Interpelado pelo Sítio Igreja Açores sobre a agendamento da discussão parlamentar na Assembleia da República sobre a Eutanásia, para o dia 20 de fevereiro, D. João lavrador afirma que  este será o parlamento “com menos legitimidade de base popular” para decidir uma matéria de tanta importância

O bispo de Angra acaba de desafiar o Estado, em particular os parlamentares, para em vez de legislarem sobre a legalização da Eutanásia tomarem como principal desafio a disponibilização de todos os mecanismos legais e financeiros para garantir cuidados paliativos adequados, em quantidade e qualidade, às exigências da sociedade atual.

“O sofrimento, que é sempre o grande argumento a favor da Eutanásia, deve ser transformado em desafio ao Estado para oferecer cuidados médicos e de assistência que retire a dor, como são os cuidados paliativos” avançou ao Igreja Açores D. João Lavrador quando interpelado sobre a urgência do agendamento do debate parlamentar sobre a Eutanásia, para o próximo dia 20 de fevereiro.

O prelado diocesano lembra mesmo que este será porventura o parlamento com menos base de apoio popular para decidir sobre um assunto desta natureza.

“Atendendo aos dados eleitorais das últimas eleições, os quais resultaram numa abstenção acima dos 50%, e dada a importância impar do que se trata, nada menos do que decidir sobre a vida de alguém, seja a pedido ou não, penso que apesar da legitimidade parlamentar, não existe legitimidade de base popular” avança D. João Lavrador.

“Será a legislatura que menos fundamento eleitoral possui para decidir sobre uma questão de tão grande relevância. Certamente, o Sua Excelência o Senhor Presidente da República, presidente de todos os portugueses, tomará as medidas adequadas” afirma ainda o prelado insular.

Para o bispo de Angra, os desafios que se colocam aos parlamentares colocam-se igualmente à sociedade.

Este desafio “deve ser encarado também como uma forte interpelação à solidariedade da sociedade para que olhe para quem sofre como um convite a oferecer àquele que já não possui a vitalidade anterior que possa contar com uma sociedade verdadeiramente solidária em favor da vida humana”, afirma.

“Tal como no Aborto, também a Eutanásia é o sintoma de uma sociedade doente, que olha para o futuro sem esperança, que envolta no seu egoísmo e na sua indiferença, prefere matar do que cuidar da vida humana e esforçar-se por eliminar as causas que levam as pessoas a desesperarem e a entrarem por soluções que à partida não desejavam e que são irreversíveis” refere D. João Lavrador.

A posição do bispo de Angra, “como cidadão interessado nas questões da cultura do país e da humanidade e com a responsabilidade de servir pastoralmente a diocese de Angra” assenta numa forte convicção de que “a vida humana é o valor fundante de todos os outros valores. Isto é, todos os valores dependem do valor da vida humana. Neste sentido, a autodeterminação e a liberdade individual, por muito importante que sejam nunca poderão sobrepor-se à vida humana”.

“A vida humana é um valor civilizacional que determina as relações sociais e faz parte de um padrão cultural. Como tal, não pode estar ao arbítrio de um grupo, ser manipulada ou destruída. Muito pelo contrário, pertence á sociedade defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento e com as características próprias de cada etapa da vida humana. Pertence também ao Estado criar os mecanismos legais e educacionais que defendam e promovam a vida humana”, afirma ainda ao Igreja Açores, sem deixar de questionar a argumentação dos parlamentares e de alguma comunicação social.

“Os argumentos a favor da Eutanásia, bem orquestrados por alguns grupos parlamentares e ardilosamente apresentada por alguma comunicação social, não correspondem à realidade. Ninguém pede a morte antecipada desde que lhe sejam prestados os cuidados paliativos, tenha junto de si o carinho e a ternura da família, sinta a amizade e a proximidade dos vizinhos e amigos e esteja envolvida pelo amor e comunhão de uma comunidade humana”.

O debate parlamentar sobre a Eutanásia vai pela terceira vez ao parlamento e todos os partidos da esquerda, inclusive o partido que sustenta o Governo socialista, têm projectos a favor da legalização da Eutanásia. Recorde-se que na última legislatura o debate feito a nível parlamentar provocou muitas clivagens mesmo dentro dos partidos, com a Igreja Católica e associações de defesa da vida a insurgirem-se contra a legalização da Eutanásia. A Conferência Episcopal Portuguesa emitiu a Nota Pastoral ‘Eutanásia: o que está em jogo? Contributos para um diálogo sereno e humanizador’, de 2016, na qual os bispos católicos afirmam que “nunca é absolutamente seguro que se respeita a vontade autêntica de uma pessoa que pede a eutanásia”.