Pelo padre José Júlio Rocha

Embati pela primeira vez em Dostoievski aos 24 anos, quando, em Roma, estudava, numa cadeira chamada “A procura de Deus na Literatura Contemporânea.” E fiquei de tal modo viciado na sua escrita que não tive dúvidas em escolher o autor russo para a minha tese de mestrado, a “tesina”, como se dizia em Itália.

2021 é definitivamente o ano de Fiódor Mikhailovitch Dostoievski, uma vez que ele nasceu a 11 de novembro de 1821 (há 200 anos), e veio a falecer a 9 de fevereiro de 1881 (há 140 anos).

Ler Dostoievski é entrar num mundo fantástico e poderoso onde a alma humana é esquadrinhada até ao limite da sua profundidade; é enfrentar o universo perturbador dos humilhados e ofendidos, dos pobres e miseráveis que, pela primeira vez na história da literatura, ascendem ao título de personagens principais; é penetrar no tempo conturbado do século XIX, época da crise da razão, da tentação do anarquismo, da crise da fé, do niilismo. Não admira que Dostoievski tenha sido fonte de inspiração para quase todos os intelectuais desde esse tempo até agora, desde os mais refinados ateus até aos teólogos mais confessos, desde Freud a Romano Guardini, de Nietzsche a Henry de Lubac. Ninguém, na literatura, influenciou tanto o pensamento moderno como Dostoievski.

Os seus romances, teatrais e polifónicos, estão cheios das personagens mais díspares, personagens profundas, na constante luta entre o bem e o mal, personagens que, parece, se livram do próprio narrador e correm livres pelo romance fora. Dá a ideia de que não é o narrador que conduz a história, mas são as personagens que arrastam o narrador para onde elas querem e o narrador, às tantas, nem sabe como vai acabar o romance.

Uma das características que mais me impressiona em Dostoievski é a sua paixão única por Jesus, a tal ponto de alguém o ter chamado o maior teólogo de todos os escritores e o maior escritor de todos os teólogos.

Para iluminar essa ideia, trago à cena apenas um capítulo, tirado do monstruoso romance “Os Irmãos Karamázov”, intitulado “O Grande Inquisidor”. É uma história dentro da história, contada pelo ateu Ivan ao seu irmão Aliosha, seminarista puro e crente.

A história é a seguinte: no século XVI Jesus volta à terra, e aparece numa praça ensolarada de Sevilha, em plena época da Inquisição espanhola. Faz um milagre e as pessoas começam a rodeá-lo, a segui-lo. Mas o Grande Inquisidor (alusão a Torquemada) aparece e, receando aglomerados, aproxima-se e ordena a todos que vão para suas casas. A multidão obedece sem uma palavra, submissa, medrosa e humilde, enquanto o Inquisidor, reconhecendo Jesus, o manda encarcerar e ameaça queimá-lo na fogueira no dia seguinte. Durante o conto, Jesus não diz uma única palavra. Pela calada da noite, o Inquisidor visita a cela onde se encontra Jesus. É então que assistimos a um dos mais formidáveis discursos da literatura mundial. Centrando-se nas tentações de Jesus no deserto, o Inquisidor acusa Jesus de não ter obedecido ao Demónio. Porque não transformou as pedras em pão? O homem é fraco e prefere mil vezes o pão à liberdade. Em vez de pão para comer, Jesus preferiu que o seguissem em liberdade, essa terrível liberdade que assusta como um abismo. Porque não se atirou do pináculo do Templo? O espetáculo do milagre faria com que o homem fraco o seguisse para todo o lado e, em vez disso, Jesus preferiu que o seguissem pela fé. Para o Inquisidor, o homem segue o milagre e não a fé. Porque não aceitou a proposta do Diabo de se apoderar de todos os reinos da Terra? Em vez do poder, Jesus preferiu o amor. Mais um erro: as multidões querem-se sujeitas, amordaçadas, o homem não foi feito para o amor mas para a obediência. Só eles – o Inquisidor e os seus aliados – é que perceberam o verdadeiro pó de que é feita a humanidade e estão lá, no poder, para corrigir os erros de Jesus: pão, milagres, obediência, em vez de liberdade, fé e amor. O Inquisidor é um niilista: não acredita na humanidade, não acredita em Deus, não acredita na vida eterna. Ele considera-se, junto com os seus, o verdadeiro herói, a vítima, que sabe estar perante o nada, mas que tem o dever de conduzir a cristandade, mantendo-a no erro, para que ela não se depare com o espetáculo medonho do nada, porque, se o homem descobre que o que o espera é o nada, as convulsões pelo mundo fora serão inimagináveis.

Durante todo o conto, e perante o silêncio de Jesus, ficamos com a impressão de que o Inquisidor faz um discurso perfeito, desesperado, sem mácula, ficamos tentados a acreditar nele, parece ter toda a razão, mas é o próprio Inquisidor que não acredita no próprio discurso, quer ser contrariado, quer ser derrotado, quer uma resposta de Jesus e recebe um beijo, um simples beijo que lhe deixa o coração queimado, abandonando a cela, que fica aberta.

Aconselho vivamente a ler esta passagem de Dostoievski e, assim, a compreender a impressionante contemporaneidade do autor russo. É que o Grande Inquisidor representa todos os poderes tirânicos à face da terra, todas as ditaduras, todos os extremismos, mesmo os que, atualmente, vão crescendo no mundo, na Europa, em Portugal. Quando os homens veneram líderes “messiânicos”, obedecem cegamente, como se eles fossem a verdade, em vez de seguirem ideias e construírem democracia, estão a preferir o pão à liberdade, o milagre à fé, a obediência cega ao amor.

Dostoievski foi um profeta: todos os extremismos são niilistas.

*Este texto foi publicado na edição desta sexta feira, no Diário Insular na rubrica Rua do Palácio