Pelo padre Nuno Pacheco Sousa

Estamos em pleno Tempo Pascal, enquanto somos assolados por esta pandemia, agora de forma mais concreta, perigosa e assustadora. E durante este Tempo que nos é oferecido depois da Páscoa vai-nos sendo relatado a cada domingo uma série de ações dos 11 e demais discípulos e de Jesus que havia ressuscitado. Será curioso repararmos, ainda neste domingo, que os seguidores de Jesus estavam reunidos, e é nesta geografia que o Mestre, que também é amigo, se faz evidenciar uma vez mais. É exatamente o estar juntos que invoca, traz Jesus para o meio deles despoletando assim, não a sua confiança como seria esperado por cada um de nós que espera ver neles um símbolo máximo da audácia, do encorajamento, de traçar um rumo com fé, sem qualquer medo, mas deixando-os trémulos e sem chão, desconfiados, com se fossem meninos com medo de um fantasma ou de alguém que lhes tivesse invadido a casa para fazer mal. Outra curiosidade, que D. António Couto nos faz reparar, é a de que eles não reconhecem Jesus pelo rosto, algo tão caro à filosofia judaica. Ele realmente se havia transfigurado como tinha dito. Eles apenas conseguem reconhecer este Cristo desaparecido pelo mimetismo dos seus gestos genuínos.

Jesus apresenta-se no meio deles a oferecer-lhes aquilo que, nem de perto, nem de longe, eles próprios não conseguiam possuir: a paz. E ela é oferta exatamente naquele tempo em que se vivia e convivia com o amargo sabor a total derrota, a uma desilusão que lhes arruína a vida com um sentimento de se ter sido enganado. Jesus apresenta-se no meio deles e doa-lhes a paz. Uma paz para a comunidade, pessoas, crentes, uma paz espiritual, psicológica, que faz baixar a guarda perante os perigos, ou como diríamos aqui pela nossa Vila, “uma paz d’alma”, que é exatamente, “a paz de Cristo”.

Viver este Tempo Pascal, em concreto aqui na Ilha de São Miguel e ainda mais concretamente em Vila Franca do Campo, é saber que o encontro não se pode dar, e a ressurreição acontece pelos gestos, pela capacidade de amarmos o outro com uma distância desconhecida. O que nos liga e une realmente com a experiência de Páscoa vivida pelos Onze e demais crentes é a incerteza, o medo, a saudade, uma vida que não pode se tornar em festa irresponsavelmente. O que nos é pedido neste tempo é que realmente sejamos vida, sejamos responsáveis, sejamos uma ressurreição concreta e vivida neste 2021. A ressurreição, a Páscoa, terá de ir além do almoço ou jantar, da confraternização, até da celebração conjunta da nossa fé ao redor das mesas da Palavra e do Pão. A ressurreição vê-se despida de ritos e ritmos fundamentais, desde o centro semanal que é a Eucaristia, às Domingas, às coroações, à oração comunitária do terço em cada rua, ao Irró, às procissões aos Enfermos. A experiência que nos pode unir aos discípulos desorientados é a de cuidarmos uns dos outros, de ficarmos em casa, mesmo que seja por medo, e a de nos abstermos de grandes festejos ou reuniões familiares ou convívios de amigos.

Cuidemo-nos!

*Este artigo foi publicado no jornal A Crença. Nuno Pacheco de Sousa é colaborador do Sítio Igreja Açores.