Pelo padre José Júlio Rocha

Quando, no início de outubro de 1992, cheguei pela primeira vez a Itália, o país estava em choque. Não se falava de outra coisa. O crime mais famoso da história da Máfia italiana tinha sido perpetrado havia pouco mais de quatro meses. Tratava-se do assassinato brutal do juiz anti-máfia Giovanni Falcone. Hoje, trinta anos depois da “Tragédia de Capaci”, há muitos italianos que consideram esse acontecimento de alguma maneira semelhante ao impacto da catástrofe das Torres Gémeas nos Estados Unidos. Falcone, junto com o eterno colega Borselino, representavam a esperança da Itália contra o impressionante poder que a Máfia siciliana, a “Cosa Nostra”, exercia nos conturbados anos setenta e oitenta.

Aos 24 anos eu percebia pouco mais do que nada. Foi então que um colega meu, do sul de Itália, me explicou em palavras simples como funcionava a “Cosa Nostra”. “Decides abrir um café na tua pequena cidade. Tratas de todas as formalidades e inauguras o estabelecimento. Um mês ou dois mais tarde, alguém te aparece ao balcão e pergunta se precisas de segurança para o café. Inocentemente, dizes que não. Um mês depois aparece-te a montra do café partida e a caixa arrombada. Fazes queixa. Nada. Algum tempo depois aparece-te outro alguém a perguntar se não precisas mesmo de segurança. Já sabes que é a “Cosa Nostra”. Dizes que não e fazes queixa à polícia. Nada. Um mês, dois três… e deflagra-se um incêndio no teu café. Fazes queixa. Nada. Mais tarde, aparece-te alguém a perguntar como é que estão os teus filhos. E tu, então, tens duas hipóteses: ou fechas a porta ou começas a pagar o “pizzo” à Máfia.” Foi o que me contou o colega.

Naquele tempo, 80% das empreitadas da construção civil na Sicília estavam nas mãos da Máfia. As famílias mafiosas dominavam o espetro social e o silêncio, a “omertà”, reinava naquele povo acostumado a invasões e a guerras surdas. A Máfia mudara muito com o negócio da droga, da construção, do tabaco, etc. Tornara-se demasiado opulenta e os crimes dispararam entre as famílias e os padrinhos. Começaram a morrer mulheres e crianças, coisa que até aí era abominável entre os homens de honra, “uomini d’onore”, que faziam juramento de sangue diante de um ícone da Virgem Maria, de serem para sempre fiéis à Máfia e à honra. Havia honra dentro do crime. Quando a honra acabou – por causa da eterna superabundância do dinheiro – não poucos mafiosos abandonaram a organização, declarando-se “pentiti”, arrependidos, e decidiram colaborar com a justiça.

É então que aparece o juiz sem medo, Giovanni Falcone. A partir do momento em que fosse juiz procurador de Palermo, sabia que o seu destino estava traçado: viver o resto da sua vida numa prisão dourada, habitando em “bunkers”, viajando eternamente sob escolta, ele, a mulher e os filhos. Liberdade, nunca mais. Falcone começa a ter sucesso com a colaboração de Tommaso Buscheta, o padrinho da Máfia siciliana que, horrorizado com os hediondos crimes da organização, decide colaborar com a justiça. Fez mais do que uma plástica para ficar irreconhecível, passando a viver entre o Brasil e os Estados Unidos, e viajando até Itália para se encontrar com Falcone.

A Máfia siciliana começou a tremer. Centenas de mafiosos começam a ser investigados e presos, Giovanni Falcone é o inimigo a abater. Toda a Máfia siciliana se une em volta de um inimigo comum. Mas esse inimigo comum é uma das personagens mais amadas da Itália. O sucesso das operações da dupla Falcone-Borselino cria um ambiente de esperança em toda a Itália, especialmente na Sicília, cujas praças, ruas e caminhos cheiravam a sangue.

A 23 de maio de 1992 Giovanni Falcone está em Roma numa importante reunião. Regressa a Palermo num avião particular, que Falcone não podia viajar em linhas comerciais. Chega a Palermo e estão à sua espera três Fiat blindados, dois de escolta e o do meio, que transporta Falcone e a Esposa. Punta Raisi é o aeroporto principal da Sicília, situado a uns trinta quilómetros a oeste de Palermo. A caravana arranca a alta velocidade, mas o destino estava traçado. Meia tonelada de TNT foi o suficiente para mandar ao ar cem metros de autoestrada, na zona de Capaci. Nesse 23 de maio morria Giovanni Falcone, a sua esposa e mais três guarda-costas. Muitos dizem que com a conivência do Governo. A paz dos homens é uma podridão. E o Governo terá negociado com a Máfia a cabeça de Falcone em troca de alguma paz concedida pela Máfia.

O resultado foi uma convulsão na Itália sem precedentes: rolaram cabeças, começou o célebre “maxiprocesso” em que foram encarcerados centenas de mafiosos, incluindo o super padrinho Toto Riina, cara de pedreiro pobre, mandante do assassinato do juiz. A democracia italiana treme, em consequência, com o grande processo “Mãos Limpas” que levou à destruição da poderosa Democracia Cristã e à prisão de centenas de políticos e governantes.

Quatro bombas, detonadas no verão de 1993, em Milão e em Roma, frenaram os ânimos: a Máfia avisava Governo e povo que não mexessem muito com ela ou as bombas iam virar a Itália de pernas para o ar. Nada há de mais belo para a Máfia do que o silêncio e a calma.

É como a Itália está hoje.

 

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.