Por Carmo Rodeia

O caminho tem sido feito, mas ainda há muita estrada para andar.

A pandemia, que ainda não nos deixou, e a guerra que perdura, de forma absolutamente incompreensível, vieram lançar-nos novos desafios comunicacionais a que a Igreja não se pode alhear.

Perguntarão a esta altura ao que venho; a resposta é simples: a mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinala no próximo dia 29.

Na mensagem para este dia, o Papa propõe-nos a escuta como “condição de autêntico diálogo” e desafia-nos a fazê-lo com “o ouvido do coração”, recuperando a Regra de São Bento.

Mas em que é que nos poderá ajudar este conselho, com mais de 1500 anos, quando vivemos num mundo e numa cultura em que somos constantemente bombardeados por palavras, que inundam o nosso quotidiano, a uma velocidade tal que nem tempo temos por vezes para as decifrar, quanto mais meditar. No ruído da palavra, se enrolarmos mais uma da Igreja, será apenas isso: mais uma. O desafio é tornar esta palavra única.

A proposta do Papa aos jornalistas e comunicadores, para este ano, vem numa sequência lógica. Depois de nos ter convidado a “ir e ver”, nem que para isso tivéssemos de “gastar solas de sapatos”, o Papa lembra que a escuta é condição de uma boa comunicação .

Em tempo de desafio à prática da sinodalidade na Igreja Católica o tema da não podia ser mais oportuno: “uma grande ocasião de escuta recíproca entre irmãos e irmãs”, foi o que indicou o Papa.

A mensagem dirigida sobretudo aos profissionais da comunicação começa por reconhecer que existe, nos nossos dias, uma incapacidade para ouvir, mesmo dentro da Igreja- “é preciso escutar várias vozes”-, fazendo uma destrinça entre “ouvir” e “escutar”. Não se trata de semântica; é mesmo uma diferença qualitativa.

Como diz S. Paulo, “a fé vem da escuta” do “Deus que nos fala” e que parece privilegiar o ouvido. “Talvez por ser menos invasivo, mais discreto do que a vista, deixando consequentemente mais livre o ser humano”, avança o Papa.

“Só prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos e ao modo como ouvimos é que podemos crescer na arte de comunicar, cujo cerne não é uma teoria nem uma técnica, mas a ‘capacidade do coração que torna possível a proximidade’”, sustenta a mensagem.

Francisco refere as dificuldades da escuta, nomeadamente quando há uma “surdez interior” e critica a “tentação sempre presente, mas que, neste tempo das redes sociais, parece mais assanhada (…) de procurar saber e espiar [os outros], instrumentalizando-os para os nossos interesses”.

Francisco alerta para a “preciosidade” que é a capacidade de escuta “neste tempo ferido pela longa pandemia”, em que surgiu uma espécie de “info-demia” que mina as bases da informação verdadeira e de interesse público.

“É preciso inclinar o ouvido e escutar em profundidade, sobretudo o mal-estar social agravado pelo abrandamento ou cessação de muitas atividades económicas”, alerta.

“Na realidade, em muitos diálogos, efetivamente não comunicamos; estamos simplesmente à espera que o outro acabe de falar para impor o nosso ponto de vista”, diz ainda o Papa.

Regresso à Regra de São Bento e ao texto do Prólogo: «Escuta, ó filho, os ensinamentos do mestre e estende-lhes o ouvido do teu coração». Quanto mais palavras bombardeiam a nossa escuta, menos estamos atentos a apreciar atentamente o seu significado, impacto ou poder.

Padeceremos todos de algumas lacunas que a vida monástica exige e recomenda, para estarmos longe do que aconselha São Bento?

Julgo que não precisaremos de ir tão longe na radicalidade da entrega a uma boa comunicação.

Poucas palavras, bem ditas, podem porventura tocar o coração e erguer o espírito humano, transformando a mente e dando uma direção nas opções de vida, em ordem a frutos maiores.

Estão os meios de comunicação social disponíveis para isso? Estaremos nós, que trabalhamos na comunicação da Igreja, abertos a isso?

Frequentemente queixamo-nos, sobretudo dos outros. Por desconforto, medo ou insegurança.

Este fim de semana estive na Festa do Senhor Santo Cristo, em Ponta Delgada. Ouvi e entrevistei o presidente da festa o cardeal madeirense D. José Tolentino Mendonça. Numa belíssima entrevista publicada em três andamentos no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura à pergunta “de que forma falaria hoje Jesus da nossa sociedade?”, respondeu: “Jesus levar-nos-ia de novo para a beira do lago, ao deserto, ao rio Jordão. Entraria nas nossas casas e falaria uma palavra que nos tocaria e comoveria o coração. A sua palavra é sempre alternativa. A voz de Jesus não é mais uma. Não é uma voz que nos confirma, que diz “está tudo bem”, mas é uma voz que não se conforma. Jesus é um inconformista e por isso leva-nos sempre para a margem. A palavra e a experiência cristã deslocam-nos para fora do rebanho, para fora das nossas certezas e daquilo que está estabelecido. Ou então é uma palavra que nos leva para dentro, nos reaproxima, estabelece connosco de novo uma intimidade. E aí, Jesus é capaz de tocar por dentro o nosso coração”.

Às vezes, fico com a sensação de que nos falta “agenda” para comunicar. Como na vida: se é pobre, também será pobre a nossa comunicação.

“Escutar com o coração” é, sobretudo, estar sempre disponível para a pergunta mesmo quando não se pode dar a resposta; é criar relação; é ser próximo; é ser disponível; é ser verdadeiro mesmo que nada se possa dizer.

Lembro-me de uma vez ter ouvido o padre António Spadaro a dizer: “O bom samaritano não é um jornalista, mas é próximo, ele toca o outro. O samaritano é a verdadeira imagem dos comunicadores”.

Escutar com o coração é contar uma história, com verdade. E se não a soubermos contar nós, dá-la a outro para a contar.