10 religiosas asseguram atualmente a presença deste instituto religioso que está na Diocese de Angra desde 1893

A Congregação de São José de Cluny, presente na Diocese de Angra com uma comunidade com 10 religiosas vive este mês de março em festa para honrar o seu padroeiro, São José.

No Colégio de São Francisco Xavier haverá por isso uma missa no dia 19, ao fim da tarde, para todos os pais dos mais de 400 alunos que formam esta comunidade educativa, uma das mais prestigiadas da cidade de Ponta Delgada.

Presentes na Diocese de Angra desde 1893, as Irmãs de Cluny, têm-se dedicado essencialmente à educação e aos mais novos. Chegaram a ter duas comunidades – o Colégio e o Lar da Mãe de Deus- mas atualmente por “decisão superior da província”- têm apenas uma comunidade dedicada ao ensino, seguindo sempre de perto o lema da sua fundadora Ana Maria Javouhé “estar em toda a parte onde há bem a fazer e sofrimento a aliviar”.

No seguimento da sua Fundadora, as Irmãs procuram realizar a Obra de Deus, nos diferentes sectores de missão, estando atentas aos sinais dos tempos e aos apelos de sempre, para ajudar o homem a libertar-se de toda e qualquer forma de escravidão.

“A educação é sem dúvida um instrumento nesse sentido. A nossa função é ajudá-lo, ampará-lo e libertá-lo” disse ao Sítio Igreja Açores a Irmã Ermelinda Matos, Superiora da Congregação na Comunidade radicada em São Miguel, lembrando que o sentido de “escravidão hoje se calhar é diferente, mas há muitas formas do homem estar `preso´”.

Foi assim, de resto, que fez a sua Fundadora. A Jovem Ana Maria comprava os escravos para os libertar, ensinando-lhes a  ler e a trabalhar num oficio, preparando-os para uma vida em liberdade.

Hoje, este carisma, inspira as religiosas de Cluny a estarem sempre preparadas para uma missão especifica, “de acordo com as necessidades dos sítios onde estamos”.

Presente nos quatro continentes, a Congregação de São José de Cluny possui quatro províncias na Índia, três em França; uma em Espanha e outra em Portugal; uma nos EUA, uma no Brasil; uma também em Angola e uma vice província em Moçambique. Em Portugal a Congregação possui 21 comunidades com 199 religiosas com uma média etária de 60 anos.

“É difícil procedermos ao rejuvenescimento das nossas casas em Portugal” reconhece a Irmã Ermelinda Matos que lamenta a falta de vocações “própria de uma sociedade em que a família não tem tempo nem para a oração, nem para a contemplação, nem sequer para dar tempo uns aos outros”.

“Em minha casa eramos sete e todas as noites rezávamos o terço em conjunto. Quem é que hoje faz isso? Quem agradece o dia?” questiona a responsável dizendo que o problema “não é de falta de vocações “ mas sim “de falta de disponibilidade das famílias para despertar e acolher as vocações dos filhos”.

Uma questão que para esta religiosa, que já leva 48 anos de vida consagrada, “nem sequer é novidade”.

“Eu própria quando a minha irmã mais nova dizia que queria ser religiosa fazia troça dela. Os meus pais corrigiam-me e, sabe, Deus tem muitas maneiras de chegar até nós e de se servir das mais variadas estratégias e situações para isso”.

“No meu caso foi simples: tive namoros, mas nunca me disseram grande coisa até que um dia decidi que este era o meu caminho e nunca hesitei”, diz.

O que é que a fez despertar? “Há algumas irmãs que dizem que foi uma frase do Evangelho; admito que sim, mas no essencial o que me fez ser religiosa consagrada foi ver a alegria das irmãs desta congregação, a forma como viviam em comunidade, como se ajudavam e isso fez com que eu me decidisse”, sublinha a Irmã Ermelinda Matos.

A experiência da vida em comunidade é para esta religiosa um dos caminhos para atrair os jovens.

“Se não experimentarem, se não vivenciarem e se não conhecerem nunca poderão sentir-se cativados” diz lembrando que no seu caso tudo aconteceu porque uma irmã que ficou viúva foi viver durante o período inicial do luto para uma casa da congregação, que começou a visitar regularmente.

Hoje os tempos são outros. “Não há tempo para ter tempo para aquilo que é verdadeiramente importante e nos pode ajudar”, por isso, era importante apostarmos em estratégias, “não é ir com uma campainha de escola em escola a perguntar quem quer entrar para a congregação mas apostar por exemplo na pastoral universitária”, reconhece.

“Infelizmente não temos irmãs suficientes para esse trabalho que é muito importante mas muito exigente; mas é aí que se despertam verdadeiras vocações, com outra maturidade e com outra capacidade de dizer sim”, adianta ainda, lembrando que a vida religiosa “está muito mitificada e assente numa ideia falsa de que não há liberdade”.

“Se calhar a culpa é nossa”, admite a Irmã Maria Aida Batista, também irmã de Cluny há 47 anos, enfermeira, e que se encontra na comunidade de Ponta Delgada, na “retaguarda” a fazer um trabalho que “sempre rejeitei porque achava que não tinha jeito e olhe estou a adorar. Tenho aprendido imenso com as crianças”.

“É verdade que hoje há pouco contacto com o religioso mas nosso Senhor quando quer chama mesmo, mas também pode ser falha da nossa parte… uma falsa imagem que nós religiosos damos… se calhar a alegria que sentimos não a conseguimos comunicar…por vezes temos algumas dificuldades em acompanhar os jovens hoje” adianta sublinhando que os tempos são outros.

“Na minha altura eu acolhia e bebia tudo o que vinha; hoje estamos no tempo dos porquês e se calhar não somos capazes de chegar até eles. Veja o caso dos jesuítas… são exímios…não me lembro de terem falta de vocações”, conclui.

Desde os 11 anos que quis ser missionária; entrou para a Congregação aos 19, sem grande alegria dos pais ou dos irmãos. “Nem sequer do Padre que não gostava lá muito de freiras”, refere de forma descontraída.

“Sempre fui assim por isso a única hesitação que tive foi antes de entrar para a Congregação porque como gostava muito de estar perto do Senhor ainda pensei em ser religiosas de clausura mas aí tive muitas dúvidas devido a este meu feitio alegre e expansivo e ainda bem que não fui”.

“Tive muitos pretendentes mas, olhe três já morreram, já viu?…Fiz a opção correta porque Aquele a quem me entreguei nunca morre”, conclui com um brilho próprio de quem gosta da vida que escolheu e que a levou até várias comunidades diferentes desde a Anadia, ao Funchal, passando pelo Alentejo, onde passou metade do tempo da vida religiosa consagrada.

“Somos felizes e livres. A nossa vida é um serviço e doação a Deus e aos outros porque é nos outros que encontramos Deus”, acrescenta a Irmã Ermelinda Matos.

O percurso na Congregação é igual a tantos outros. Seis meses a um ano de postulantado; dois anos de noviciado e primeiros votos de pobreza, castidade e obediência. Mais três anos de serviço e votos temporários que podem ser renovados até aos nove anos (em situações excecionais) embora o normal seja seis anos, após os quais são feitos os votos perpétuos.

“Quando se fazem os primeiros votos é porque já há muita certeza do que queremos fazer”, dizem ambas as religiosas que ainda assim experimentaram situações diferentes. A Irmã Ermelinda fez os votos perpétuos ao fim de seis anos e a Irmã Aida ao fim de nove, “por causa do curso de enfermagem”.

A formação “é muito importante” quer a teológica quer a profissional.

“Temos pouco tempo para nós mas esta é uma parte que não podemos descurar” admite a Superiora, até porque para além do Colégio de São Francisco Xavier “há todo um trabalho dentro da comunidade que exige muito de nós, sobretudo que estejamos muito atualizadas”.

As Irmãs de Cluny estão, neste momento, envolvidas também na Catequese paroquial de São José para além de outras atividades para que são solicitadas.

Chegaram aos açores em 1893. As primeiras que vieram eram francesas. Em 1897 instalam-se na Roberto Ivens, mas com a república foram obrigadas a sair dos Açores e só regressaram em 1932. Instalaram-se provisoriamente nas instalações do Hotel São Pedro, hoje pertença do Grupo Bensaúde e em 1943 mudaram-se para o Seminário Menor de Ponta Delgada. Em 1955 instalaram-se em definitivo naquela que ainda hoje é a sua casa: o Colégio de São Francisco Xavier.

As Irmãs de São José de Cluny são um dos doze institutos femininos existentes na Diocese de Angra que o Sítio Igreja Açores está a dar a conhecer neste Ano da Vida Consagrada.