra justiça, porque penso no salário e na pensão justa para quem trabalha ou trabalhou uma vida inteira, remunerações que permitam às famílias e aos idosos uma vida digna que passe por ter comida na mesa até ao final do mês ou ter o suficiente para não ter de optar entre comprar medicamentos ou comida. Depois veio-me à cabeça a palavra habitação, para jovens e famílias… Uma casa, é hoje um luxo apenas acessível a muito poucos, sobretudo quando se vive na cidade. Também poderia falar da palavra dignidade para todos e nela cabem outras palavras como hospitalidade e acolhimento. Dos imigrantes, dos mais frágeis. Depois, lembrei-me de oportunidade, sobretudo para os jovens regressarem a Portugal, a um país que deixa sair talentos e pouco faz para os recuperar. Ou seja, nas “palavras do meio” têm de caber respostas concretas às necessidades reais e concretas das pessoas. E essas palavras têm de ser explicitadas e interiorizadas pelos políticos. Sobretudo têm de ser ditas para que quem governa as oiça.
É que, de repente, veio-me à cabeça a Divina Comédia de Dante e a sua “idade do meio”. E confesso que fiquei assustada quando ouvi falar de meio, porque o meio, para ele, simboliza a crise, a confusão e a perda de valores. É quase como que uma representação da angústia humana ao percebermos que desperdiçamos a vida e nos afastamos do caminho da virtude.
Já passaram 50 anos do 25 de abril e agora 50 anos da consagração da Autonomia e muitas vezes olho para a vida e sinto que é lá que estamos e o paraíso ainda está longe para tantos e tantas de nós. Uns têm cada mais de tudo enquanto que outros têm cada vez mais de nada, a não ser que concretizemos estas palavras do meio. Muito se fez mas muito continua adiado. Nos Açores, em Portugal e no Mundo.
Estou certa de que o Presidente da República, com a sua moderação e inteligência política, quis dizer exatamente isto, na linha da Doutrina Social da Igreja. Será que todos ouviram?