Pelo padre Marco Sérgio Tavares

Tive a graça de em 2020 ter tido a oportunidade de caminhar pela ilha do Arcanjo no rancho Interparoquial de Jesus Maria e José da Várzea, antes do lockdown que impossibilitou a saída de outros ranchos até à data.  Mal sabia eu que aquela romaria seria uma resposta ao velho “rabisco sagrado”: «amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças».

As romarias exigem uma resposta atlética do corpo, inclusive quando os pés estão feridos, o corpo cansado e, às vezes, até enfermo.

O verbo amarás está no imperativo futuro porque as metas de todas as romarias estão fora no nosso alcance.

À medida que nos vamos adaptando, convivendo e desconfinando desta pandemia, desenham -se cenários futuros para a economia, a vida social, uma nova religião ou vivência espiritual da fé sagrada. As romarias e o movimento dos romeiros de São Miguel também não escaparão a este prognostico.

Por bem que se tenha regulamentado, pela boa vontade e esforço de formação, pela Juventude que inunda os ranchos, pelos testemunhos dos grupos paroquiais de romeiros já existentes, a aproximação dos 500 anos de romarias levar-nos-á, necessariamente, a um regresso purificador às origens.

Sou neto de um romeiro contramestre analfabeto, doutros tempos de romarias espontâneas sem pernoitas garantidas, muitas vezes em telheiros, granéis, tulhas de milho ou arribanas de palha, ou frios bancos e chãos de igrejas; onde não havia serviço de takeaway de refeições, nem prontos-a-vestir diários; quando não havia romarias de pobres nem de ricos, nem dispensas administrativas de emprego sem perda de vencimento, ou dias de férias para os privados.

Estou em crer que a espiritualidade e as romarias do pós-Covid 19 serão para quem realmente as quiser. Já ouvimos tantas vezes, mas fizemos ouvidos mouco: “isto é para quem quer”!

Folguei em saber que a Vigararia Diocesana para a Formação quer lançar mão numa certa reflexão sobre a Religiosidade Popular da qual, inegavelmente, fazem parte as romarias de São Miguel. Ouso, pois, traçar possíveis cenários:

  1. As romarias serão para quem realmente quiser fazer uma experiência kerigmática única, que brota da vivência fraterna de grupo, calcorreando os caminhos da ilha com a oração genuína do terço (o breviário dos analfabetos);
  2. os grupos paroquiais não poderão constituir-se em “guetos” ou lobbies dentro de uma comunidade que se quer de fé;
  3. cuidado, coragem e ousadia nas nomeações. Há pessoas que não encaixam no perfil de responsáveis e muito menos de mestres;
  4. acompanhamento espiritual. os párocos não se podem demitir, apesar da espontaneidade das romarias e do seu cariz laical, da sua responsabilidade na preparação espiritual dos encontros, da semana de caminhada, no aconselhamento e direção espiritual;
  5. no plano terreno nada é eterno. Não há cargos vitalícios. Ousemos a conjugação do imperativo futuro do “amarás”. Há que dar asas à novidade, à atualização e a “rebeldia” de sangue novo;
  6. deixemos o folclore, às vezes de mau gosto, de brindes, pagelas, almoços, fotos, reportagens, promoções de autarquias e outras entidades, e regressemos a uma espiritualidade do “escondimento”;
  7. por fim, deixemos de uma vez por todas em cada rancho o axioma: “foi sempre assim”. Foi, mas não será porque carregámos quase 500 anos de história, mais de 2000 anos de Cristianismo. Contudo, as romarias, tal como todos os serviços, ministérios e instituições eclesiais resumem-se sempre ao tripé essencial e fundacional: anunciar, celebrar e amar.

É o sonho para os meus irmãos romeiros do futuro: anunciarás, celebrarás e amarás.

*O padre Marco Sérgio Tavares é colaborador do Sítio Igreja Açores e este texto foi publicado na edição desta sexta-feira no Açoriano oriental.