O padre Hans Zollner, membro da Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores (CPTM), disse hoje à Agência ECCLESIA que o trabalho da Igreja Católica na resposta aos casos de abusos sexuais exige maior atenção às vítimas.

“Enquanto não fizermos justiça às vítimas do passado, o nosso trabalho de prevenção não será totalmente credível”, referiu o religioso jesuíta, presidente do Centro para a Proteção de Menores, integrado no Instituto de Psicologia da Universidade Pontifícia Gregoriana.

“Este é uma chaga, que temos de assumir, como Igreja, também como sociedade”, acrescentou.

O sacerdote está em Portugal para dirigir várias ações de formação sobre a resposta a eventuais casos de abusos sexuais de membros do clero e instituições católicas e a proteção de menores.

“Estou convencido que deveria ser obrigatório para um bispo, um provincial religioso ou um padre ouvir as vítimas, refletir, rezar com elas”, indicou.

O padre Hans Zollner admite que, em muitos países, ainda não se chegou a uma “verdadeira escuta” das vítimas, a um “verdadeiro diálogo”.

“Tem de ser uma verdadeira escuta e um diálogo contínuo, que exige muito tempo, muita energia”, observa.

Para o responsável do Vaticano, é preciso também evitar um novo abuso, em que “a dor e a ferida” de quem foi abuso sejam “instrumentalizadas” por responsáveis católicos.

A entrevista abordou a nomeação, este ano, de Juan Carlos Cruz, vítima de abusos sexuais, como membro da CPTM; o chileno foi responsável pelas denúncias dos crimes cometidos por Fernando Karadima, expulso do sacerdócio por Francisco em 2018.

Para o padre Zollner, a cimeira de 2019, com representantes dos episcopados de todo o mundo, foi um “passo importante” para toda a Igreja Católica.O presidente do Centro para a Proteção de Menores destaca a importância de ter no Vaticano o contributo de “uma das vítimas mais conhecidas em todo o mundo”.

“Pela primeira vez, foi tomada em consideração a responsabilidade dos bispos, não quando abusam, eles próprios, mas quando são negligentes, obstaculizam ou impedem o que o Direito Canónico prevê” face às acusações, precisou.

motu próprio ‘Vos estis lux mundi’ (2019), assinado pelo Papa Francisco, prevê penas para quem falhe na execução das normas previstas.

“Vimos, ultimamente, uma tomada de consciência e também decisões, bispos que foram demitidos porque obstaculizaram, impediram ou deixaram de executar os procedimentos previstos”, assinalou o padre Zollner.

O objetivo é “investigar quando há denúncias” e “penalizar quando há abusadores”.

É uma prioridade muito clara para o Papa e ele próprio disse que aprendeu muito, nos últimos anos, com a realidade do sofrimento das vítimas”

A Conferência Episcopal Portuguesa vai promover este sábado, em Fátima, um encontro de formação sobre o tema da proteção de menores, orientada pelo padre Zollner.

A iniciativa destina-se a bispos e membros das comissões diocesanas que, nos últimos anos, foram nomeadas para este setor, por determinação do Papa Francisco.

O religioso jesuíta, membro da CPTM desde a sua criação, em 2014, vai falar sobre a ‘proteção de menores e de pessoas vulneráveis como parte integrante da missão da Igreja’ e ‘a missão das comissões diocesanas para a proteção de menores e de pessoas vulneráveis’.

Um trabalho que já o levou a cerca de 70 países, oferecendo formação e procurando passar a mensagem de que “é urgente atuar, implementar o que a Santa Sé prescreve”

O entrevistado fala em “avanços significativos” em países como a França, Irlanda e zonas dos EUA, mas admite que a, nível mundial, há atrasos na implementação das comissões de proteção de menores, por causa da pandemia e de “dificuldades objetivas”, como guerras e catástrofes naturais, mas também por uma “resistência bastante forte” de alguns responsáveis.

O responsável do Vaticano rejeita que a pandemia e a crise económica venham a ser usada como justificação para “cortar recursos” na proteção de menores e destaca que a Igreja está na linha da frente quanto aos programas de salvaguarda e de criação de ambientes seguros, com investimento na seleção e formação do seu pessoal.

“Hoje em dia, em muitas zonas do mundo, as crianças estão mais seguras numa instituição católica do que noutras, porque a Igreja Católica levou muito a sério este trabalho”, aponta.

Nunca podemos excluir totalmente que haja casos, mas podemos fazer muito e a Igreja tem-no feito”.

Esta segunda-feira, o padre Zollner vai falar aos superiores das congregações religiosas em Portugal, numa sessão de formação em Fátima, e na terça-feira encontra-se com o clero de Braga.

“É preciso chegar a um outro nível de compromisso, para lá da letra das diretrizes, da lei: é preciso ter esta missão a peito”, sustenta.

Segundo o responsável, o trabalho de prevenção e de resposta às vítimas de abusos sexuais “faz parte da missão integral e integrante da Igreja”.

“A minha mensagem às pessoas que estão comprometidas neste setor é que fazem um trabalho que não está à margem, não é sujo, não é ‘difícil’. Sim, é verdade, de alguma maneira, mas é o trabalho que Jesus Cristo está a fazer com a sua Igreja”, conclui.

(Com Ecclesia)