Instrumento de trabalho diagnostica e aponta caminhos para uma resposta da igreja aos problemas dos açorianos

A avaliação que as ouvidorias e os serviços diocesanos fazem da realidade da igreja nos Açores aponta para algumas “fragilidades” ao nível da “vitalidade espiritual e religiosa”, do “empenhamento dos leigos” e “do clero”, mas indica caminhos para uma nova forma de fazer pastoral.

O instrumento de trabalho que sintetiza as posições recolhidas a partir de um inquérito enviado às instâncias diocesanas para avaliação geral da situação da diocese, balanço do trabalho pastoral nos últimos cinco anos, posicionamento da igreja face a uma nova realidade social e cultural e perspetivas pastorais para o futuro, começou a ser discutido esta terça feira no Conselho Presbiteral.

Das  respostas obtidas, de um universo de 16 ouvidorias, 11 serviços pastorais e seis comissões diocesanas,  o destaque vai para a constatação de que a diocese tem “um contexto muito diversificado” que varia “de ilha para ilha e dentro da própria ilha”, sendo que as zonas mais rurais “mantêm uma maior vitalidade espiritual e religiosa e mantêm melhor os costumes e tradições”.

O documento, no que respeita à avaliação geral sobre a situação da diocese, aponta para uma situação transversal a outras realidades diocesanas como “uma vitalidade sacramental sazonal”, isto é, “com um abandono progressivo da vida comunitária após o sacramento do Crisma”; uma forte “religiosidade popular” que precisa “de um maior acompanhamento pastoral”; uma necessidade da igreja atualizar a sua linguagem  aos tempos de hoje e a necessidade da Igreja sair de uma pastoral de manutenção.

O documento destaca a vitalidade dos movimentos e obras do apostolado que criam uma vivência religiosa e demonstram caridade”, destacando-se “os frutos” da catequese familiar, nalguns lugares e a formação de animadores. Também a Pastoral Social “progrediu” tal como os centros sociais e paroquiais “onde se vive o voluntariado com ótimo espírito”.

O documento que aponta para a necessidade “de uma análise mais detalhada no que respeita à religiosidade popular e no que se refere à harmonização entre a piedade popular e a liturgia” vai na linha da ação do Papa Francisco que tem procurado identificar alguns dos problemas que afetam a Igreja, revelando um programa de ação que se centra no encontro e nas respostas da Igreja aos problemas atuais.

Do diagnóstico feito, conclui-se também que há uma necessidade de formação dos fieis, com um acompanhamento pastoral “sério” que coloca como uma prioridade a criação de uma “escola de cultura católica ou centro de formação para leigos”, a quem se tem de pedir um “compromisso mais consistente”. Ainda assim, o documento de trabalho aponta para a existência de “boas iniciativas formativas” ao nível dos movimentos eclesiais como os Cursilhos de Cristandade, a Legião de Maria, a formação de catequistas, a pastoral da saúde e a social, entre muitas outras iniciativas e uma “ação laical grande e generosa”.

Entre os problemas diagnosticados, a identificação foi feita ao nível eclesial e social.

No primeiro caso, aponta-se para a necessidade de uma presença mais “real e eficaz da igreja no mundo açoriano”; a necessidade de se incentivar “as famílias a rezarem juntas”; uma aposta na pastoral vocacional e a urgência da igreja em denunciar de uma forma “mais corajosa” e anunciar, por outro lado, de uma forma mais “clara”, entre outros.

O Clero também não fica de fora desta análise referindo-se a necessidade de “uma maior formação sacerdotal a nível humano, social e pastoral”, reforçando-se a ideia da utilidade da “gestão in solidum” para que as experiências resultem efetivamente. O documento insiste numa temática que já foi abordada no último Conselho Presbiteral e que se prende com a necessidade de  “um efetivo acompanhamento “ dos presbíteros mais novos e a vantagem na estabilização do movimento anual de sacerdotes, evitando-se “mudanças bruscas e sistemáticas”.

Já a nível social o retrato diocesano não poderia ser mais claro: “pobreza generalizada, fome e desemprego”; famílias “desestruturadas”; “envelhecimento da população” e “desmotivação social e política” que leva a “défices” de cidadania.

A apresentação do primeiro ponto deste instrumento de trabalho foi feita pelo reitor do Seminário de Angra, Cónego Hélder Miranda Alexandre, que é também membro do secretariado permanente do Conselho Presbiteral que compilou as opiniões das 15 entidades que responderam por escrito ao desafio da diocese, na sequência da deliberação do último Conselho Presbiteral.

Apesar das “dificuldades” e de “muitos aspetos negativos”, a maioria dos conselheiros destacou a necessidade de se conhecer “verdadeiramente a realidade” para poder “responder de forma mais adequada”.

Os trabalhos desta tarde foram presididos já pelo Bispo de Angra.

D. António de Sousa Braga classificou este instrumento de trabalho como “muito interessante”, que pode “ajudar a explicitar a realidade do arquipélago ajudando a definição das linhas pastorais futuras”.

“Seria muito interessante que a diocese pudesse ter um programa de pastoral para além das orientações anuais e isso pressupõe um conhecimento profundo da nossa realidade”, disse o prelado.

“É uma graça vivermos estes tempos desafiantes em que somos instados a sair em missão ao encontro das periferias e isto não é mais do que ir ao encontro das pessoas o que é verdadeiramente extraordinário”, concluiu.

A discussão do instrumento de trabalho prossegue esta quarta feira, altura em que será inaugurado formalmente o Centro Pastoral Pio XII.