Pelo padre José Júlio Rocha

Chamava-se Marcello e vinha do sul. Tinha um rosto quase selvagem, quase duro, não fossem os olhos pequenos e brilhantes, que contrastavam com o resto duro da cara, e lhe davam uma expressão de um cómico sério, tais eram as vezes em que não sabíamos se eram os olhos que estavam a brincar ou a boca a falar a sério.

Vinha do sul acidentado das montanhas da Basilicata, naquela imensa baía do sul, que separa o calcanhar da bota, no mapa de Itália. Era um homem das montanhas, acostumado a ovelhas e cabras. Os rostos dos homens da montanha retratam o perfil da própria montanha.

Conheci Marcello em Roma, na universidade, em 1992, tinha eu 24 e ele 26 anos, eu no primeiro ano de sacerdócio, ordenado havia três meses, ele já com o peso de dois anitos de padre. Uma circunstância que nos aproximou foi o futebol, eu portista desde que me lembro de mim, ele adepto ferrenho do Nápoles, ainda a lamber as feridas do vendaval que fora Maradona. Jogávamos futebol de cinco às quartas, num campo perto da universidade, ele à frente, eu à baliza e ele tinha mesmo bom toque de bola.

Por vezes almoçávamos juntos e, num desses almoços, lembro-me que perto de dezembro, ele contou-me a história do seu primeiro Natal como padre. Tinha sido colocado numa pequena e antiga cidadezinha, encavalitada no cimo de uma colina, daquelas cidades que polvilham a Itália de cima a baixo, com cheiro a Idade Média, cinzentas ou ocres, lindas de morrer, sobretudo quando o sol já nasceu ou está a pôr-se. Uma rua principal, a igreja ao fundo e, a ladear, uma cascata de ruelas e casinhas descia a colina com cautela.

Apesar do rosto duro de montanhês, Marcello era um apaixonado: quando era para levar uma empresa a sério, levava-a com o entusiasmo de uma criança feliz. Foi assim que preparou esse Natal de 1990. Organizou uma equipa e preparou com ela a missa da tarde e a missa da meia-noite daquele vinte e quatro de dezembro. Tudo foi preparado ao pormenor. O entusiasmo de um jovem padre no primeiro ano do seu sacerdócio encorajou-o a dar tudo. Queria que os paroquianos não se ficassem por um Natal todo luzes, ofertas, comidas e harmonia familiar. Queria que o Natal fosse uma homenagem a Jesus, uma homenagem de conversão à ternura de um Deus que fora menino e que, por isso, fizera do mundo inteiro uma só família de irmãos.

À tarde, a missa foi para as crianças, da catequese e não só. Encheu-se a igreja de miúdos, cada um com uma prenda para oferecer a outro, todas colocadas ao lado de um presépio lindo e enorme, como é costume por ali. A missa foi uma festa de cânticos ao Menino Jesus, de representações natalícias. Marcello sentia-se pai de toda aquela criançada e, na alegria das crianças, realizou-se profundamente como padre. Apesar de ser novo por ali, a empatia entre ele e o povo ateou-se depressa. Como toda a gente, um padre é feliz quando gostam dele.

A missa da meia-noite, a do galo, foi igualmente bela, mais majestosa, para toda a comunidade, o incenso a cheirar a Oriente, um menino Jesus antigo, precioso, dado a beijar, as palavras do padre novo, a verter entusiasmo, puxando à harmonia em família, apelando ao respeito pelos mais pobres, que, por mais cabazes que se lhes batam à porta, são sempre muito mais pobres no Natal.

Já passava bem da uma da manhã quando Marcello deu a volta ao ferrolho da porta da sacristia da igreja e se dirigiu para o passal, um velho edifício, longe da igreja, daquelas casas grandes, altas e vazias, que nos fazem sentir constipados mal entramos a soleira da porta. Percorreu a rua principal. Ainda as famílias confraternizavam, porque o Natal, por aquelas bandas, dura noite dentro. Marcelo sentiu o calor das festas das famílias por dentro das janelas acesas das casas antigas. Ouviu cânticos, crianças a rir ou a gritar, música, a harmonia do calor que só aquela noite traz.

No entusiasmo daquele dia, nem reparou que se tinha esquecido de si. Não jantara, na azáfama do trabalho e das celebrações. Abriu a porta de casa, atravessou o velho corredor e acendeu a luz pálida da cozinha. Abriu a porta do frigorífico e, lá dentro, tinha um pedaço de queijo duro e uma caixa de leite. Sempre fora meio distraído e desorganizado para as suas coisas. E agora, naquela noite suprema, aquilo. Longe da família, longe de tudo, perto de um pedaço de queijo e meio litro de leite, sentiu aquelas dores de barriga de solidão que acontecem sempre que se cai na real. E chorou. Chorou por tudo, pelo dia magnífico, pela noite brilhante, pelo povo feliz. E por aquilo, por aquele queijo e aquele leite que lhe faziam companhia como um destino, um prenúncio de que ser padre, muitas e muitas vezes, é ter só um pedaço de queijo e uma caixa de leite por companhia.

Os políticos, os padres e os árbitros de futebol têm uma coisa em comum: não nasceram para se falar bem deles. Há uma idiossincrasia que leva a multidão dos homens a olhar para eles e pensar que, dali, normalmente, não vêm coisas boas. Preconceito, mito urbano, generalização, o certo é que os padres são um produto excelente para as anedotas, os ditos brejeiros, o desprezo, o juízo em praça pública ou até o ódio de muito boa gente. Este é o queijo e o leite que nos fazem companhia.

Gostaria, agora mesmo, de abraçar os colegas padres, sobretudo esses muitos que deixaram muitas coisas por um ideal, que levam a sua vida sacerdotal como uma doação, aqueles que dão a mão, que ouvem, abraçam e dão a vida. Aqueles que, como velhos vasos de barro, transportam o tesouro incalculável da Graça, de Jesus Cristo, do amor de Deus.

Queijo e leite são, muitas vezes, a nossa companhia.

E Jesus. Nem é preciso mais.

Paz a todos neste Natal.

*Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira no jornal Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio24