André Patrão é um dos 12 jovens portugueses que trabalha como editor no Media Center nas JMJ

A fazer o doutoramento em arquitectura, em Lousanne na Suíça, aos 26 anos, André Patrão, natural de Ponta Delgada, da paróquia de Nossa Senhora das Neves, freguesia da Relva, lança-se no voluntariado pela primeira vez e logo nas Jornadas Mundiais da Juventude, um dos dois mais importantes encontros mundiais promovidos pela Igreja e que conta com a presença do Papa.

O jovem açoriano aceitou responder ao Sítio Igreja Açores e, nesta conversa, fala da opção do voluntariado, uma opção que “fervilhou crescentemente em mim, uma vontade e uma atração, que um dia se tornou ação”. Fala da preparação, dos valores que recebeu da família, da fé…e do Papa Francisco.

Sítio Igreja Açores- Como surgiu esta ideia de fazer voluntariado nas JMJ

André Patrão- Vi-me levado para o voluntariado na JMJ com uma estranhíssima naturalidade, que ainda hoje tenho dificuldade em explicar. Nunca havia participado numa JMJ, nem como voluntário nem como peregrino; não houve um grande evento, fenómeno marcante, ou qualquer revelação extraordinária que me tenha despertado subitamente; não houve quem mo sugerisse nem convidasse. Se calhar durante anos fervilhou crescentemente em mim uma vontade e uma atração, que um dia se tornou ação.

 

Sítio Igreja Açores- Mas porquê neste evento concreto?

André Patrão- Olhando para trás, para o percurso que me trouxe até Cracóvia, exibe-se como raras vezes a mão segura de Deus a guiar-me. Sem resistir, deixo-me levar, escuto atentamente, e preparo-me entusiasticamente para o que Ele me reserva nestas Jornadas.

O trabalho como voluntário é extraordinariamente gratificante, e pessoalmente ainda mais por exprimir uma resposta a tudo de bom que me tem sido dado na vida, particularmente nestes últimos meses. Recebi dons, nasci num meio e com família e amor que me permitiu multiplicá-los, e encontrei conforto para quase todas as minhas necessidades. Acredito que com a graça de Deus vem a missão cristã de os colocar ao serviço de todos, e tanto assim é que é mais um prazer que uma obrigação.

Mas devo dizer que, quando me candidatei ao voluntariado vivia o contrário deste bem-estar: apreensão quanto ao futuro, dúvidas sobre o meu propósito, expectativa e intranquilidade. Talvez então dar-me ao outro era das poucas certezas que tinha. Hoje, depois de tudo, é das maiores.

 

Sítio Igreja Açores- Está integrado nalgum grupo ou foi proposta e iniciativa individual?

André Patrão– Vim por iniciativa individual, mas não houve um momento no voluntariado em que estivesse sozinho. Antes mesmo de sair do aeroporto já me juntara a gente extraordinária de todo o Mundo, com quem falava e ria como se fossemos amigos desde sempre! Mas espero que a minha vinda e a história com que regressarei incentive outros, da minha Paróquia de Nossa Senhora das Neves, da minha ilha de São Miguel, da minha Região dos Açores, a atreverem-se a aventurar-se também, e a trazerem alguém consigo.

 

Sítio Igreja Açores- Que trabalho em concreto desenvolve nas Jornadas?

André Patrão- Sou editor do conteúdo Português no site da JMJ – a terceira língua mais vista, a seguir ao Inglês e ao Polaco – e ajudo na coordenação do “Minuto a Minuto” das nove línguas do website. São tarefas substancialmente diferentes do que é habitual no meu dia-a-dia, à semelhança do que acontece com os outros voluntários. Porém, e se calhar também por isso, tem sido uma experiência fascinante que, aliada à rara circunstância de trabalharmos num meio Católico e para Católicos, eleva-nos a um espaço novo à parte das nossas vidas diárias.

Sobre estas duas componentes do site da JMJ, que dominam a página principal, quero sublinhar que ambas são produzidas pela nossa equipa com a intenção de difundir não só informação prática mas também a vivência espiritual das Jornadas, expandindo-a de Cracóvia para o Mundo inteiro. As emoções desta semana são imensas, transbordam uma só cidade!

 

Sítio Igreja Açores- Que preparação teve especificamente para esta participação?

André Patrão- Todos os voluntários passaram por treino básico – logística, segurança, primeiros-socorros – e treino específico para as suas tarefas. Imagina-se quão intenso foi assimilar, em poucos dias, uma enorme quantidade de informação e entranhar práticas fundamentais para receber bem os peregrinos e o Papa. E, porém, nunca sentimos a dureza das circunstâncias, só o prazer de as ultrapassar. E as dificuldades deram-nos ainda mais oportunidades de conhecer novas pessoas e reforçar amizades, que agora nos fortalecem nesta missão comum.

 

Sítio Igreja Açores- Quantas pessoas trabalham consigo no media Center no geral e na secção portuguesa em particular?

André Patrão- Entre voluntários de longo-termo e de curto-termo, o Media Center conta com cerca de 500 pessoas, e o conteúdo internacional com cerca de 90, dos quais 12 são do conteúdo português.

No nosso grupo há portugueses e brasileiros, e por isso surgiu o obstáculo das diferenças na língua escrita. Ultrapassámo-la sem dificuldades: por um lado assumimos a riqueza internacional do nosso grupo – um ponto pequeno do que se passa em toda a Jornada – e assim cada um escreve segundo as normas do seu País e até região; por outro lado equilibramos a terminologia utilizada para que seja bem compreendida por todos, e assim para que a diversidade seja uma curiosidade descoberta, não um estorvo.

 

Sítio Igreja Açores-  Que rotinas estão pré estabelecidas?

André Patrão- A equipa divide-se em três: jornalistas, que criam o conteúdo e cobrem os inúmeros eventos por toda da cidade; editores, que coordenam e revêm o conteúdo (mas com liberdade de o criarem também); e os responsáveis pelo “minute by minute”, onde se publicam pequenas notas relatando o que se passa, em directo, nos grandes eventos e ao longo da Jornada. Organizados, movemo-nos todavia com muita flexibilidade dentro desta estrutura, e em geral não há quem se restrinja a uma só tarefa. Assim se concilia bom trabalho com aprendizagem, uma oportunidade única no voluntariado.

 

Sítio Igreja Açores-  Como é fazer comunicação da igreja para jovens?

André Patrão- A comunicação para jovens crentes neste evento é surpreendentemente fácil. A fé é partilhada por todos, e o entusiasmo dessa partilha e de escrever sobre essa fé e a sua manifestação nas Jornadas inspira os escritores a encontrarem a sua melhor escrita. A dificuldade é escrever para não-crentes. Este é um público alvo que certamente mereceria mais atenção num evento tão massivo e visto globalmente. Não devemos apenas reiterar e refrescar a mensagem a quem já a recebeu, mas também espalhá-la, especialmente quando beneficia de tanto mediatismo e toma uma forma tão bela quanto a JMJ. Poucas pessoas imaginarão quão “normal” é a vivência dos jovens durante as Jornadas, como tudo o que se faz e acontece é tão típico de quem tem esta idade. A diferença, com os seus devidos efeitos, está no que nos junta, a fé. Por isso a Igreja não é uma memória envelhecida e descontextualizada, como tanta vez se faz crer a quem não é Católico, e as Jornadas desmentem-no tão bem.

 

Sítio Igreja Açores-  As JMJ são, a par do Encontro Mundial das Famílias, um dos momentos mais importantes da vida da igreja na sua relação com os leigos, sobretudo por causa da presença do Papa. O que é que lhe tira o sono por estes dias?

André Patrão- O que mais me perturba o sono? Dormir no chão! Mas mesmo a isso já nos habituámos, e não seria a JMJ de outra maneira. Para mais, chegamos sempre tão cansados!

Mas mais a sério… uma revelação recorrente nas Jornadas tem sido que cada um destes jovens traz um pouco de santidade consigo, e que juntando-nos partilhamo-la com quem não a tem. Mas isto exige reflexão sobre nós próprios. A mudança enorme de vida e contexto durante duas semanas torna-nos especialmente receptivos a refazermo-nos, e a confiança em Deus leva-nos a aceitá-la confiantes.

 

Sítio Igreja Açores- Que leitura faz do pontificado do Papa Francisco

André Patrão- Admito que tenho dificuldade em falar de um tema tão complexo, tão sério, numa altura em que qualquer consideração desaba quando o vejo a sorrir-nos na Janela Papal!

 

Sítio Igreja Açores-  Qual a mensagem que gostaria que ficasse destas JMJ?

André Patrão– Diria que a mensagem mais importante e pertinente nestes dias é o contraponto relativamente às notícias que dominam o nosso dia-a-dia: o terrorismo, cheio de mal, de medo, de suspeição, de raiva, de tristeza. Nas Jornadas, pelas mãos dos jovens que herdarão este Mundo, damos-lhe esperança relembramos aquilo que verdadeiramente queremos e sempre quisemos que fosse e seja.