Pelo Pe Teodoro Medeiros

Mais duas, a juntar a tantas adaptações para imagem em movimento da vida de Jesus. O primeiro caso é o recente “Ressurreição”, saído nas salas nesta Páscoa de 2016. Um filme escorreito, moderno, feito para as massas mas com um ponto de interesse forte: a história não se centra em Jesus, centra-se num pagão. Quem? O centurião que estava aos pés da cruz.

Também os irmãos Coen o fazem no “Salve César”; mas aí pouco se fala de religião e muito se satiriza o mundo de hoje (sim, a crítica ao comunismo “totó” quase que é o melhor do filme). E o centurião (o de “Ressurreição”, não o de “César”) é encarregado de impedir que o cadáver do Nazareno seja roubado. Desde aqui, logo um pequeno problema: os discípulos de Jesus estavam, naquela altura, de tal maneira desmoralizados que nem sequer acreditaram quando viram o Ressureto. Pouco provável que tivessem a iniciativa de arrastar o corpo fosse para onde fosse.

Esse dado que credibiliza historiograficamente a fé cristã (falamos dos Evangelhos como história, ainda que não simples biografia), não abona ao filme. Mas que importa? Trata-se de ficção e nada mais. Para o observador que seja meio-exigente, a falha maior é mesmo outra: é o próprio Jesus! Quem quiser usar o filme para catequese ou reflexão deverá suprir as deficiências, a falta de carisma deste Jesus. Porquê? Porque ele não diz nada. Ou seja, ele até fala, só que não diz nada de jeito (pois, tão ocupado está com sorrir e abraçar que se fica por aí). É um Cristo “sorrido” e isso é bom mas… mais nada?

“Su Re”, 2012. Filme diferente. Representa a história de Jesus entre o antigo e os nossos dias. Baseia-se nos Evangelhos mas desvia-se deles, com gosto e bom efeito, aqui e ali. Recupera a opção de Pasolini, de atores não profissionais: caras rudes, barbas cerradas, feições feias. Só por aí já aplausos merecidos; não estamos já fartos de olhos azuis e cabelos loiros? “Su Re” é filmado quase como se fosse um documentário, a câmara treme e tudo. Os personagens secundários são fortes no seu retrato de sofrimento.

Há um sentido de realismo, até de familiaridade que nenhum outro filme conseguiu com Jesus. Ele aparece como filho de mulher, como homem da aldeia que é julgado na sua aldeia; uns concordam, outros não. Vê-se a discussão, vê-se a dor de quem é atingido. Aqui sim, vê-se o homem além do mito, antes do mito, e isso é muito fresco. Um pequeno problema, o mesmo do “Ressurreição”; este Jesus quase não fala, quase não tem carisma nenhum. O documentário só “apanhou” momentos em que ele não tem nada a dizer. E é pena.

“O coração do Assassino” de 2013. O filme mencionado, de raspão, na crónica anterior. Em resumo, um jovem hindu radical é levado a assassinar brutalmente uma irmã religiosa católica. Depois, acaba por ser perdoado e “adotado” pela família dessa irmã, como filho e irmão. Trata-se de um verdadeiro documentário de 56 minutos; não segue uma narrativa de atores e história a decorrer (à parte pequenas encenações). A realidade supera a ficção quando é mais rica do que esta, quando põe perante os olhos o inaudito, o inaceitável, o inconcebível, o milagre.

E é aqui que Jesus ressuscita e fala. Não aparece no filme mas está lá, em força. Quando se vê aquela mãe, sem rancor, acolher no seu seio o abominável: este é que é o Jesus

autêntico, o que tem algo a dizer. Aí Ele pode ser visto com olhos que não pestanejam se nós não quisermos. Não apenas está vivo; como também está a dar-nos a sua medula óssea, dador universal, receita para todas as situações, é compatível até com um hindu.

Amém cinema.