O presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização apresentou hoje a mensagem do Papa Francisco para o IV Dia Mundial dos Pobres e destacou o trabalho de muitos cristãos na ajuda aos mais “necessitados”.

“O Papa Francisco não tem medo de identificar essas pessoas como verdadeiros santos, ‘santos da porta ao lado’, que, com simplicidade, sem barulho e publicidade, oferecem o genuíno testemunho do amor cristão”, afirmou D. Rino Fisichella, durante a conferência de imprensa que decorreu à porta fechada e via streaming devido às restrições impostas pela pandemia do Covid-19.

A mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, celebrada a 15 de novembro, tem por título «Estende a tua mão ao pobre» e cruza-se, segundo o responsável, “com o momento de crise que a humanidade está a viver com a pandemia do Covid-19, em que aumentam os pedidos de ajuda”.

“Será nossa tarefa, portanto, fazer com que não falte aos numerosos pobres que encontramos, os sinais quotidianos que acompanham a nossa ação pastoral”, destacou D. Rino Fisichella, enunciando os gestos do Papa a favor dos mais necessitados, como a criação do fundo «Jesus Divino Trabalhador», para ajudar 1800 famílias.

O responsável fez ainda notar o exemplo de “mãos estendidas” por parte de médicos, enfermeiros, voluntários, sacerdotes que vão ao encontro dos doentes e que contrastam com as que ficam no bolso de quem só pensa em acumular riquezas em detrimento dos outros, enunciados na mensagem.

D. Rino Fisichella afirmou serem palavras “duras” que mostram a ausência de responsabilidade que o mundo vive.

O Papa Francisco publicou este sábado a mensagem escrita para o IV Dia Mundial dos Pobres, onde afirmou que o imperativo «Estende a tua mão ao pobre» é “condição da autenticidade da fé” professada.

“Manter o olhar voltado para o pobre é difícil, mas tão necessário para imprimir a justa direção à nossa vida pessoal e social. Não se trata de gastar muitas palavras, mas antes de comprometer concretamente a vida, impelidos pela caridade divina. Todos os anos, com o Dia Mundial dos Pobres, volto a esta realidade fundamental para a vida da Igreja, porque os pobres estão e sempre estarão connosco para nos ajudar a acolher a companhia de Cristo na existência do dia a dia”, escreveu Francisco numa mensagem divulgada hoje pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

Indica o Papa que o encontro com uma pessoa em condições de pobreza não pode parar de “provocar e questionar”: “Como podemos contribuir para eliminar ou pelo menos aliviar a sua marginalização e o seu sofrimento? Como podemos ajudá-la na sua pobreza espiritual?”

Desde 2017 que Francisco quer colocar a pessoa em situação de pobreza no centro do agir da Igreja e este ano a mensagem para a celebração no dia 15 de novembro, está envolva no contexto da pandemia do Covid-19.

«Não fujas dos que choram», «Estende a tua mão ao pobre», «não sejas preguiçoso em visitar um doente», são ações retiradas do livro de Ben-Sirá, que inspira a mensagem, e que colocam em confronto as atitudes que a pandemia do Covid-149 retiraram.

“O período da pandemia constrangeu-nos a um isolamento forçado, impedindo-nos até de poder consolar e estar junto de amigos e conhecidos atribulados com a perda dos seus entes queridos. Experimentamos a impossibilidade de estar junto de quem sofre e, ao mesmo tempo, tomamos consciência da fragilidade da nossa existência”, indicou.

Mas se os meses anteriores foram de dificuldade, mostraram também, evidencia Francisco, que “estender a mão é um sinal que apela imediatamente à proximidade, à solidariedade, ao amor” e que, apesar da “malvadez e a violência, a prepotência e a corrupção”, a vida está “tecida por atos de respeito e generosidade que não só compensam o mal, mas impelem a ultrapassá-lo permanecendo cheios de esperança”.

“Nestes meses, em que o mundo inteiro foi dominado por um vírus que trouxe dor e morte, desconforto e perplexidade, pudemos ver tantas mãos estendidas! A mão estendida do médico que se preocupa de cada paciente, procurando encontrar o remédio certo. A mão estendida da enfermeira e do enfermeiro que permanece, muito para além dos seus horários de trabalho, a cuidar dos doentes. A mão estendida de quem trabalha na administração e providencia os meios para salvar o maior número possível de vidas. A mão estendida do farmacêutico exposto a inúmeros pedidos num arriscado contacto com as pessoas. A mão estendida do sacerdote que, com o coração partido, continua a abençoar. A mão estendida do voluntário que socorre quem mora na rua e a quantos, embora possuindo um teto, não têm nada para comer. A mão estendida de homens e mulheres que trabalham para prestar serviços essenciais e segurança. E poderíamos enumerar ainda outras mãos estendidas, até compor uma ladainha de obras de bem. Todas estas mãos desafiaram o contágio e o medo, a fim de dar apoio e consolação”, escreve.

O Papa Francisco afirma que a Igreja “não tem soluções globais a propor”, mas necessita oferecer “o seu testemunho e gestos de partilha”, sentindo-se “obrigada” a evidenciar os pedidos de “quantos não têm o necessário para viver”, lembrando, assim, que “o grande valor do bem comum é, para o povo cristão, um compromisso vital, que se concretiza na tentativa de não esquecer nenhum daqueles cuja humanidade é violada nas suas necessidades fundamentais”.

Lamenta o Papa que as “graves crises económicas, financeiras e políticas não cessarão” enquanto o mundo permitir que “permaneça em letargo a responsabilidade que cada um deve sentir para com o próximo e toda a pessoa”: “«Estende a mão ao pobre» é, pois, um convite à responsabilidade, sob forma de empenho direto, de quem se sente parte do mesmo destino. É um encorajamento a assumir os pesos dos mais vulneráveis”.

A generosidade de apoiar “o vulnerável”, consolar o aflito, “mitigar sofrimentos”, “devolve dignidade a quem dela está privado, é condição para uma vida plenamente humana”, que “não pode estar condicionada pelo tempo disponível ou por interesses privados, nem por projetos pastorais ou sociais desencarnados”.

“Não se pode sufocar a força da graça de Deus pela tendência narcisista de se colocar sempre a si mesmo no primeiro lugar”, sublinha.

O Papa Francisco critica, em contraste com o “estender a mão ao pobre”, quem “conserva as mãos nos bolsos e não se deixa comover pela pobreza, da qual frequentemente é cúmplice”.

“Existem mãos estendidas para premir rapidamente o teclado de um computador e deslocar somas de dinheiro duma parte do mundo para outra, decretando a riqueza de restritas oligarquias e a miséria de multidões ou a falência de nações inteiras. Há mãos estendidas a acumular dinheiro com a venda de armas que outras mãos, incluindo mãos de crianças, utilizarão para semear morte e pobreza. Existem mãos estendidas que, na sombra, trocam doses de morte para se enriquecer e viver no luxo e num efémero desregramento. Existem mãos estendidas que às escondidas trocam favores ilegais para um lucro fácil e corrupto. E há também mãos estendidas que, numa hipócrita respeitabilidade, estabelecem leis que eles mesmos não observam”, escreve.

Sublinha Francisco que a comunidade cristã tem de ser chamada a “co envolver-se na experiência de partilha, ciente de que não é lícito delegá-la a outros”.

“Não poderemos ser felizes enquanto estas mãos que semeiam morte não forem transformadas em instrumentos de justiça e paz para o mundo inteiro. Não podemos sentir-nos tranquilos, quando um membro da família humana é relegado para a retaguarda, reduzindo-se a uma sombra. O clamor silencioso de tantos pobres deve encontrar o povo de Deus na vanguarda, sempre e em toda parte, para lhes dar voz, defendê-los e solidarizar-se com eles face a tanta hipocrisia e tantas promessas não cumpridas, e para os convidar a participar na vida da comunidade”, indica.

O Papa afirma que oração e solidariedade com os “pobres e enfermos” são “inseparáveis” e que para celebrar “um culto agradável a Deus”, “é preciso reconhecer que toda a pessoa, mesmo a mais indigente e desprezada, traz gravada em si mesma a imagem de Deus”.

“O objetivo de cada ação nossa só pode ser o amor: tal é o objetivo para onde caminhamos, e nada deve distrair-nos dele. Este amor é partilha, dedicação e serviço, mas começa pela descoberta de que primeiro fomos nós amados e despertados para o amor”, escreve.

(Com Ecclesia)