Por Pe António Rego

Tudo tem seu tempo e sua hora. Mas já sabemos que o tempo é dos elementos mais misteriosos com que lidamos todos os dias, horas, minutos, segundos, fracções. O tempo que nos apaixona e desconcerta, que escapava à sublime inteligência de S. Agostinho, que chega inesperadamente, inesperadamente foge, parece lento, parece veloz, parece até que não existe e continuamente esbarra na fronteira da eternidade no mais desconcertante dos acontecimentos, a morte – linha invisível que separa o tempo da eternidade e nos deixa a interrogação sobre o que realmente será uma e outra coisa Porque na realidade no momento em que queremos atingir o âmago da definição de um e outro, ambos nos escapam.

Mas não precisamos envolver-nos em penumbras filosóficas para nos apercebermos que o tempo é como uma teia que vem de longe e vai mais longe que qualquer relógio ou calendário mecânico ou digital. Passa, deixa rasto, paga erros, distribui alegria e paz, abre esperanças, produz mudanças, gera nostalgia, saudade, refaz o filme das nossas vidas, oprime, reprime, liberta.

O amanhã é tempo. E não sabemos o amanhã. Por isso juntamos o “se Deus quiser”, expressando, com algum receio, o que nos possa trazer a surpresa  do tempo não vivido. Mesmo com a expressão em desuso o “se Deus quiser” não deixa de condicionar todas as nossas certezas sobre o amanhã.

Há questões concretas que nos cercam: como será a família do futuro na sequência da nova lógica que sobre ela se instala hoje? Como vão as crianças, com os dedos cansados de digitar o seu individualismo, estabelecer os laços que só se experimentam no face a face? Vindos dum tempo de marasmo, saltamos para o fast food, as comunicações rápidas, o mirabolante universo digital em toda a orgânica da vida contemporânea, e sempre a alta velocidade, a aprendizagem instintiva das crianças no táctil dos pequenos  ecrãs, a instantaneidade dos contactos em qualquer ponto do planeta, a omnivisão dos satélites que detetam o caixote do lixo á nossa porta – a versatilidade de tudo o que se joga com o tempo e se exprime em corrida alucinante, tudo isso e muito mais acontece nas frações quase incontáveis do tempo. E todavia tem, na retaguarda, milhares de milhões de anos luz e trevas, estrondos e silêncios, estrelas e galáxias que tratam os milênios por tu. E nós, pequenos e insignificantes miniaturas do universo,  só temos um caminho certo a esperar: a eternidade.

Tudo isto foi feito para o homem que mantém uma dívida de respeito pelo tempo, pelo espaço, pelo passado, pelo futuro e, já agora, pelo tempo e pela eternidade. Devemos ser o único ser criado que vive esses dois “tempos”, sabendo que um deles é eternidade. Por isso lembro a valsa de Jacques Brel.

Pe António Rego