Entrevista a um psicólogo e a um sacerdote

Márcio Silva, psicólogo e Pe. José Júlio Rocha, doutor em Teologia Moral são os convidados do programa de rádio Igreja Açores que está disponível aqui e que esta semana aborda de forma mais profunda a questão dos abusos sexuais de menores, dentro da Igreja, de olhos postos na Cimeira promovida pelo Papa Francisco e que reuniu nos últimos quatro dias 190 presidente de conferências episcopais, Institutos religiosos de vida consagrada e representantes da Igreja Católica oriental.

“A Cimeira é um dos acontecimentos da história da igreja e os  21 pontos que o Papa Francisco levantou devem ser levados muito a sério,  com normativas para seminários e dioceses de forma a que tudo possa ser purificado” afirma o Pe. José Júlio Rocha.

“Esta Cimeira marca um antes e um depois na história da Igreja e lança-nos o desafio de ir às causas” acrescenta, lembrando que não se trata “de um agravamento da situação mas de uma descoberta do que estava escondido”.

“O silêncio que foi a norma não pode continuar a existir; os encobrimentos e os lobbies têm de terminar” adianta, por outro lado, lembrando que as questões conexas com este problema têm de ser afrontadas pela Igreja, entre elas a questão do celibato.

“Tendo em vista que o celibato é uma proposta cristã para os sacerdotes católicos de rito latino, temos que perceber que todas as pessoas são sexuadas e os padres por viverem o seu celibato não deixam de o ser. Os 21 pontos (de que fala o Papa) são claros e definem os motivos que levam a pessoa a viver o celibato que é uma coisa boa em si, difícil de viver e que deve ser vivido como se a nossa sexualidade fosse uma oblação”.

Já o psicólogo Márcio Silva lembra o trabalho técnico, que tem sido desenvolvido, de acompanhamento das vítimas e dos agressores e deixa alertas às famílias e, em concreto às crianças e aos pais, de forma a melhor se protegerem.

O psicólogo que fala da pedofilia num contexto mais alargado e não circunscrito à igreja recorda que “90% dos abusos são desenvolvidos dentro da rede de confiança ou da esfera familiar das crianças”.

“É fácil recomendar para não se entrar no carro ou aceitar coisas de desconhecidos ; isso é útil mas a verdade é que essas coisas acontecem de outra forma, geralmente na proximidade” lembra o técnico que diz que a grande aposta das famílias, sobretudo dos pais, é educar as crianças para uma maior confiança nos seus instintos.

“Temos de procurar educar as crianças para confiarem nos seus institutos e o que as deixa desconfortáveis elas rejeitam loco porque se sentem incomodadas. Por isso o diálogo com os pais é fundamental”.

A entrevista a estes dois protagonistas foi conduzida pela Tatiana Ourique e passou no programa de rádio Igreja Açores que vai para o ar todos os domingos, no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores.