Por Renato Moura

Actualmente os homens que jogam a bola são comprados e vendidos, como se fossem máquinas. Os donos dos clubes adquirem para produzir espectáculo desportivo. Não fossem os chorudos ordenados e lembraria a velha escravatura.

Antes, nos espectáculos desportivos, todos os adeptos – homens, mulheres e crianças – conviviam na assistência. Hoje montam-se corredores guardados por polícias armados para enquadrar claques da equipa visitante e metê-los em “caixas de segurança”; como “enjaulados” para não agredirem nem serem agredidos; só saindo com o terreno “limpo” de adversários e acompanhados da polícia. E às vezes “chovem” pedras sobre autocarros!

Nos programas televisivos, destinados à apreciação dos jogos, os comentadores dos clubes, salvo raras e honrosas excepções, impingem cenas de agressividade violenta e virulenta, tantas vezes valorizando e ampliando declarações explosivas e incendiárias de muitos dirigentes, treinadores e direcções de comunicação clubistas. Até há jornalistas a louvar o desrespeito pelas leis do jogo, se “a falta é necessária e útil”!

“Amor à camisola”? Não, dinheiro. E até violência das claques contra os seus!

Apupam-se os jogadores adversários se antes eram da “casa”, recorrendo ao vil insulto para os enervar, desorientar e anular. Quando se via o Guimarães-Porto, pareceu ser isso que se fazia ao Marega, depois de ter marcado à sua anterior equipa e festejado; e sabe-se que a exuberância incita. Percebeu-se que Marega acabou vítima de um deplorável e criminoso acto de racismo. Que antes do mais é uma desumanidade. E desumanas são também as situações acima referidas, partilhadas para reflexão.

A desumanidade vulgariza-se: para a tornar normal e aceitável. Veja-se como se “normalizou” o aborto e agora a eutanásia é aludida solução de “vida”!

Marega marcou o “golo” da sua vida: sobressaltou políticos, alvoraçou instituições, excitou comentadores, agitou a sociedade; e até inquietou os que antes consideraram que a desvalorização ajudava a defender.

Mas os títulos de jornais pelo mundo fora e o alvoroço interno não condizem com um estudo da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), publicado em Dezembro de 2018, que concluiu que Portugal, com 2%, é, entre doze, o país com menor violência motivada pelo racismo.

É indiscutível que a dignidade humana deve ser revalorizada; o racismo deve ser combatido. Tudo por exigência das pessoas e acção do Estado. Com inteligência e eficácia. Cuidando de não extremar posições. Com a colaboração das vítimas também.