Por Carmo Rodeia


O país está de férias mas o mundo está cada vez mais estranho.

1- Venezuela: um país revoltado, e suspenso à espera de um milagre. Entre uma oposição que não se entende e o autismo de um presidente que quer uma constituição nova que lhe dê poderes absolutos, caminha para a ditadura. Maduro não quer mas está cada vez mais isolado, nas mãos dos gringos. Não vale a pena encontrar culpados. A Venezuela é um lugar igual a todos os outros e nestas coisas não há apenas os bons e os maus. O que distingue a Venezuela é que ali, como em tantas outras partes, por causa da gula de manter o poder a todo o custo falta comida, medicamentos, segurança, tudo e mais alguma coisa, entre elas a democracia. Infelizmente também neste capítulo a Venezuela não é diferente de outros lugares de um mundo cada vez mais ao contrário.

2- 222 milhões: desculpe, importa-se de repetir? Quantos zeros tem esse número? Tantos quantos o que dizem que vale Neymar, a estrela brasileira de futebol que se transformou na estrela do mundo. A mais cara transferência de sempre do futebol. Uma obscenidade, só comparável à obscenidade dos números que dizem que as oito pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo em riqueza que a metade mais pobre da população mundial. A tal economia “que mata” de que o Papa Francisco fala, revela como as grandes empresas e empresários acentuam as desigualdades, ao explorar um sistema económico que fomenta a injustiça, reduz salários, foge aos impostos, branqueia capitais e aumenta o lucro para os acionistas. Os jogadores de futebol transformados em sociedades unipessoais já entraram neste capítulo. Há muito que o desporto passou a ser um negócio. E os seus protagonistas peças de um investimento que rende quase sempre. Mais do que um sonho este mundo transforma-se todos os dias num pesadelo.

3- Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, desde sempre vai dizer adeus. 30 anos. Único atleta a conquistar oito medalhas de ouro em provas de velocidade, 11 vezes campeão do mundo, primeiro e único atleta junior a correr 200 metros em 20 segundos; tem três recordes mundiais 9,58s(100 metros); 19,19s (200m) e 36,84s (4x100m); nunca perdeu uma final olímpica, conseguiu atingir 44,72km h e precisa de apenas 41 passos para percorrer o hectómetro. Questionado sobre qual o legado que gostaria de deixar no dia seguinte à final dos últimos 100 metros, que vai disputar nos mundiais de Londres, revelou que gostaria de ver nos jornais “Usain Bolt retira-se das competições individuais imbatível, imparável”. O menino alto, esguio e desengonçado, nascido no seio de uma família de classe média baixa na Jamaica transformou-se num homem forte, responsável, confiante e rico. A Forbes dava-o como o 23º atleta mais bem pago do mundo, com ganhos anuais estimados em 30 milhões de euros. Nada comparável ao número anterior. E no entanto, um feito inigualável.

Infelizmente, na vida como no desporto, há uns mais iguais do que outros e as disparidades entre uns e outros são cada vez maiores.

Na exortação Evangelii Gaudium (A alegria do evangelho) o Papa Francisco critica, com dureza, a atual “ditadura de uma economia sem rosto” e que “mata”, e que “nega a primazia do ser humano”. A cultura do bem-estar, diz, torna as pessoas “insensíveis aos gritos dos outros” e faz-nos “viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório”. E prossegue: “Há uma ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano”. E a crise põe em evidência “uma orientação antropológica que reduz o ser humano a apenas uma das suas necessidades: o consumo”. O Star System em que vivemos não anda longe disto. Bem pelo contrário.