Pelo padre José Júlio Rocha

O Jansenismo foi uma doutrina teológica e moral que grassou sobretudo pelo norte de França, Bélgica e Países Baixos nos séculos XVII e XVIII. A sua moral baseava-se num profundo pessimismo a respeito da natureza humana, definitivamente inclinada para o mal. Os homens eram considerados como “massa damnata”, condenados à partida, destinados à perdição eterna, à exceção de alguns a quem Deus concederia a graça da salvação. Adiava-se a absolvição dos pecados e era, na esmagadora maioria dos casos, negada a comunhão. São desse tempo aqueles sacrários que se apresentam como cofres ou fortalezas, nos seus altares, muitas vezes protegidos por grades: Jesus, que tinha vindo para salvar os pecadores, era afastado deles, protegido do pecado do mundo, inacessível aos humanos que O não mereciam. Talvez tenha sido essa doutrina de afastar os pecadores de Jesus que fez com que essa região seja, hoje, uma das mais descristianizadas da atual Europa.

Um dos símbolos do Jansenismo era um convento no norte de França, onde pontificavam as monjas de Port-Royal. O seu rigorismo e a sua intransigência moral eram tais que levaram o célebre Blaise Pascal a dizer que elas eram “puras como anjos mas orgulhosas como demónios”.

De vez em quando, esses eflúvios rigoristas têm a tentação de se infiltrarem no seio da Igreja, e a época de hoje não tem fugido à regra, quando muitos cristãos esquecem que Jesus veio para salvar o mundo, não condená-lo, e julgam que aqueles que passam os dias a incensar os altares são mais dignos e puros.

A passagem do Evangelho que foi lida na passada quinta-feira, 16 de setembro, é uma forte machadada em qualquer prerrogativa rigorista. Nela se conta que Jesus, um dia, foi convidado a comer em casa de um fariseu e sentou-se à mesa. A dada altura entra em cena uma mulher, pecadora conhecida na cidade, que se dirige para Jesus e se prostra diante dele. Chora sobre os Seus pés, lava-os com as suas lágrimas, enxuga-os com os seus cabelos, perfuma-os com um perfume raro trazido num vaso de alabastro. A cena é confrangedora para os comensais, e ainda o é mais porque Jesus não enxota a mulher, não tuge nem muge, deixando-a ali a beijar os Seus pés, a derramar lágrimas e perfume.

O fariseu que O convidou fica embatucado: uma cena dessas em sua casa! Se Jesus fosse o profeta que diz ser não deixaria que aquele embaraço

acontecesse. Uma mulher mal vista, ostracizada, impura, suja. Mas Jesus capta perfeitamente o que vai na cabeça dos presentes. E conta a Simão, o fariseu, a história de um homem que tinha dois devedores: um devia-lhe cinquenta denários, o outro, quinhentos. O homem perdoou a dívida dos dois. Qual deles ficará mais grato? Simão deu-Lhe a resposta óbvia: o que devia mais.

Olhando para a mulher, não olhando para Simão, Jesus diz: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não Me deste o ósculo; mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me derramaste óleo na cabeça; mas ela ungiu-Me os pés com perfume.» E arremata: «Por isso te digo: são-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou».

Não é preciso ter mais de dois dedos de testa para compreender a força e a beleza deste encontro em que Jesus se deixa beijar pela pecadora e a acolhe sem mais isto nem mais aquilo. O perdão de Jesus tem a medida do amor e mais nada.

Intrigante é o consequente desabafo de Jesus, nitidamente dirigido a Simão, o fariseu: «mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». O fariseu não é o hipócrita: é aquele que se julga tão perto de Deus que nem precisa de ser perdoado, porque a sua alma é pura e intocada pela sujidade do pecado. É aquele que, ontem como hoje, se aproximou de Deus mas de costas voltadas para Ele. É aquele que esquece que todos os pecados já entraram no Céu menos o orgulho, e todas as virtudes já foram parar ao inferno menos a humildade.

O Jansenismo teve o condão de fechar as portas do Reino dos Céus à grande massa dos pecadores, com nefastas consequências na história do cristianismo. Não continuamos nós, ainda hoje, a fechar as portas da Igreja a quem, eventualmente mais do que nós, precisa do abraço de Jesus? Às vezes parece-me dolorosamente lógico o facto de as nossas igrejas estarem cheias de bancos e vazias de pessoas. Estamos na era do vazio, que também se traduz no tempo das igrejas vazias. E é curioso que, mesmo fisicamente, as nossas igrejas estão fechadas, porque temos medo que nos roubem os santos valiosos e as riquezas dos nossos altares, e quem devia estar lá dentro, gente de carne e osso, acaba por ficar cá fora.

A Igreja é também o lugar onde vamos derramar as nossas lágrimas sobre os pés de Jesus; também é o lugar onde devemos deixar entrar aqueles que a quem o muito amor há de perdoar muitos pecados.

Às vezes penso que, para ser cristão, é preciso ter a maturidade para abrir os braços e acolher. E deixar o Espírito Santo fazer o resto.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio