Os padres Teodoro Medeiros e Pedro Lima falam do sínodo e das suas expetativas em relação à participação dos jovens na vida da Igreja

Quase uma semana depois de ter começado o Sínodo sobre os Jovens, a Igreja e a Fé, em Roma, o Sítio Igreja Açores viajou até Roma para ouvir a opinião de dois sacerdotes açorianos a viver junto do Vaticano e ambos são unânimes: é cedo para conclusões mas a expetativa é de que a igreja escute verdadeiramente os jovens sem colocar de parte a necessidade de os fazer compreender a validade do compromisso com o Evangelho de Jesus.

“A minha expetativa é que se supere a prática da condescendência com os jovens… ou seja, o ter medo de propor o compromisso, os valores altruístas, a auto-negação do Evangelho, a possibilidade da criatividade equilibrada… Não se deve fazer umas coisas para entreter os jovens, com o cuidado de não os cansar, como se fosse um ATL, um passatempo” refere o Pe. Teodoro Medeiros, ordenado em junho de 2000, em plena viragem do Milénio.

O sacerdote que está a fazer o doutoramento em Sagrada Escritura, na Universidade Urbaniana, reconhece que a juventude “é a fase da descoberta dos fundamentos da vida, das razões que sustentarão o coração e a existência por toda a vida” e, por isso, noções como serviço e compromisso não podem deixar de ser sublinhadas.

“O Papa Francisco tem mostrado ter o coração no lugar certo quando privilegia o funcional em vez do institucional, o povo em vez da hierarquia, a periferia e não o centro, a vivência de Cristo quando abriu as portas do Reino aos afastados e repudiou os perfeitos do seu tempo” destaca ainda ainda o Pe. Teodoro Medeiros para enfatizar a importância desta reunião magna.

O presbítero, que na diocese de Angra é também docente no Seminário Episcopal de Angra, recorda que este Sínodo deve ser entendido como uma oportunidade como outras que a Igreja tem vivido ao longo destes dois mil anos e qualquer ministério deve ser visto como um dom.

“Pertencer à Igreja e ser presbítero é dom de Deus: não é ser apenas sacerdote ou profeta ou pregador ou um cristão a sério mas incorporar todas essas dimensões numa missão de serviço. Esses aspetos não mudam e o que possa sair do Sínodo é para mim uma continuidade, um incentivo, um porto na viagem, uma confirmação da dialética do Espírito com a História”, afirma.

“O Sínodo pode ser o vento impulsionador nas velas da Comunidade Católica e a mim em concreto traz-me o conforto que é ver reforçar os ideais que abracei (ou melhor, pelos quais me deixei abraçar) no dia 25 de junho de 2000”, acrescenta frisando que não há receitas únicas para realidades diferentes.

“Falar de jovens em geral é esquecer que existem diferenças culturais e situacionais muito grandes: não existem “jovens”; existem pessoas de diferentes classes sociais, de contextos específicos, com diferentes níveis de educação e com perspetivas de vida diversas e que são jovens” alerta.

O Pe. Teodoro Medeiros reconhece que o documento preparatório parte desta premissa; ainda assim espera que não haja a tentação de “reduzir o debate sobre os jovens a este ou aquele detalhe da participação na Eucaristia (os jovens podem fazer mais do que tocar viola)”.

“Considero que temos vivido nos últimos anos (este pontificado) uma primavera comparável à do Vaticano II: novamente a Igreja levanta um pouco a cabeça para olhar de frente problemas muito reais: os que são excluídos na Igreja, os que não têm acesso à comunhão por causa das ações de terceiros, os que não entendem a linguagem, os que não sabem viver uma fé só de palavras e ritos, os que são hoje considerados perversos por terem ideias diferentes” frisa.

“Fui educado no tempo do Papa João Paulo II e penso que há coisas que mudaram desde então: mudaram as estatísticas da participação dos cristãos nos sacramentos; mudou a imagem pública da Igreja; mudou um pouco a consciência que a Igreja tem de si mesma. Penso que se tornou mais clara a visão da própria biografia de Jesus Cristo para todos nós: o Redentor empenhou-se no contato direto com os simples e todos os que O procuravam em busca da verdade” conclui.

Escuta é, por seu lado, a palavra mais repetida na conversa tida com o Pe. Pedro Lima, um dos mais jovens da diocese. Ordenado em setembro de 2016, o sacerdote está em Roma a fazer a licenciatura em Teologia Dogmática, na Pontificia Universidade Gregoriana.

Habituado a lidar no meio da pastoral juvenil (quando foi ordenado a sua primeira nomeação foi para o santuário de Nossa Senhora da Conceição onde dinamizou o grupo de jovens), o sacerdote não esconde a vontade de que a premissa de que os jovens “são também o presente” ganhe acolhimento na Igreja.

“Como jovem sacerdote comungo das mesmas ideias, por uma Igreja de cristãos protagonistas e não de espectadores” esclarece adiantando que apesar da capacidade de sonhar, principal característica da juventude, assumir compromissos no presente tem de ser também uma realidade.

“O jovem não vive num mundo da ilusão mas da descoberta. Aliado à verdade, vai como Abraão pelo caminho desconhecido até ao Futuro, aquela “Terra da Promessa”, também chamada de Liberdade, Maturidade, Justiça, Verdade e Amor” afirma.

“O Sínodo decidiu meter-se a escutar os jovens, os seus sonhos e dificuldades, aqueles jovens que estão mais próximos, outros mais afastados dos ambientes eclesiais e aqueles outros que dizem acreditar mas não praticam (no sentido pobre do termo). Se imaginarmos uma relação sem escuta, seja na família ou na amizade, perde-se o sentido do “outro” e cada um andaria na sua própria estrada à procura do seu próprio bem. Imaginaríamos uma Igreja que não escuta? Até onde chegaria o seu egoísmo?” interpela o sacerdote que vive atualmente no Pontificio Colégio Português em Roma e por isso convive diariamente com bispos, padres e jovens participantes no Sínodo.

“Nas minhas experiências pastorais deste verão partilho uma. Ao conversar com quatro jovens desconhecidos numa zona balnear, a dado momento identifico-me como sacerdote e logo a conversa tomou um rumo de desabafo e insatisfação. Perante um certo descontentamento na compra de vitrais, sinos e douramento de altar para uma determinada igreja e ao gasto considerável de dinheiro, questionaram-me se esta era a missão (vocação) da Igreja, pois entendiam-na como testemunha e mensageira de Algo/Alguém maior” relata o Pe. Pedro Lima.

“Escutando-os e pensando na resposta, dei-lhes a razão: “Vitrais, sinos e douramento de altar nada têm a ver com os jovens, a fé e o discernimento vocacional“. Aqui está um Discernimento – palavra tão difícil mas tão necessária – para a reforma da Igreja a partir do Evangelho, daquele que nos salva Jesus Cristo” acrescenta ainda.

Por isso, “sonho com uma Igreja em que os jovens não são apenas futuro mas também presente! Pensei também para mim mesmo: “Se a juventude vivesse a alegria da mensagem de Jesus, certamente que o mandato do Mestre «Ide e anunciai o Evangelho a todo o mundo» (Mc 16, 15) ganharia mais cor e entusiasmo numa Igreja de ambiente clericalista e sacramentalista”, esclarece o jovem sacerdote lembrando que ainda é cedo para  dizer com propriedade o caminho que os trabalhos vão ter até dia 28 de outubro.

Os trabalhos sinodais contam com 33 jovens entre os cerca de 260 Padres Sinodais. Decorrem no Vaticano até dia 28 de outubro e pela primeira vez o português é língua oficial do Sínodo, De resto. D. Joaquim Mendes, bispo auxiliar de Lisboa e membro da Comissão Episcopal dos Leigos e Família será o relator das conclusões em português.