Pelo padre Rui Silva

É tema de conferências, estudos, discussões, artigos, programas de televisão e rádio. “É como pão para a boca”. No café ou no restaurante, no banco do jardim ou na rua, na praia ou no trilho, em casa ou na escola, no hospital ou na igreja, as redes sociais digitais ganham cada vez mais espaço na vida, em detrimento das redes sociais presenciais.

Conectados, a qualquer hora do dia ou da noite, surge sempre um comentário, um like ou um emoji.

Preocupante, é o aparecimento de grupos online (e não só), que em vez de fomentarem o pensamento, a discussão séria e válida e a valorização das ideias e dos ideais de cada um, incitam ao ódio, a humilhações públicas, ao linchamento virtual e até ao julgamento imediato, através de post e de comentários.  Estaremos a perder o respeito pela reputação e integridade do outro?

As redes sociais, em vez de serem utilizadas para o bem, fazendo delas um espaço livre para a liberdade equilibrada e responsável, são usadas como produtos tóxicos que minam a convivência e o bom senso. Recentemente um perito em psicologia, dizia que as redes sociais, frequentemente distorcem e corroem a convivência.

Assim, surge uma nova hipocrisia. A hipocrisia digital, que quer fazer acreditar que a “cavilha de uma granada é um anel da moda”. Infelizmente, o outro é um alvo a abater. Em vez de conversadores do bem, espalham veneno nas novas arenas digitais.

Em vez de criar laços, desejar o encontro e o reencontro, o ecrã e o teclado transformam-se numa espécie de armadura, alimentando o insulto, o gozo e o escárnio. Perde-se, a cada dia que passa, um certo civismo que deveria existir na troca afável de ideias e de respeito mútuo.

Impõe-se uma tarefa difícil: distinguir entre a censura digital e a liberdade de expressão. É notória a desumanização nas redes sociais e o crescente número dos infalíveis “conhecedores e detentores” das verdades incontestáveis.

Nunca houve tanta necessidade de uma educação digital para o uso das redes sociais de modo racional.

Escasseia a compreensão, a atenção e a compaixão, como também o respeito, a solidariedade e a inteligência nas redes sociais. Continuará a pandemia a revelar este lado mais sombrio da humanidade? Estaremos a perder a capacidade para aprender a arte da proximidade, do entendimento e da paciência? Terá razão o filósofo inglês, Thomas Hobbes, quando escrevia que “o homem é o lobo do homem”?

* O padre Rui Silva é cronista do sítio Igreja Açores.